04/09/2019 às 08h00min - Atualizada em 04/09/2019 às 08h00min

Cada equipe, um namoro

FERNANDO CUNHA

Todos os colaboradores da empresa aguardam ansiosamente pelas novidades que estão por vir. O novo e jovem líder, ansioso para iniciar a sua gestão inovadora, convoca todos para uma reunião relâmpago, na qual irá anunciar a nova linha de trabalho. Ao iniciar a sua explanação, demonstra total despreparo e insegurança, fica nervoso, sente a gravata apertar o pescoço, a boca seca e ele faz a sua apresentação totalmente “sem pé nem cabeça”. Busca argumentos para transmitir a sua ideia, mas não consegue expressá-los. Apela para o improviso e a situação fica pior. Ao final de sua apresentação, ele não consegue convencer as pessoas de que o seu direcionamento pode ser o melhor para elas e também para a empresa. Esse relato retrata a situação de centenas de milhares de novos líderes que têm a difícil tarefa de promover a sua primeira reunião de apresentação para a equipe.

Muitos líderes novatos de diversas empresas e instituições, talvez por inexperiência, vão para a sua primeira reunião com a nova equipe sem deixar claro o que ele espera de cada um e o que cada um pode e deve esperar dele e sem a definição exata dos próximos passos. Normalmente, o que se faz é uma apresentação breve do seu currículo e uma rápida explanação sobre seus valores pessoais e profissionais. Para os membros da equipe, fica sempre a sensação de que algo está faltando. A incerteza de continuidade no quadro funcional é inevitável. As chances de “levar um fora” são grandes. Para o novo líder, fica o sentimento de que um primeiro dever já foi cumprido, mesmo não apresentando algo concreto e relevante. Uma grande oportunidade de demonstrar a todos que, a partir de agora, há um novo caminho a seguir é perdida. Um novo relacionamento se inicia sem estabelecer vínculos mútuos de confiança. Um beijo é dado, mas sem sabor de quero mais.

Um velho ditado reza que “a primeira impressão é a que fica”. Se não há um impacto positivo no primeiro encontro, dificilmente haverá outra chance para isso. A qualidade de todos os nossos relacionamentos pessoais e profissionais depende desse contato inicial. Quando saímos pela primeira vez com um potencial namorado ou namorada, por exemplo, preparamos tudo nos mínimos detalhes para que o encanto e a motivação não se percam logo no primeiro encontro, não é mesmo? Com uma nova equipe não é diferente. Ela espera algo do novo líder. O que fazer então para que a primeira reunião com a nova turma seja mais eficaz e produtiva? Como preparar um discurso, no qual o líder possa se apresentar e, ao mesmo tempo, oferecer um conteúdo relevante que possa agregar conhecimento aos participantes? E, afinal, como transformar esse momento em algo inesquecível para ele e para a equipe?

Os psicólogos norte-americanos Garold Stasser e William Titus publicaram um importante estudo sobre comunicação de líderes em grupos tomadores de decisões. Apesar de a pesquisa ter sido feita há mais de 25 anos, os resultados ainda são relevantes. Eles descobriram que grande parte das reuniões corporativas é dedicada somente à transmissão de informações já conhecidas. Dificilmente abre-se espaço para que novas ideias sejam expostas. Esse tipo de comportamento tem tornado as reuniões improdutivas, chatas e frias. Stasser e Titus propõem então que, ao promover uma reunião expositiva, o líder deve antes solicitar que todos os participantes se apresentem e emitam as suas opiniões e sugestões à cerca do tema proposto. Depois de todos falarem por um tempo pré-determinado, ele faz o seu discurso.

Uma abordagem semelhante também pode ser aplicada em treinamentos e reuniões de família. Quando a situação é complicada e a contribuição de cada membro é importante, pede-se para que todos reflitam por alguns instantes em silêncio e façam anotações para depois se expressarem ao grupo, um de cada vez. Esta atitude, além de fornecer informações úteis para o direcionamento do discurso final, demonstra que o líder possui uma postura aberta em relação a novas ideias. Além disso, toda atenção dispensada às outras pessoas é revertida em forma de respeito e admiração. É assim que nos sentimos quando alguém importante nos dá atenção, não é mesmo? Seja no começo de um relacionamento amoroso, numa discussão importante em família, em um bate papo com os amigos ou com a nova equipe de trabalho, quando abrimos a possibilidade de conhecer melhor aos anseios e expectativas das outras pessoas, mais assertivas são as palavras que direcionamos a elas. 

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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