06/07/2019 às 08h00min - Atualizada em 06/07/2019 às 08h00min

Acordo Mercosul & UE: o salvador da pátria?

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA

O Banco Central (BC) consultou mais de 100 economistas para formular o seu Boletim Focus. De acordo com as previsões, o PIB crescerá uma taxa de 0,9% ao final de 2019. O mercado acreditava em um ano de transição e consolidação de reformas, mas as tímidas projeções econômicas recuam as expectativas de expansão nos primeiros meses do governo Bolsonaro.

Na contramão da baixa taxa de crescimento do PIB, o índice de desemprego é expoente e assola 13 milhões de brasileiros. O desemprego reduz substancialmente o consumo de bens e serviços pelas famílias, que representa 64% da demanda de produção do país. Além disso, o cenário desfavorável gera desconfiança de empresários brasileiros e internacionais.

Esses fatores promoveram uma certa descrença na administração de Bolsonaro. Prova disto é a queda nos Índices de Confiança do Consumidor (ICC) e no de Confiança Empresarial (ICE), coletados em março pela Fundação Getúlio Vargas. Ambos índices representam o menor valor medido desde o segundo turno das eleições de 2018.

A “carta na manga” do governo para contornar essa deterioração da economia era a aprovação da Reforma da Previdência. Contudo, as recentes revisões no texto da Reforma vêm frustrando os agentes mercadológicos e econômicos. O mercado está desanimado com a demora da Reforma (e o seu enfraquecimento), enquanto os investidores perdem a confiança nela e retraem os investimentos.

Dessa forma, temos um governo sem recursos e um setor industrial receoso em investir. Tal combinação atrasa a recuperação da economia brasileira. Recentemente, o IBGE divulgou dados que mostraram que a indústria recuou 1,3% entre os meses de fevereiro e março. Esse tombo foi causado pelo baixo investimento no setor, equiparando-se ao ano de 1996.

Em meio as recessões, o acordo entre Mercosul e União Europeia (UE), assinado no fim de junho, foi um respiro para a economia brasileira. Ambos blocos econômicos representam cerca de 25% da economia mundial, com um mercado de 780 milhões de pessoas. Com o acordo, mais de 90% dos produtos comercializados entre os países dos blocos terão tarifas de importação zeradas.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil pode exportar 1.101 produtos para a Europa. Essa abertura do mercado europeu para produtos agropecuários brasileiros (suco de laranja, frutas, café solúvel, peixes etc.), por exemplo, aumentará os investimentos no Agronegócio, setor potente na recuperação da economia nacional.
Do lado europeu, países como França, Irlanda e Bélgica ainda colocam empecilhos nas questões referentes ao Agronegócio. Eles não querem autorizar a ampliação de cotas de importação para produtos como açúcar, carne bovina e de frango. Já para os países sul-americanos, o fácil acesso aos produtos manufaturados da União Europeia é uma contrapartida essencial.

O acordo com a UE renova o valor do Mercosul, uma vez que o bloco sul-americano vinha negociando apenas com nações de economia pequena, como Israel e Egito. Assim, ele também funciona como uma estratégia de geopolítica. No Brasil, por exemplo, ficaremos menos dependentes da exportação de commodities para países como a China.

Pensando estrategicamente... o acordo entre Mercosul e União Europeia é o passaporte de entrada do Brasil na liga das grandes economias do comércio internacional. Ele também é o mais ambicioso já acertado pelo Mercosul. Em 2018, o Brasil exportou 42 bilhões de dólares aos países da UE, representando o nosso segundo maior mercado no mundo, atrás somente da China. Essas cifras poderão se expandir.

A indústria brasileira acredita que o acordo impulsionará as vendas de setores como o têxtil e de calçados, que sofreram com o aumento de tarifas nos últimos anos. Para

Carlos Abijaodi, diretor da CNI, o acordo dá, ao Brasil, acesso à modernidade e aos centros de inovação.  “Ele não se esgota nas tarifas. Há reflexos positivos que vem com o tempo", afirma.
 
O Ministério da Economia estima que, com a redução das barreiras tarifárias e o incremento na produtividade, o PIB brasileiro aumentará em até 125 bilhões de dólares. Válido lembrar que a firmação do novo acordo com a UE também é mérito de governos anteriores, que articularam diversas negociações ao longo dos últimos anos.

As concessões feitas pelo Brasil não devem ser encaradas como derrotas. Em um acordo de livre comércio, como este, não existem perdedores e vencedores. As aberturas comerciais são estradas positivas de mão dupla.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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