03/02/2020 às 12h07min - Atualizada em 03/02/2020 às 12h07min

Ter ou ser: eis a questão!

ANTÔNIO CARLOS DE OLIVEIRA
Estamos discutindo com certa frequência, nos últimos anos, sobre a crise de valores perpassada pelo nosso país, ela não é inédita em nossa história. Há muito convivemos com a naturalização de comportamentos corruptos e desonestos – muitos dos quais acarretaram, inclusive, nossas últimas crises políticas e econômicas. E essa é apenas uma das facetas da inversão de valores que tem tomado os holofotes de nossa sociedade.

Suas raízes vão muito além e, ao investigá-las, eventualmente nos depararemos com a dualidade entre “ser” e “ter”, um dilema enfrentado por todo e qualquer ser humano na era onde o lucro impera sobre todo e qualquer valor cívico e moral. É através da posse que podemos discursar sobre a aquisição de um objeto ou propriedade: ela ocorre quando alguém usa ou pode usar algum dos poderes ligados ao direito de posse, como por exemplo, a guarda, o uso, o gozo ou disponibilidade da coisa. A posse significa ter, reter, ocupar, estar, desfrutar de alguma coisa. Em contrapartida, o “ser” está associado aos comportamentos morais do ser humano, suas posturas no meio social e sua essência.

Essa dicotomia se encontra em seu ápice, já que, no Brasil, nos deparamos cada vez mais com uma exorbitante facilidade de comprar – principalmente para as pessoas que não têm tanto dinheiro. A popularização dos cartões de crédito e dos famosos carnês fizeram com que o consumidor se sinta cada vez mais atraído às compras. A multiplicidade de novos canais para veiculação de anúncios publicitários também é determinante para a efetivação da lógica do consumo. O fato é que, por trás do consumo e da ostentação, está a busca de status social e econômico.

Além disso, vivemos em um contexto social onde a sociedade impõe modismos a todo momento. Por isso, seus indivíduos podem não ser bem aceitos socialmente por não usarem roupas ou acessório de tal marca, ou por não disporem de aparelhos eletrônicos “top de linha”. Embora isto pareça absurdo, a sociedade faz com que estes comportamentos sejam considerados válidos. Talvez por isso as pessoas com rendas baixas também se preocupem tanto em ostentar – para se sentirem mais incluídas perante as classes dominantes, já que as pessoas estão condicionadas a julgarem pelos bens. 

A ostentação nos tenta a exibir coisas falsas, vazias e fantasiosas – alienando-se totalmente a realidade, onde as pessoas sofrem e passam necessidades. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com o “ter” e pensam pouquíssimo no “ser”, esquecendo-se de exercícios básicos de nossa humanidade como a empatia, a compaixão e o companheirismo. Em sua obra-prima “O Pequeno Príncipe”, um livro infantil recheado de grandes lições de vida, o autor Antonie de Saint-Exupéry nos mostra que “o essencial é invisível aos olhos”.

Embora seja muito fácil criticar, quebrar as correntes desse grande mal é mais difícil do que parece. Estamos inseridos, há muito, na lógica do consumo, do “ter”, e contradizê-la é algo que simplesmente não passa pelas nossas cabeças, uma vez que somos ensinados a reproduzir esses comportamentos sem desenvolver grandes reflexões sobre eles. Com essa constante inversão de valores, virtudes como a humildade, sobriedade, despojamento, discrição, simplicidade, modéstia deixam de ser exaltadas, dando lugar ao consumo desvairado e ao nascimento de gerações vis, vazias e alienadas.

É hora de refletirmos, enquanto sociedade, o que queremos deixar para o futuro da humanidade. Afinal, o que vale mais: ter ou ser? Quando viemos ao mundo, como páginas em branco, não recebemos nenhum “manual de instruções” sobre como ter uma vida plena e feliz, mas ainda pequenos somos condicionados a prezar a aparência e a posse e associá-las a verdadeira felicidade.
Pensando estrategicamente... não ligue para aquilo que os outros dizem e pensam sobre você. Infelizmente, as pessoas estão em constantes tentativas de “controlar” tudo aquilo que os outros fazem ou deixam de fazer. Um dos “segredos” para ter paz e desfrutar plenamente da vida é justamente ignorar toda esta pressão consumista. A vida é sua e as rédeas devem estar única e exclusivamente em suas mãos: ninguém tem nada a ver com as decisões que você toma para tentar ser feliz. Nunca se esqueça disso!

Se você não está satisfeito com os rumos que a sua vida está tomando, então pare, reavalie e mude. Lembre-se que você sempre tem a opção de mudar, mesmo que possa parecer difícil ou complicado, mas mais uma vez: a sua felicidade apenas VOCÊ comanda! O poder físico não implica em ser feliz, mas sim em um ilusório poder de dominação e uma falsa sensação de plenitude.
Ostentação de verdade não é aquela em que se possui muito dinheiro, carros e roupas de marca. Ostentação de verdade é ter a alma limpa de maldade, saber agradecer pelo que se tem e estar sempre orgulhoso de ser quem você é. 




*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.







 
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