01/06/2019 às 09h00min - Atualizada em 01/06/2019 às 09h00min

Everest: hormônio da exclusividade

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA
No ano de 1983, o americano Richard Daniel "Dick" Bass criou um desafio que mudaria os rumos do montanhismo mundial. Fazendeiro e proprietário de um resort de ski em Utah (EUA), Bass – na época com 51 anos – decidiu escalar a montanha mais alta de cada continente do planeta. Era o surgimento do Seven Summits (“Sete Cumes”): desafio que instiga alpinistas e montanhistas do mundo todo até hoje.

Os Sete Cumes de Bass são compostos por: Pirâmide de Carstensz (Oceania) com 4.884 metros de altitude; Monte Vinson (Antártida) com 4.892 m; Monte Elbrus (Europa) com 5.642 m; Monte Kilimanjaro (África) com 5.895 m; Monte Denali (América do Norte) com 6.190 m; Monte Aconcágua (América do Sul) com 6.191 m e Monte Everest (Ásia) com 8.848 m. Na lista de Bass, o Monte Kosciuszko (Austrália) era o representante da Oceania.

Completar os Sete Cumes, na década de 1980, envolvia mais do que simplesmente força de vontade: não havia estrutura adequada para montar a base das escaladas e os custos com as viagens intercontinentais eram altos. Talvez, por isso, o montanhismo foi – e ainda é – um esporte considerado “de elite”. O atleta precisa de garra, investimento e tempo livre para praticá-lo.

Dick Bass foi o primeiro a concluir seu desafio, alcançando o cume do Monte Everest em 30 de abril de 1985, depois de duas tentativas fracassadas. Na época, o governo de Nepal liberava apenas cinco permissões por ano para escalar o Everest. A fila para conseguir uma dessas permissões era imensa. Para completar os Sete Cumes, Bass precisou “furar” a fila e financiou uma expedição norueguesa, garantindo-lhe um lugar preferencial naquela escalada.

A afixação pelo montanha mais alta da Terra existe há muito tempo. Antes de se chamar Everest, ela foi batizada com o nome de Pico XV. Seu nome atual é uma homenagem a George Everest, ex-diretor da Survey of India – organização de cartografia e topografia da Índia britânica – e o primeiro homem a estabelecer a altitude e posição do cume do monte, no ano de 1.841.

Mas o que leva as pessoas a quererem fincar uma bandeira no topo do Everest? Alguns realmente fazem por patriotismo. Existem os alpinistas profissionais que chegam lá empurrados pela pressão dos patrocinadores. E, agora, surge uma nova categoria de atletas: os amadores desavisados, que são movidos pela autorrealização ou exposição midiática do feito – vulgo, fama.

O alpinismo é uma atividade desportiva realizada em montanhas de grande altitude, acima dos 2.500 metros. Ele exige preparação física, condicionamento, técnica, equipamentos apropriados e um guia experiente, para escolher o melhor percurso e assegurar a cordada (ligação de vários montanhistas uns aos outros por uma corda). Demanda bem mais do que um smartphone para garantir a selfie.

Apesar dos acidentes e do custo elevado das expedições, a cada dia vemos um número maior de pessoas indo ao Everest praticar turismo de aventura. Boa parte delas justifica a experiência com o fascínio pelo risco.  Entretanto, não existe garantias quando lidamos com a natureza. Os mais corajosos chegam a gastar 100 mil dólares pela remota chance de pisar no topo da montanha.

Todos os conceitos de risco englobam a diferença entre realidade e possibilidade, pois levam em conta os imprevistos, tanto no que tange as atividades humanas quanto as causas naturais. Contudo, o risco no alpinismo libera adrenalina, hormônio responsável por recompensar o nosso organismo pelos nossos grandes feitos. Tal experiência de sentidos transforma qualquer ser humano aventureiro em autor da sua própria narrativa.

Pensando estrategicamente... a superação dos obstáculos é elemento importante de reflexão na tomada de risco no alpinismo de alta montanha. O fato de o alpinista exceder os seus limites continuamente remete-nos para uma necessidade intrínseca da própria humanidade: a superação eterna. Sua tentativa de chegar ao cume pode ser interpretada como uma forma de transcendência pessoal, que poderão resultar em reconhecimento social e distinção.

Desta forma, podemos comparar o alpinista ao arquétipo do herói, na medida em que as exigências do alpinismo de alta montanha preceituam uma dramatização midiática da sua conquista. A imensidade da montanha proporciona sensações de prazer, e os riscos inerentes ao próprio ambiente conduzem ao temor de não os controlar. Porém, quando feito, resulta em um momento sublime, páreo ao de heroicidade.

Em 1998, ao fazer a leitura de "No Ar Rarefeito", livro do jornalista Jon Krakauer, meu objetivo foi o de procurar entender as pessoas que se expõem ao limites do risco, mesmo encarando o perigo iminente da morte. “Olhar o Everest e o tamanho do desafio, nos faz pensar no sentido da vida e no poder, por vezes terrível, dos sonhos”.

*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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