14/07/2019 às 08h00min - Atualizada em 14/07/2019 às 08h00min

Eu me vendo (e sou feliz)

ALEXANDRE HENRY

 

Há uma máxima nestes tempos de internet segundo a qual, quando um produto não tem preço, você é o produto. Isso vale para praticamente tudo o que você usa na rede de graça. Como você acha que o Google ganha dinheiro? Simplesmente vendendo anúncios? Não é tão simples assim. Se fosse só mais uma propaganda, seria difícil concorrer com as grandes corporações de televisão, rádio e mídia impressa. Qual é a diferença então? O Google consegue mapear o perfil de seus usuários e, com isso, sua propaganda é muito mais certeira. Ele sabe de onde a pessoa está acessando o computador, por exemplo, bem como o que está procurando na internet. Se a “Loja de Ferraduras” quiser anunciar para o público bem específico que gosta de cavalos, potencial comprador de ferraduras, o Google é bem mais preciso em direcionar essa propaganda, pois vai divulgá-la para quem fizer buscas específicas na rede sobre o tema.

Isso vale para o Facebook e demais gigantes da era da informação, que permitem ao anunciante escolher os dados exatos dos usuários que querem atingir. O Facebook consegue, por exemplo, identificar quem provavelmente está estudando para concursos por conta do conteúdo que a pessoa compartilha e as “curtidas” que dá, vendendo essa estatística para os donos de cursinhos. Experimente entrar no Google e digitar “guia de turismo” algumas vezes. Nos dias seguintes, você verá diversos anúncios de agências de viagens, pode ter certeza.

Eu gosto disso. Pode parecer maluquice, mas gosto. Se eu faço uma busca por dicas de turismo na Argentina e isso é vendido para companhias aéreas e sites de hospedagem como estatística para publicidade, qual é a perda que eu tenho? Sim, vão aparecer anúncios toda hora para mim sobre a Argentina, passagens de avião e hotéis, mas qual é o mal disso, se eu realmente quero ir para lá? Até me ajuda, para ser sincero. Se não quero viajar, é só ignorar os anúncios. Quanto mais a internet sabe dos meus gostos, mais direciona anúncios dos quais eu realmente posso me interessar, poupando-me de publicidade de coisas que não me interessam.

É verdade que isso não representa muita vantagem. Mas, há outro lado muito mais positivo. Eu pensei nisso outro dia ao hospedar de uma só vez quase mil fotos em um site, onde já guardo cerca de 100 mil fotos. Sabe quanto eu pago por isso? Em dinheiro, nada. Pago com essas estatísticas sobre minhas navegações na internet, algo que acho muito pouco pelo que economizo. Se eu fosse comprar um disco para meu computador, para armazenar essas fotos, gastaria boas centenas de reais – isso com o risco de o equipamento queimar e eu perder tudo. Na “nuvem”, como se diz hoje em dia, tenho de graça e acesso de qualquer lugar. O mesmo acontece com milhares de documentos que tenho e, claro, com minha comunicação diária. Pago para acessar a internet, mas não por um serviço específico de troca de mensagem. Muita gente, aliás, comunica-se o dia todo por meio de aplicativos rodando em redes gratuitas de internet. O custo? É a mesma coisa: em dinheiro, nada; apenas em dados estatísticos.

Eu me vendo para essas grandes corporações da internet e acho que sou bem pago. É muita coisa que uso sem tirar um centavo do meu salário. Ah, mas e a privacidade?! Bom, a única coisa que tenho para esconder na minha vida é o conteúdo das decisões judiciais que ainda vou proferir, só que isso está dentro da minha cabeça e, eventualmente, em algum arquivo que não vai ser acessado por mais ninguém. De resto, o que é da minha esfera realmente íntima não vai para a internet e essa precaução eu tomo não porque o Google, o Facebook ou o Twitter vão colocar a minha cara na vitrine, mas porque outras pessoas bem mais físicas do que jurídicas podem, eventualmente, acessar – isso eu realmente não quero. As gigantes da rede, nesse ponto, estão ao meu favor: fazem de tudo para que ninguém acesse minhas informações que quero proteger, ao preço apenas dos dados estatísticos sobre elas.

Eu não sou adepto das teorias da conspiração e vivo feliz assim. É claro que os governos devem estar atentos, assim como as associações civis de proteção ao consumidor, contra eventuais abusos cometidos pelas corporações que dominam o mundo virtual. Não acredito no liberalismo puro e sem vigilância, não sou tão ingênuo assim. De toda sorte, com uma regulamentação responsável por parte do governo, acredito que o produto que represento como consumidor para essas empresas é, como eu disse, bem pago pelo que elas me dão de retorno em forma de serviços – em tese – gratuitos.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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