13/12/2019 às 13h26min - Atualizada em 13/12/2019 às 13h26min

Carne moída

CELSO MACHADO
Minha mãe foi uma mulher de poucos estudos. Fez apenas o primário em sua terra natal em Portugal. Mas sempre fazia questão de frisar que havia passado com “louvor”, como dissera sua professora.

Teve uma infância difícil, uma juventude sofrida, um inicio de casamento em que teve que se separar por anos do marido que viera buscar oportunidade de trabalho no Brasil.

A decisão de vir para nosso país, além de firmeza e determinação, de viajar por quase um mês de navio, ainda a obrigou a assinar uma declaração que se minha irmã que sofria de problemas cardíacos, viesse a falecer durante o percurso, minha mãe seria obrigada a jogar o corpo dela no mar.

Felizmente isso não aconteceu. Pelo contrário nossa irmã foi sua enfermeira durante a viagem pois minha mãe sofria enjoo constante com o balanço do navio.

Aqui chegando, a dureza foi maior ainda. Com muita perseverança e firmeza foi o esteio da nossa família e junto com meu pai nos possibilitou excelentes condições de estudo, de oportunidades. Isto muito em função do relacionamento e das amizades que construíram.

Simples pela sua origem e formação, nossa mãe era muito prática e objetiva. Quando meu pai, que era representante comercial, trocava de carro (nem sempre para melhor) e contava como era o novo modelo, ela tinha sempre a mesma resposta na ponta da língua: “tem 4 rodas, anda? Então está bom”.

Especialmente na nossa infância, o cardápio era contido, mas graças à habilidade culinária da mamãe comíamos muito bem. Até demais, o que nos tornou todos “fofinhos”. Sina que não temos conseguido modificar.

Gostava de quase tudo que ela fazia (menos frango ao molho pardo, que até hoje não sei por quê não consigo comer) e principalmente de carne moída.

Depois o tempo foi passando, as coisas foram melhorando e as mudanças alcançaram o cardápio.

De uns tempos para cá, minha tagarelice mental e minhas filosofias “celsianas” têm me levado a refletir porque razão carne moída é um prato considerado marginal. Meio vulgar, sem charme nem apelo.

Logo ela que todo mundo gosta, não custa caro, não exige muitas habilidades no preparo, combina com quase tudo e ainda pode ser a base de vários outros pratos.

Como é meu costume, comecei a fazer analogia entre esse preconceito e a mania que temos, aliás, plenamente justificada por nós mesmos, de complicarmos nossa vida.

De desvalorizar o que temos, que tanto nos agrada, complementa pelo que nos custa muito mais caro e nem sempre nos satisfaz.
Trocamos a roupa que nos acolhe e cai tão bem pelos trajes da moda que a mídia nos impõe. Frequentamos locais pela visibilidade e não pelo acolhimento.

Vamos aonde não sentimos bem, convivemos com quem não gostamos, fazemos o que não nos preenche.

E depois reclamamos das consequências. Só que não modificamos nossas práticas e hábitos.

Posso ser chamado de simplório e confesso que não me importo. Mas se tem uma coisa na minha vida que estou introduzindo com mais frequência tanto no cardápio das minhas refeições, como no da minha vida, é o da carne moída, é o de apreciar as coisas simples e singelas.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.







 
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