07/06/2019 às 09h28min - Atualizada em 07/06/2019 às 09h28min

Quem gosta de falar tem que praticar ouvir

CELSO MACHADO
Certa vez li uma entrevista com a fundadora da rede mundial de perfumes, produtos de higiene e similares The Body Shop. Me chamou a atenção sua resposta quando lhe perguntaram onde investiria se tivesse que iniciar uma nova atividade, respondeu ela: “Em qualquer produto ou serviço que ajudasse a reduzir a solidão humana”.

Isso foi há bastante tempo quando a internet estava começando a fazer parte da vida das pessoas.

Hoje com todos esses programas, especialmente o whatsapp, vejo como ela estava certa e como as pessoas buscam avidamente o que as mantenha ligadas com outras. Esse remédio funciona, mas não cura. Mesmo conectada online com o mundo, uma enorme população vive solitária. Nestes tempos a carência maior passou a ser outra, a de atenção.

Repare no seu cotidiano, quantas vezes sua conversa é interrompida por uma série de razões e depois o interlocutor nem sequer se dá a gentileza de lembrar sobre o que você estava abordando. Na maioria dos casos, escuta mas não ouve, porque enquanto você fala, ela está sintonizada com o mundo dela, não com suas colocações.

Não é raro numa roda de conversa apenas um querer falar. Basta levantar um tópico, um relato que tem sempre alguém com muito mais a contar sobre eles. E engrena nos relatos numa sequência que perdura até o final do encontro. Emenda um assunto no outro talvez com receio de perder a vez e ter que inverter o papel de falante para ouvinte.

Se tem muita gente com necessidade de falar, poucas têm disponibilidade e paciência de escutar. Porque ficar atento exige concentração, não é apenas ficar calado. Penso que se meu interlocutor nem bem acabei de me expressar já tem uma resposta pronta, uma opinião para dar ele não estava me escutando, apenas ficara em silêncio.

Tente conversar numa roda mais ampla que provavelmente vai perceber isso. A justificativa alegada é a tão comentada “falta de tempo”, mas na verdade a falta é outra, de atenção mesmo. Não sei se por razões profissionais ou por interesse verdadeiro em conhecer pessoas, suas histórias, ideias e colocações tenho me dedicado a ouvir de verdade. Ir além de escutar, mas tentar entender. Abrir a cabeça para refletir até mesmo sobre questões que para mim sempre foram “verdades absolutas”. E mesmo nem sempre conseguindo administrar bem esse quesito, falar menos...

Notadamente os “menos novos” como gosto de rotular ficam tão agradecidos com isso que nasce uma empatia que não termina no final da conversa. Por isso ultimamente tenho falado que meus novos amigos não são tão novos assim. O melhor dessa nova prática que estou adotando é constatar principalmente naquelas pessoas cuja sabedoria vem da vivência, que a gente aprende muito mais ouvindo do que falando...

Quem gosta de falar tem que praticar ouvir. Isso não estava na entrevista com a fundadora do The Body Shop: é a vida que tem me ensinado. Boa semana a todos e já falei demais...



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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