20/09/2019 às 08h41min - Atualizada em 20/09/2019 às 08h41min

“Sua startup faz mesmo o quê?”

MARIANA SEGALA

Quem é empreendedor e tem sua própria startup, ou quem trabalha em uma empresa de tecnologia já consolidada no mercado, certamente escutou essa questão pelo menos uma vez na vida (provavelmente, muitas). Com a testa franzida, as sobrancelhas apertadas e um olhar desconfiado, o interlocutor dispara: “Sua empresa faz mesmo o quê?”

Alguns acolhem a dúvida, e aproveitam a chance para demonstrar o valor da solução que oferecem. Outros a recebem na defensiva, quase como um insulto ou uma demonstração de desprezo pela ideia em que trabalham, às vezes, há anos.

Para um empreendedor, pode ser sofrido notar que os outros nem sempre percebem de imediato a genialidade da plataforma que ele desenvolveu ou quão inovador é o modelo de negócio que ele criou. Não significa – não sempre, pelo menos – que a ideia não valha a pena. Pelo contrário. Ouso dizer que, na maioria das vezes, o que se passa é nada mais do que um problema de comunicação.

Isso não é um privilégio do setor de tecnologia, mas é particularmente comum nesse segmento por duas razões bem simples. A primeira é o fato de que tudo é muito novo nesse ambiente. Nas últimas décadas, as empresas não apenas digitalizaram processos que já aconteciam no mundo analógico. Muitas delas criaram mercados inteiramente novos partindo do zero – pense no marketing digital, por exemplo. Algumas atividades, certos tipos de profissões e muitos termos do vocabulário tech simplesmente não existiam até cinco ou dez anos atrás.

A segunda, derivada da primeira, é que o caminho para a mudança de mindset – o jeito de pensar – das pessoas, em geral, é longo e gradual. Os senhores de 75 anos podem já conversar com os netos pelo WhatsApp, mas o proprietário da padaria da esquina está tão habituado a fazer a contabilidade no bloquinho de anotações que vai levar um tempo até se dar conta de que ERPs (softwares de gestão) também podem servir para o seu pequeno negócio. O acrônimo, portanto, passa longe do seu vocabulário cotidiano.
 
Das duas, uma
Para quem não está imerso diariamente no ambiente da inovação, uma cena comum é revirar o site de uma empresa de tecnologia e passar pelo último pixel sem conseguir entender ao certo o que ela faz. Normalmente isso acontece porque o jargão tech se espalha por todas as páginas, sem espaço para definições mais simplificadas. Convenhamos: descrever uma startup como especialista em machine learning, focada no segmento B2B, oferecendo dados em dashboards intuitivos em uma plataforma de cloud computing, diz pouco ao público em geral.

Também há os casos em que a ânsia por ser simples se reflete em um discurso genérico, que explica menos do que se espera. Você talvez já tenha visto empresas se descreverem com frases como “Usamos a tecnologia para ajudar você a ter mais tempo para o que realmente importa” ou “Oferecemos soluções para a transformação digital da sua empresa”. Exatamente como? Fazendo o quê? Em que parte do negócio? Para que tipo de cliente?

É comum imaginar que, se está interessado em uma solução tecnológica, um potencial cliente provavelmente tem conhecimento técnico para compreender os termos relacionados à inovação. É um engano. A depender do segmento, o mais comum é que não tenham. Lembro do exemplo dado pelo cofundador de uma startup da cidade, durante uma palestra, meses atrás. Nas ações de marketing digital da sua empresa – que desenvolve softwares de gestão para pequenos comércios – não bastava falar em “softwares para lojas”, porque em geral não era assim que seus potenciais clientes buscavam informações sobre o assunto na internet. Era preciso usar termos ainda mais simples, como “programas para lojas”.

Não digo, com isso, que seja fácil elaborar um discurso simples e ao mesmo tempo interessante e inspirador. Mas vale a pena tentar. Se você é um empreendedor, comece descrevendo o que sua empresa faz em um pequeno parágrafo. Nessas linhas, você terá espaço para descrever seus serviços ou produtos de forma direta, mas detalhada. Então, tente resumir tudo em duas frases. Depois, em uma. Em dez palavras. Em cinco. Leia e releia cada trecho atentamente – e experimente pedir um feedback honesto a quem estiver ao seu redor. Quando as respostas começarem a ser positivas, é provável que as dos seus potenciais clientes também serão.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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