13/09/2019 às 08h11min - Atualizada em 13/09/2019 às 08h11min

Como pensa um investidor de startups?

MARIANA SEGALA

Fazia pouco mais de duas horas do começo da plenária quando três empreendedores deixaram o confortável salão em que se reuniam com cerca de 50 investidores, duas segundas-feiras atrás, em Uberlândia. Tinham acabado de fazer seus “pitches”, jargão tech para a apresentação curta e convincente que se faz para despertar o interesse por um negócio. No caso, o objetivo de cada empreendedor era convencer a plateia de que sua própria startup era a melhor opção daquela noite. Do lado dos investidores, o trabalho era ouvir, digerir as informações e escolher qual das empresas (ou quais) era digna de ser estudada mais profundamente – e, quem sabe, receber uma pequena bolada no futuro.

A dinâmica do investimento em startups é de alto risco. Para cada Nubank, Gympass ou QuintoAndar – para citar algumas das mais bem-sucedidas dos últimos tempos no Brasil – centenas de outras fecham as portas antes de conseguir demonstrar que são bons negócios. Algumas, aliás, efetivamente não são. Por isso, o escrutínio dos investidores naquela noite foi tão forte.

Em comum, as três que se apresentaram eram startups ligadas ao agronegócio – e por isso, conhecidas como agrotechs. A plateia, por sua vez, não poderia ser mais especializada. Dividiam o salão do Gran Executive Hotel executivos estabelecidos do setor de tecnologia e grandes nomes do agronegócio local. Havia produtores rurais, integrantes da cadeia de suprimentos, pecuaristas. Todos, profundos conhecedores dos seus segmentos de atuação, com um interesse legítimo nas propostas e dispostos a apostar em algumas.

Esse público, no entanto, não costuma distribuir cheques a esmo. Eles queriam saber tudo sobre as startups que pleiteavam investimento. Para alguns, era a primeira experiência do gênero – e eles precisavam ter certeza de que aplicar termos como plataforma, marketplace, virtualização ou inteligência artificial no agronegócio realmente fazia sentido. Também buscavam entender os modelos de negócio, ou seja, como aquelas empresas pretendiam ganhar dinheiro.

Com os empreendedores do lado de fora, passaram a debater entre si. Haveria clientes interessados naquelas soluções? Quantos, em potencial? A concorrência seria muito selvagem? A equipe de cada startup era suficiente, diante das projeções de crescimento? A relação entre os sócios era saudável? O faturamento que cada uma havia apresentado demonstrava que já não se tratava apenas de uma boa ideia, mas de um negócio de fato?

“Existe um traço em comum entre as startups de maior destaque no mundo. Havia tanta gente de peso envolvida que elas estavam fadadas a dar certo. Queremos fazer o mesmo aqui”, diz Sílvio Passos, um executivo veterano do setor de tecnologia. Passos foi um dos responsáveis por juntar as três startups e os 50 investidores. Ele e mais cinco colegas passaram os últimos três meses desenhando o Agroven, um clube de investidores dedicado a garimpar agrotechs.

Do início ao fim, o processo no Agroven segue algumas etapas. A cada mês e meio, uma plenária é realizada e algumas startups – prospectadas pelos membros do clube – têm a chance de se apresentar. Ao fim do encontro, os investidores votam nas que acreditam que têm mais chances de sucesso. Um grupo de trabalho é formado para estudar a fundo os negócios eleitos e elaborar uma recomendação: se vale a pena ou não apostar em algum deles. Os resultados são apresentados na plenária seguinte e, então, os membros do clube podem escolher entre investir ou esperar pelas próximas opções. O objetivo é levantar, em conjunto, valores na casa de R$ 1 milhão para cada startup selecionada.

A proposta do Agroven é entrar nas startups com investimentos conhecidos como “seed”, ou capital semente. Nessa fase, as empresas normalmente têm um produto desenvolvido, mas precisam aperfeiçoar o modelo de negócio e começar a ganhar mercado. Para elas, a vantagem de contar com investidores experientes no setor é o fato de que o dinheiro vem acompanhado de conhecimento, maturidade e contatos. “É o que chamamos de smart money”, diz Bernado Costa, outro dos criadores da iniciativa. Para os investidores, muitos deles habituados a tocar negócios tradicionais do agro, é uma chance de participar da transformação digital. Se tudo der certo, as empresas deslancham e a parcela que os membros do clube detêm nelas valoriza.

A ambição do clube não é pequena: o objetivo é gerar o primeiro unicórnio do agro brasileiro. A figura mítica é o apelido dado às startups quando alcançam um valor de mercado de pelo menos US$ 1 bilhão (algo tão raro de encontrar quanto um unicórnio). O caminho até lá, é claro, será longo. E talvez tortuoso. Mas certamente, não impossível.

E-mail: mariana@dialetto.com.br

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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