11/09/2019 às 08h18min - Atualizada em 11/09/2019 às 08h18min

Visão de arquiteto

FERNANDO CUNHA

Deixe-me fazer duas perguntas. Não vale entrar no Google e pesquisar para responder, OK? A primeira: qual foi o acontecimento marcante de 11 de setembro de 2001? Acredito que você tenha tirado essa de letra. Há exatos 18 anos, o mundo inteiro se assustou ao ver pela TV as Torres Gêmeas do complexo comercial do World Trade Center, na cidade de Nova Iorque, irem ao chão após o ataque terrorista do grupo islâmico Al-Qaeda. Na manhã deste fatídico dia, dezenove membros do grupo terrorista sequestraram dois aviões e se chocaram com as torres, matando todos a bordo e muitas pessoas que trabalhavam nos edifícios. Um terceiro avião de passageiros se chocou com o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, nos arredores de Whashington, D.C. Um quarto avião caiu num campo aberto na Pensilvânia, após alguns dos reféns a bordo terem tentado retomar a aeronave dos terroristas. Não houve sobreviventes em nenhum dos voos.

Agora, a segunda pergunta: qual foi o acontecimento marcante de 09 de novembro de 1989? Não vale dizer “eu não era nascido nessa época”. Essa parece um pouco mais difícil, mesmo para os da geração anos 80, não é mesmo? Não há necessidade de pesquisar no Google. Na noite de 09 de novembro daquele ano começou a ser derrubado o Muro de Berlin, após 28 anos de sua existência. Construída em 1961 pela República Democrática Alemã, essa barreira física, denominada de “cortina de ferro”, separou a Alemanha Oriental (socialista) da Ocidental (capitalista). Centenas de milhares de pessoas foram impedidas de se verem e milhares de famílias foram separadas por mais de um quarto de século. Muitos foram mortos tentando ultrapassar a barreira ao longo dos anos. A derrubada do muro representou o fim da Guerra Fria e do regime comunista soviético em praticamente todo o mundo.

A reflexão que pretendo provocar acerca destes dois fatos históricos é sobre a tendência que nós, seres humanos, temos de dar mais atenção a tragédias e aos acontecimentos negativos. Nos atentamos mais aos “prédios que caem” do que aos “muros que se abrem” em nossas vidas. Lembro-me que, na minha época de faculdade de jornalismo, dizia-se que, quando um cachorro morde um ser humano, não é notícia, mas quando um ser humano morde um cachorro, isso vira notícia. O jornalismo tradicional sempre se pautou de acontecimentos considerados “anormais”, o que nos condiciona a acreditar que o mundo vai mal. A verdade é que o mundo não está pior. São as coberturas jornalísticas que estão melhores e mais ágeis, principalmente pelos avanços tecnológicos, que nos permitem o acesso e transmissão de informações em tempo real, e pelas redes sociais, que dão voz e liberdade de expressão a qualquer indivíduo com acesso à internet.

Mas o que isso tem a ver com oratória e comunicação eficaz? Antes de explicar, me permita fazer uma analogia. Imagine a construção de uma igreja. Se perguntarmos ao pedreiro: “o que você está fazendo”? Ele responderá: “estou levantando uma parede”. Se questionarmos o mestre de obras, ele dirá: “estou construindo uma igreja”. Já o arquiteto dirá: “estou concebendo um lugar onde as pessoas depositarão todos os seus medos, anseios, expectativas e esperanças”. Percebe a diferença? O arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer (1907-2012), uma das figuras-chave da arquitetura moderna, disse: "passei a vida debruçado na prancheta, mas a vida é mais importante do que a arquitetura. Defendo o acesso à cultura, à beleza, à estética do entorno cotidiano". Niemeyer faleceu dias antes de completar 105 anos de idade. A visão de Niemeyer ia muito além dos padrões convencionais. Talvez essa seja uma das razões de sua longevidade.

E nós, que tipo de visão temos em relação ao uso de nossas habilidades diante dos desafios pessoais e profissionais? Temos visto o copo meio vazio ou meio cheio? Comunicar melhor, inclusive em público, é considerado por nós como um problema, desafio ou oportunidade? Inúmeros estudos no mundo, alguns dos quais já citei em artigos anteriores, reforçam a importância da boa comunicação oral para a evolução humana, inclusive para o crescimento profissional e, consequentemente, o financeiro. Infelizmente, nem todos se dão conta disso. A maioria prefere não investir nesse tipo de capacitação. Dá mais atenção aos “prédios que caem”, e não aos “muros que se abrem”. Como você tem se comunicado sobre a sua profissão, sua carreira e os seus negócios? Com a visão de pedreiro, mestre de obras ou de arquiteto?

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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