04/05/2019 às 08h00min - Atualizada em 04/05/2019 às 08h00min

Planejar não é o nosso forte!

ANTÔNIO CARLOS | ANALISTA DE NEGÓCIOS E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO
Nos primórdios, nossos ancestrais já analisavam seus problemas, organizando suas ações de forma lógica, a fim de encontrar alternativas para solucioná-los. Tais práticas são denominadas hoje como planejamento. O termo é usado para designar o processo racional e científico de problemas – seja por uma ação continuada sobre um conjunto dinâmico de variáveis, ou por tomadas de decisões baseadas em conhecimentos técnicos.

Nessa perspectiva, planejar está ligado à definição das atividades necessárias para atender determinados problemas, levando em conta os condicionamentos impostos a cada caso, como os recursos e prazos disponíveis. Todavia, planejar não diz respeito somente às medidas necessárias para sua adoção, mas também ao acompanhamento da execução, controle, à avaliação e redefinição de ações.

Enquanto ator no palco da função administrativa, o planejamento deve ser o protagonista em cena. Planejar, portanto, é a base para otimizar processos, determinando antecipadamente o que deve ser feito e quais objetivos precisam ser atingidos.

O planejamento implica em traçar um futuro possível e alcançá-lo, a partir de análises concretas das oportunidades e problemas do futuro, bem como explorá-las ou combatê-los. Ele permite a determinação de objetivos, políticas e estratégias, traçando planos para consegui-los. Além disso, estabelece uma meta para a tomada de decisões e inclui uma revisão dos objetivos que alimentarão o próximo ciclo planificador.

Levando em conta apenas seu aspecto racional, o planejamento seria a prática que orienta naturalmente as ações dos indivíduos, mesmo que não tenham controle sobre elas. Portanto, todos somos planejadores natos. É importante que tenhamos raciocínio de planejadores, e não de produtores de planos infinitos.

Contrariando a ideia reducionista de “resolvedores de problemas”, os planejamentos são desenhados para serem uma técnica corporativa conscientemente implementada para a continuidade das demais atividades das organizações. Ao planejar, observamos as incertezas estruturais que vão surgindo, e garantimos a consistência do desempenho do negócio.

Planejando, chegamos à conclusão de um adiamento ou cancelamento de uma decisão importante, por exemplo, porque estamos preparados para lidar com os imprevistos. Tais indecisões exigem que pesemos na balança os custos e benefícios. Entretanto, ter uma equipe com pessoas para pensar, avaliar e praticar os planejamentos é essencial, senão eles estão fadados a ficarem apenas no papel.

Nosso país é um dos líderes do empreendedorismo no mundo. De acordo com o Sebrae, 3 em cada 10 brasileiros adultos estão envolvidos, de alguma forma, com uma iniciativa de negócio próprio. Todavia, o espírito empreendedor atropela a etapa do planejamento, tornando o sucesso do negócio mais improvável a cada dia. O imediatismo também contribui para a falta da cultura de planejamento no Brasil.

Especialista em estratégia empresarial e CEO da Stratec, Guilherme Barbassa conta que o número de empresas que fazem um planejamento estratégico é mínimo. “Os gestores se ocupam em fazer a operação e acabam não conseguindo pensar na estratégia. E a implementação de uma prática de gestão requer um esforço inicial significativo para criar um plano e implantar”, explica.

O ideal é que os gestores dediquem boa parte do tempo para o planejamento de ações que contribuam para os objetivos do negócio, delegando as atividades operacionais a outros profissionais. No entanto, como sabemos, nem sempre é possível, devido às limitações de orçamento para contratações de especialistas da área.

Pensando estrategicamente... planejamento é o nosso calcanhar de Aquiles. Grande parte dos empreendedores cria empresas por uma única razão: prover rendimentos para a sua subsistência, obter lucro. Os MEIs evidenciaram essa característica de subsistência familiar das empresas, em especial as micro, que surgem como geradoras de renda durante as épocas de crises.

Quando o único objetivo é lucrar, perde-se de vista o potencial que o negócio tem para agregar valor à sociedade, incrementar a economia e trazer novas soluções para o mercado. Se o propósito da empresa deixa de existir, ela também deixará de fazer sentido. Resumindo, quando essas empresas deixam de dar lucro, elas são fechadas.

O brasileiro precisa criar o hábito do planejamento, caso contrário, manterá a tradição de ver seus sonhos quase sempre terminarem em fracassos estrategicamente improvisados.
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