04/10/2019 às 08h09min - Atualizada em 04/10/2019 às 08h09min

Qual startup realmente merece capa de revista?

MARIANA SEGALA

As empresas de tecnologia – especialmente as startups – são rotineiramente colocadas à prova. Primeiro, elas precisam provar para os seus potenciais clientes que são a melhor opção dentre todas as disponíveis no mercado. Têm de mostrar que vale a pena gastar dinheiro comprando as soluções que elas oferecem, e não outras. Depois, devem provar para os investidores que seu modelo de negócio é tão bem azeitado que certamente renderá bons dividendos aos que decidirem apostar nelas. Não é uma tarefa simples. Já contei aqui, algumas semanas atrás, o nível do escrutínio a que os empreendedores são submetidos durante uma apresentação a potenciais investidores. Para eles, interessa conhecer desde os detalhes técnicos das soluções desenvolvidas até o patamar de cordialidade no relacionamento entre os sócios.

Para os empreendedores, as fases iniciais de um novo negócio demandam muito empenho e paciência. Mas não é à toa que elas existem. As estatísticas explicam muito sobre as razões para que as primeiras validações sejam tão penosas. Um estudo realizado pela Fundação Dom Cabral indica que 25% das startups fecham as portas em menos de um ano. Metade consegue sobreviver por, no máximo, quatro anos. E antes dos 13 anos, 75% das startups encerram as atividades. Entre os investidores, costuma-se considerar que, a cada dez apostas, seis vão virar pó – e o investimento, portanto, simplesmente sumirá. Três tendem a dar resultados medianos, o que significa que não se perde dinheiro com elas, mas se ganha pouco. Apenas uma, em geral, consegue encontrar o caminho para se tornar um grande sucesso no futuro.

Sou frequentemente questionada sobre a presença de empresas de tecnologia e startups na mídia. Em geral, os empreendedores se sentem frustrados porque seus novos negócios não viram notícia, mesmo que suas soluções sejam verdadeiramente interessantes. Existem muitas razões para isso – e para conseguir aparecer, as empresas são novamente colocadas à prova. Não basta ter a validação dos clientes e dos investidores. É preciso mais.

Jornalistas são treinados, durante sua vida inteira, para duvidar e questionar. Fazem isso todos os dias, inclusive com as empresas de tecnologia e startups, porque são bombardeados por ótimas ideias de negócios inovadores o tempo inteiro. Some-se a isso o fato de o segmento ter uma linguagem própria, repleta de jargões e termos técnicos pouco conhecidos do público em geral. Como distinguir as histórias que realmente valem a pena daquelas que, em poucos meses, ficarão pelo caminho?

Gosto de duas histórias do Vale do Silício que exemplificam bem o que isso significa. Uma é da Juicero, uma startup que prometia ser a “Nespresso dos sucos”. A empresa desenvolveu uma máquina – com funcionamento semelhante ao da cafeteira – em que pequenos refis de polpa de fruta eram transformados em suco em poucos minutos. A máquina custava US$ 400 e a startup chegou a receber investimentos de US$ 120 milhões. Acabou fechando as portas um ano e meio depois do lançamento, quando os consumidores se deram conta de que bastava abrir os refis com uma tesoura e misturar a polpa em um copo de água (com uma simples colher) para ter praticamente o mesmo resultado.

Outra história foi transformada em um filme, lançado neste ano, sugestivamente intitulado “A inventora”.  Elisabeth Holmes foi a jovem fundadora da startup Theranos, que se propunha a desenvolver um aparelho portátil capaz de fazer centenas de exames a partir de uma gota de sangue do paciente, entregando resultados quase que imediatamente. Ela ficou conhecida como a “Steve Jobs de saias”, depois de levantar investimentos de cerca de US$ 1 bilhão. O problema é que o aparelho nunca funcionou. Para se safar, Elizabeth chegou a falsear resultados de exames ao longo dos anos. Hoje, além de ter se tornado persona non grata no Vale do Silício, aguarda julgamento da Justiça por fraude e conspiração criminosa.

Ninguém quer ser o cliente que comprou a máquina de sucos ou fez exames com resultados falsos. Ninguém quer ser o investidor que apostou suas economias em empresas que acabaram sendo alvo de chacota (na melhor das hipóteses) mais tarde. E ninguém também quer ser quem estampou essas histórias na capa de uma revista.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 

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