08/03/2019 às 10h12min - Atualizada em 08/03/2019 às 10h12min

Oportunidade gera resultado

MARIANA SEGALA
No sábado de Carnaval terminaram as inscrições para o primeiro ciclo de 2019 do Uberhub Code Club. Sou uma entusiasta dessa iniciativa do ecossistema de inovação de Uberlândia. Trata-se, em poucas palavras, de um treinamento que procura apresentar temas como raciocínio lógico e programação a jovens de 14 a 21 anos de idade. Eles são, basicamente, estudantes do ensino fundamental e médio e dos primeiros períodos de cursos superiores, que durante o ano participam de encontros presenciais e realizam atividades remotas relacionadas às ciências da computação. Tudo de graça. O programa termina com uma maratona de programação, em que são distribuídos prêmios como laptops, smartphones e viagens. Não se espera que a garotada encerre o ciclo como programadores formados, é claro. O objetivo é aproximá-los do mundo da tecnologia, um ambiente ao qual talvez nunca tivessem acesso não fosse o Uberhub Code Club. Plantada a semente, também se imagina que possam cogitar trilhar um caminho profissional na área, que permanentemente demanda gente qualificada para trabalhar – inclusive aqui na cidade.

Talvez alguns se perguntem se disciplinas dessa natureza, que envolvem habilidades típicas das ciências exatas, têm apelo entre adolescentes. A receptividade ao programa evidencia que sim. Foram realizadas nada menos de que 748 inscrições para o primeiro ciclo – haverá outros dois ainda em 2019. No ano passado inteiro, participaram do Uberhub Code Club um total de 768 jovens. A meta de atingir 1.500 pessoas ao longo dos três ciclos previstos para este ano, ao que tudo indica, será superada.

Com tamanha demanda, a equipe de voluntários que organiza a iniciativa – são nove pessoas – se debruça sobre as planilhas desde a Quarta-feira de Cinzas, numa tentativa de dividir a turma em grupos mais ou menos homogêneos. Dois terços dos inscritos não conhecem nada do assunto, enquanto o outro terço já tem algum nível de familiaridade, ainda que mínimo. É essencial garantir que todos os participantes consigam extrair o melhor do conteúdo diante da sua própria realidade.

Uma parte da beleza do projeto está na maneira como é viabilizado. As aulas presenciais são ministradas nos laboratórios de informática de universidades da cidade, espaços que, naturalmente, ficam ociosos aos fins de semana. À Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que cede suas instalações para o projeto desde o início, se juntaram neste ano instituições como Uniube e Pitágoras. Os instrutores, que somam cerca de 20, recebem uma bolsa financiada por um grupo de 15 empresas locais. As cotas de patrocínio coletadas em 2018 asseguraram um orçamento de R$ 98 mil, valor quase simbólico dado o impacto potencial da iniciativa. As vagas são destinadas prioritariamente a estudantes da rede pública de ensino, embora os esforços sejam para acomodar todos os interessados dentro da estrutura do programa.

Há sinais de que, proporcionando oportunidades, os resultados aparecem. No ano passado, um dos eventos mais tradicionais relacionados ao ensino de computação no país – a Olimpíada Brasileira de Informática (OBI), organizada pela Sociedade Brasileira de Computação – registrou três medalhistas de Uberlândia. Os três eram alunos ou instrutores do Uberhub Code Club. O bom desempenho deles, aliás, não passou despercebido além dos limites da cidade. Os “olheiros” do mundo da tecnologia já capturaram para si próprios alguns dos talentos daqui. Duas jovens instrutoras e uma aluna do programa migraram para Fortaleza neste início de ano, após receberem oferta de bolsas de estudos para concluir o ensino médio nas escolas de lá. Uberlândia, a propósito, certamente tem muito a aprender com a capital cearense. Cerca de 30% das mais de 400 medalhas distribuídas na OBI de 2018 foram para jovens moradores de lá.

Formar novos talentos deve estar entre as prioridades dos integrantes do ecossistema de inovação. Mantê-los na cidade, também. Até há pouco, as oportunidades de fazer carreira no setor de tecnologia local eram limitadas. As empresas do segmento eram casos isolados, ainda que empregassem em escala. Para galgar novos degraus, era preciso sair. Os limites da inovação, no entanto, mudaram nos últimos anos. É possível se desafiar em qualquer lugar, inclusive aqui. Que os mais jovens participantes do Uberhub Code Club possam ser capazes de enxergar as oportunidades que os aguardam.
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