10/04/2017 às 08h30min - Atualizada em 10/04/2017 às 08h30min

Flerte nos tempos atuais

A frase me chamou a atenção e me fez refletir. Publicada por um amigo de longa data, dizia: “Situação atual: se falar que é bonita é assédio, se chamar de feia é bullying, se não fizer nada é viado”. Imediatamente, lembrei-me de uma postagem de uma prima minha, na qual ela reclamava: “Como se não bastasse a falta de respeito dos carros com as bikes, ainda precisamos enfrentar assédios de machistas tarados que acham que seu corpo está numa apuração de desfile de escola de samba”. Juntei as duas coisas e, imediatamente, reforcei minha conclusão de que estamos em tempos de mudança no qual poucos sabem qual é o passo correto.

Enquanto tomava banho (o chuveiro é o melhor lugar do mundo para reflexões – que me perdoem os ambientalistas), pus-me a pensar em como deve ser um flerte politicamente correto nos tempos modernos. Confesso que não é fácil para mim, pois estou fora do mercado da paquera há quase vinte anos.

De início, parti da premissa de que o flerte é um patrimônio da humanidade, razão pela qual, mudem-se os costumes ou não, ele deve ser salvo por ser uma instituição essencial à existência de nossa espécie. Dito isso, tentei me colocar no lugar de alguém que sai pela noite à procura de aconchego para o seu coração ou de satisfação para o corpo. E se eu encontrasse uma garota que chamasse a atenção dos meus olhos, sorridente e tranquila em um canto do bar? Descartei a hipótese de termos conhecidos em comum, pois isso seria um facilitador e afastaria qualquer necessidade de ação minha que pudesse cruzar alguma fronteira indevida dos novos tempos. Pensei em nós dois lá, como lobo e loba solitários. Lobo? Ainda dá para usar essa expressão sem críticas? Bom, não sei, mas vou usar, já que a chamei de loba também e, por isso, estamos em pé de igualdade. Digressões à parte, falta sair do lugar e pensar em uma maneira de abordar a moça para tentar algo mais além da simultânea presença física em um mesmo local.

Vamos às opções. Chegar e dizer que ela é linda pode fazer com que ela se derrame de felicidade, mas também pode ser interpretado como um gesto machista. Descartei cantadas clássicas também, vez que não afastariam o perigo caso a moça fosse progressista em questões de gênero. Impasse estabelecido: como superar o atrito estático? Como transmitir a ela a simples e direta mensagem: “Olha, eu gostei de você, estou sozinho, parece que você está sozinha também e então eu queria saber se podemos deixar de estar sozinhos?” (essa foi brega – ainda bem que não passou a fronteira do pensamento).

Vislumbrei um único caminho, mas bem seguro. Não falei que ela tinha chamado a atenção dos meus olhos? Pronto! O olhar! Ele é a solução. Não, definitivamente não estou falando do olhar que enfureceu a minha prima na pedalada dela. Olhar para as partes íntimas da mulher transmite muita informação, mas apenas informação que não serve para dizer a ela que você não é um machista deselegante. Porém, o olho no olho, primeiro de forma esguia e tímida, depois de forma um pouco mais intensa, pode abrir espaço para um sorriso e, quem sabe, um sinal de que é possível se aproximar de forma tranquila e despida de qualquer simbolismo de caça – ainda que eu tenha falado em lobos e lobas.

Sim, os olhos são o caminho mais seguro para uma abordagem romântica em tempos de superação de atitudes machistas. Olhos nos olhos e apenas neles. Se ela também estiver com a mesma receptividade que você em relação a uma noite mais a dois do que solitária, e se você couber nas intenções dela, certamente alguma resposta você terá. Talvez um sorriso singelo ou mesmo um olhar procurando você quando seus olhos se distraírem com outra imagem. Daí em diante, a barreira inicial já terá sido superada e bastará não fazer nenhuma besteira para tudo correr da melhor forma possível. E o que é fazer besteira? É ter qualquer atitude que seja constrangedora ou que force a barra. Deixo com você pensar sobre o que configuraria uma situação assim.

Talvez eu não esteja certo nestas minhas reflexões. Aliás, se há uma certeza é a de que elas desagradarão muita gente, homens e mulheres, pois ainda há homens e mulheres machistas, assim como há homens e mulheres que radicalizam nas questões de gênero, não ficando satisfeitos com qualquer solução que se dê para a relação entre homem e mulher. De toda forma, termino dizendo que esse foi o único caminho que achei para harmonizar os desabafos do meu amigo e da minha prima.  

Alexandre Henry Alves - Juiz Federal e Escritor

www.dedodeprosa.com

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