09/10/2019 às 10h05min - Atualizada em 09/10/2019 às 10h05min

As ágoras do agora

FERNANDO CUNHA


Na Grécia antiga, no século VIII a.C, discursar em praça pública era considerado uma das habilidades mais notórias de um cidadão. Enquanto a maioria das pessoas se reunia em torno das atividades comerciais, artísticas e culturais, alguns atenienses discutiam suas ideias abertamente e, com isso, gradualmente construíam uma cidade mais desenvolvida e moderna. Estes espaços ganharam a denominação de ágoras, do verbo agorien, que significava tomar decisões, discutir, deliberar. Por meio destas “praças”, os intelectuais da época contribuíam com a formação prática do conceito de democracia, no qual cada um, com suas próprias argumentações, oferecia um ponto de vista diferente e relevante que ajudava na tomada de algumas decisões importantes para o futuro da sociedade.

Dias atrás, conheci um projeto que busca resgatar essa prática grega. Um professor de História de uma escola pública de ensino básico, apoiado por um professor de Filosofia, conduz os alunos a uma praça, onde, vestidos a caráter, usando lençóis simulando as túnicas gregas, deliberam sobre temas que dizem respeito à sala de aula. O projeto, chamado de “ágoras”, é desenvolvido com estudantes do quinto ano do ensino fundamental com idade média de 10 anos. Eles se reúnem sempre que surge um tema importante a ser discutido. Os alunos expõem as suas argumentações e, ao final, decidem através do voto. O que me chamou a atenção é que o projeto, além de consolidar o espírito democrático entre as crianças, também contribui com o amadurecimento da oratória delas.

Uma das razões pelas quais dois terços da população mundial têm medo de se expressar em público é, justamente, a falta de prática. Quem é das gerações nascidas nas décadas de 1960 e 1970 sabe muito bem que os estudantes não tinham voz na escola e as decisões sempre vinham de cima pra baixo. Quando crianças, fomos orientados pelos nossos pais a ficarmos sempre quietos, calados e a não falar com estranhos. A maioria de nós ainda mantém esses costumes até hoje. Nos tempos atuais, é de extrema importância que nossas crianças continuem não falando com estranhos, mas apoiar práticas de desenvolvimento da expressão oral delas contribui significativamente na construção de relacionamentos mais prósperos e duradouros, garantindo um futuro pessoal e profissional mais promissor.

Para nós, adultos, não há como voltar no tempo, mas podemos, desde já, desenvolver a nossa expressão oral e melhorarmos a nossa performance para falar em público. Não há necessidade de apontar dados que reforcem a importância da boa comunicação para o desenvolvimento pessoal e profissional dos indivíduos. É sabido que um advogado que fala melhor tem mais chances de vitória. Um vendedor que sabe argumentar vende mais. Um líder que se comunica com exatidão, poder de decisão e empatia é mais respeitado e querido. Um professor que se expressa com clareza, objetividade e simplicidade é melhor interpretado pelos seus alunos. Um orador que faz seu discurso com mais eloquência e vigor transforma a mentalidade, desperta sensações e aguça os sentimentos dos seus ouvintes.

Falar bem em público é o resultado da união entre técnicas específicas, uma estrutura pré-definida, um roteiro bem desenhado e algum tempo de prática. Qualquer pessoa pode falar bem em público se conhecer esses pontos e praticar. E é exatamente isso que a dica desse artigo se propõe a fazer por nós. Independentemente se estamos ou não num cargo de liderança ou se temos a oportunidade de falar com muitas pessoas no dia a dia, a prática da oratória pode ser usada não só para transmitir conhecimento, mas também para tornar a nossa presença em algo marcante para as outras pessoas. Quando usamos a nossa voz para transmitir somente palavras edificantes, as transformações positivas se tornam não só visíveis, mas também palpáveis.

Prepare um conteúdo relevante para a sua equipe, colegas, filhos ou amigos. Algo que contribua com o crescimento pessoal e profissional dessas pessoas. Treine a leitura deste texto. Agende um dia e horário específico para apresenta-lo, como na segunda-feira de manhã, por exemplo. Fazendo isso toda semana, você estará constantemente adquirindo novos conhecimentos e sempre praticando a sua oratória, o que lhe proporcionará mais segurança e tranquilidade quando surgir a oportunidade de discursar para um público maior. Além disso, por consequência, você será sempre lembrado como alguém que instrui as outras pessoas, agregando valor à vida delas.   

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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