28/09/2019 às 08h15min - Atualizada em 28/09/2019 às 08h15min

Petróleo: armadilha da energia finita

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA

Em pleno 2019, o petróleo ainda é a principal fonte de energia do Planeta Terra. Além da gasolina e do diesel, óleos combustíveis para grande parte dos automóveis e aeronaves, o “ouro negro” gera diversos produtos, como parafina, malha asfáltica, polímeros plásticos e até medicamentos. Enquanto o uso das energias renováveis não avança, seguimos presos a ele.

Embora o composto seja um recurso natural abundante, sua prospecção e extração envolvem estudos complexos e, consequentemente, custos elevados. Mesmo assim, 2018 ficou marcado como o ano em que a humanidade mais consumiu petróleo na história. Segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), foram 99 milhões de barris por dia.

Tal relevância torna a venda de petróleo e derivados um fator imperioso da política comercial no mundo. Contudo, nem sempre as nações beneficiadas pela fartura da matéria-prima gozam de vantagens socioeconômicas. No Oriente Médio, o petróleo inflama guerras e conflitos justamente por ser a principal renda daquela região. Vide os recentes ataques às instalações petrolíferas sauditas no Golfo Pérsico.

No âmbito econômico, a abundância de recursos naturais influi consequências gradativas. Ao priorizarem a produção de petróleo e gás, por exemplo, os países deterioram o desenvolvimento de suas indústrias. Esta relação entre especialização na exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro é chamada de “doença holandesa”.

Hoje, a Venezuela é o país detentor das maiores reservas mundiais de petróleo, totalizando 301 bilhões de barris, de acordo com dados da CIA, Agência Central de Inteligência dos EUA. O segundo lugar é da Arábia Saudita, com 266 bilhões de barris, seguida pelo Canadá em terceiro, com 170 bilhões. Na 15ª posição do ranking está o Brasil, com 13 bilhões de barris.

Venezuela e Canadá, dois dos maiores produtores mundiais, não conseguem extrair e vender todo petróleo que detém. Nesses países, a matéria-prima é do tipo densa, que encarece e dificulta o processo de extração. Custando mais para produzir, o lucro também diminui em escala. Mais uma prova de que petróleo não é sinônimo de riqueza.

Grande parte da energia consumida mundialmente é resultante de fontes não renováveis. Esse fenômeno acontece, porque elas possuem características bem conhecidas, preços atrativos e rendimento energético elevado, com eficiente infraestrutura e logística de geração e distribuição.

Uma preocupação constante dos líderes de Estado em relação ao petróleo é a sua esgotabilidade. Por pertencer ao grupo das fontes de energia finitas (como o carvão mineral e gás natural), a reposição do seu estoque na natureza é lenta, pois se dá através de condições específicas de temperatura e pressão que levam milhões de anos.

Outra incógnita que temos é de como usar as fontes não renováveis para gerar eletricidade e abastecer o transporte de cargas e de pessoas sem que elas findem rapidamente. Somando preocupações, tais fontes também são responsáveis pela maior parte da liberação de gases poluentes na atmosfera, impactando a sobrevivência humana e o meio ambiente.

De acordo com pesquisadores da área e ambientalistas, a saída para preservar os recursos naturais do Planeta é explorá-los de forma racional. Além disso, é necessário investir em tecnologia e ciência para o desenvolvimento de fontes renováveis de energia (eólica, solar, hidroelétrica, geotérmica, biomassa etc.) que substituirão as não renováveis.

Pensando estrategicamente... o Brasil está infectado pela doença holandesa desde meados da década de 2000. É nítida a nossa passagem de um país que buscava superávit no setor de bens industrializados, de maior conteúdo tecnológico, para o grupo daqueles que visam gerar superávit no setor de bens primários, com grandes investimentos na indústria petrolífera.

Erradicar a recente epidemia de doença holandesa do nosso território é indeclinável. Só assim conseguiremos sanar os sintomas da dependência do petróleo e retomar o processo de fortalecimento da indústria nacional com diversidade produtiva e dinamismo – gerando desenvolvimento para o país e, consequentemente, emprego para a população.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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