27/02/2019 às 08h19min - Atualizada em 27/02/2019 às 08h19min

Liderança e objetividade

FERNANDO CUNHA | JORNALISTA E PALESTRANTE
Por mais que um líder tente, nunca agradará a todos. Nem o maior dos líderes da história conseguiu isso. Dificilmente uma pessoa consegue a simpatia de toda uma equipe, de todos os colegas, de todos os parentes, de todas as pessoas ao redor. Da mesma forma que nos damos o direito de não gostarmos de algumas pessoas, outras pessoas se dão o direito de não gostarem de nós. É natural. O problema é que, quando estamos numa posição de liderança e somos o centro das atenções, querendo ou não, os olhares e sentimentos desaprovadores sobre nós se multiplicam. Diante dessa realidade, temos a tendência de nos sentirmos acuados e optamos por não demonstrar que temos muitos conhecimentos, habilidades e atitudes. Preferimos manter comportamentos neutros diante de liderados, pares e superiores.

Quantas vezes somos criticados por colegas e amigos somente pelo fato de possuirmos certas aptidões especiais? É o cúmulo da incoerência. Conquistamos algum destaque e as pessoas logo dizem: “olha aí o sabe tudo”, “olha aí o faz tudo” da equipe. Se desenvolvemos algumas habilidades especiais, como, por exemplo, falar bem em público ou aprender uma nova língua, os acomodados logo dizem: “esse aí teve sorte na vida”. Pessoas medíocres não reconhecem o esforço alheio, pois não sabem o que é isso. O pior é que, sem que a gente perceba, esse tipo de sentimento também nos contamina. Vez ou outra, de maneira involuntária, somos impregnados com o espírito de inveja e rivalidade.

Quando alguém tenta nos mostrar suas qualidades, também nos sentimos inferiorizados. Partimos para a defesa e, consequentemente, para o ataque. O mundo corporativo, altamente competitivo e ambientalmente tóxico, nos coloca numa posição de extrema vigilância. Sempre que alguém quer se sobressair a nós, principalmente no trabalho e nos negócios, nos sentimos ameaçados, achando que alguém está tentando “puxar o nosso tapete”. Quando não temos a consciência de nossas potencialidades e não estamos seguros de nós mesmos, caímos na armadilha da mediocridade e nos tornamos inseguros. Não percebemos que o nosso maior medo não é o do fracasso. Temos, sim, medo do sucesso que nos tornará evoluídos e diferentes dos demais.

Em termos de comunicação interpessoal, uma postura objetiva diante de situações como estas pode tornar o fardo menos pesado. Basta delimitarmos o conteúdo de nossas conversas com as pessoas de acordo com a posição que elas assumem em nossa vida profissional. Ponderar de maneira equilibrada as nossas colocações verbais diante de certas pessoas potencializa o nosso poder de atenção às ameaças e abre nossa sensitividade às oportunidades. Nem tudo pode ser dito a todos. De que adianta desperdiçar energia querendo demonstrar às pessoas erradas que possuímos certos conhecimentos, habilidades e atitudes? Objetividade evita desgastes desnecessários e nos coloca num patamar de extrema excelência profissional.
Na prática, funcionaria da seguinte forma: quando tratamos com liderados, devemos focar na transmissão de conhecimentos. A nossa posição hierárquica já demonstra que possuímos certas habilidades e atitudes. Senão, não estaríamos onde estamos. Os subordinados querem aprender algo novo conosco e, quando compartilhamos conhecimentos, agregamos mais valor à vida profissional deles. Se a conversa é com outros profissionais de mesma posição hierárquica, o foco do assunto são as habilidades que possuímos e como elas, somadas às habilidades dos outros, podem proporcionar um melhor desempenho em busca de resultados comuns para ambos e para a empresa ou instituição que trabalhamos. Agora, quando a conversa é com superiores a nós, o foco é nas atitudes. Os superiores querem saber o que podemos oferecer em termos de resultados. Eles não estão interessados naquilo que sabemos (conhecimentos) ou fazemos (habilidades).

Grandes líderes conhecem a si mesmos e sabem que a opinião dos outros não importa, a não ser que seja uma opinião construtiva. Parafraseando o finado poeta, compositor e cantor Renato Russo, da banda Legião Urbana, grandes líderes não perdem tempo tentando provar a todo mundo que não precisam provar nada a ninguém e não falam demais por não terem nada a dizer. Grandes líderes sabem o que, para quem, como, quando e por quê dizer algo. Conhecimentos, habilidades e atitudes são tesouros profissionais que podem nos levar ao topo, desde que saibamos guarda-los a sete chaves e compartilhá-los apenas com quem sabemos que os valorizarão no momento certo.  
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