22/01/2020 às 12h18min - Atualizada em 22/01/2020 às 12h18min

Nade com os tubarões

Fernando Cunha
“Você só irá desenvolver a sua comunicação oral, pessoalmente ou através de vídeos, se arriscar-se a praticar com o talento e os recursos que já tem. Quem espera as condições perfeitas para fazer algo, nunca o fará”


Auditório lotado para assistir ao espetáculo musical. A orquestra é aplaudida de pé ao entrar em cena. O maestro é ovacionado por todos, mas a plateia se exalta euforicamente quando surge o violinista, figura principal do show, considerado por muitos como o mito da virtuose. A apresentação começa. O som de seu violino soa diferente e se sobressai em relação aos demais. É algo encantador.

Pouco tempo depois uma das cordas do instrumento arrebenta. A sinfônica para, mas o violinista continua tocando. A orquestra retoma. Uma segunda corda se quebra. Os músicos param novamente, mas o violinista continua com apenas duas cordas, até que o que parecia impossível acontece: mais uma corda se rompe, mas o famoso instrumentista segue a apresentação com uma única corda restante. Ao final, é aplaudido de pé e, desde então, consagrado como um gênio musical.

Este fato teria ocorrido há pouco mais de 200 anos em Gênova, na Itália. O violinista em questão era Niccolò Paganini (1782-1840), músico italiano, famoso por sua grande habilidade com o violino. Dizem que ele executava doze notas numa fração de segundo. O exemplo de superação dele é reverenciado por muitos até hoje. A história de Paganini me remete à passagem bíblica de Davi, que, também com poucos recursos disponíveis, venceu o gigante Golias quando o exército israelita fora ultrajado pelos filisteus no vale de Elá. Usando a armadura e as armas cedidas pelo rei Saul, Davi foi zombado pelos outros soldados, pois era muito pequeno para tamanha indumentária. Ele então deixou a armadura e a espada de lado e encarou Golias com o seu estilingue e cinco pedrinhas. O final desta história já é bem conhecido.

Quantos de nós deixamos alguns afazeres de lado por que pensamos não possuir os recursos desejados? Quem nunca disse: “quando sobrar um dinheirinho eu entro na academia” ou “quando eu tiver mais tempo vou estudar”. Conheço gente que não cria coragem para falar em público por que não se acha preparada. As desculpas são infinitas: “não estou pronto o suficiente”; “preciso estudar mais sobre o assunto”; “tenho que fazer alguns cursos primeiro”; “a luz não está boa”; “quando eu comprar uma câmera boa eu gravo”; “chame o fulano”; “coloque o ciclano no meu lugar”. Pior do que deixar uma oportunidade passar, é o sentimento de frustração que nos invade ao vermos uma outra pessoa ocupando o lugar que seria nosso. Ao contrário, melhor do que transpor um obstáculo, é a sensação de vitória após superá-lo.

Alimentamos a crença de que, para encarar uma plateia, devemos estar extremamente preparados. Preparação é importante, claro, mas seguida de treino e execução. Tony Robbins diz que as nossas decisões, e não as condições, é que determinam o nosso destino. Eu faço natação por uns 40 minutos, quatro ou cinco vezes por semana. Não tenho professor, mas, por sorte, alguns atletas profissionais, inclusive campeões mundiais, treinam no mesmo horário e usam a mesma piscina que eu. Às vezes estou na raia ao lado de um ou dois deles. A sensação é a mesma de um pato nadando com tubarões. Não faço perguntas, mas fico observando os movimentos que eles fazem e aplico no meu treino. Os resultados não são tão extraordinários, mas, aos poucos, venho melhorando o meu desempenho. Então, sempre que desejo me desenvolver em algum aspecto pessoal ou profissional da minha vida, observo os melhores e procuro me igualar a eles, mas sem copiá-los. Não espero os milagres acontecerem, pois, como diz o poeta Sérgio Vaz, “milagres acontecem quando a gente vai à luta”.

Da mesma forma, você só irá desenvolver a sua comunicação oral, pessoalmente ou através de vídeos, se arriscar-se a praticar com o talento e os recursos que já tem. Quem espera as condições perfeitas para fazer algo, nunca o fará! Paganini executou a partitura com a única corda que restou no violino. O pequeno Davi enfrentou Golias com os únicos recursos que tinha. Por isso, de nada adiantará ler dezenas de livros, assistir a centenas de vídeos e participar de milhares de palestras e cursos de oratória, se a pessoa não estiver disposta a aplicar os conhecimentos adquiridos. A grosso modo, é preciso “pôr a cara para bater”. A melhor maneira de aprender é fazendo e o melhor jeito de acertar é errando. Acredito que, naquele momento, enquanto todos diziam “ele é muito grande, eu não consigo”, Davi disse: “ele é muito grande, não tem como errar”. Ele, assim como Paganini, deixou os patos de lado e decidiu nadar com os tubarões.





*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.









 
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