30/01/2019 às 08h19min - Atualizada em 30/01/2019 às 08h19min

Poder e autoridade

FERNANDO CUNHA | JORNALISTA E PALESTRANTE
O capitão de um navio, ao verificar pelo radar que existe outro objeto à sua frente, insiste para que o mesmo mude sua rota 10 graus para o sul. Do outro lado vem uma ordem para que o capitão mude sua rota 10 graus ao norte. Irritado por ter sua ordem desobedecida, o capitão braveja com o interlocutor e insiste: “mude sua rota 10 graus ao sul”. Categoricamente, o interlocutor repete a ordem: “mude sua rota 10 graus ao norte”. Diante de tanta petulância, o capitão rebate: “eu sou um capitão e estou num navio altamente armado. Portanto, exijo que mude sua rota”. A resposta veio rapidamente: “eu sou só um marinheiro de primeira classe e estou em um farol. Portanto, sugiro que mude sua rota”. Essa pequena história nos revela que o poder pode tornar as pessoas idiotas e arrogantes. Neste caso, o capitão do navio não fez uma pergunta sequer para entender a situação antes de dar uma ordem. Isso é o que acontece com muitos profissionais que conquistam cargos de chefia e caem no erro mortal de acharem que estão sempre com a razão.

Autoridade não é, necessariamente, sinônimo de poder. Qual gerente, supervisor ou chefe de equipe nunca se irritou por ter uma ordem não cumprida? Logo depois verificou que o subordinado só não a cumpriu para evitar o que talvez poderia ser um desastre. Deve ter sido difícil encarar e assumir o erro, não é mesmo? Qual subordinado nunca se viu na obrigação de mostrar ao líder que ele poderia estar equivocado? De um jeito ou de outro, situações como essas ocorrem todos os dias, não só em empresas ou instituições que possuem níveis hierárquicos de comando, mas com um pai de família, com o treinador do time de futebol, com o presidente da associação de moradores e até mesmo entre sócios de um pequeno escritório. Nem sempre é necessário um cargo para que pessoas deixem o poder subir à cabeça.

Na maioria das vezes, o choque existe quando o líder confunde o poder simbólico com o poder real. O primeiro é quando há uma escala hierárquica, uma posição específica de comando. O segundo é conquistado e gera influência sobre os liderados pelo caráter da pessoa que está no comando, independentemente de um cargo. Por assumir uma posição que exige mais responsabilidade sobre os demais, o profissional acaba incorporando uma sensação de poder. Acontece que no perfil atual das organizações, a figura do líder não é mais como a de um detentor de poder, mas a de um profissional responsável pela gestão dos processos e das pessoas, o que inclui delegar tarefas e responsabilidades. O líder, na atualidade, se tornou um gestor de relacionamentos. Hoje, ele deve conquistar o poder junto à sua equipe, e não impô-lo. Se a equipe entender que o líder está tentando exercer uma relação de poder coercitivo e punitivo sobre ela, todos se juntam e relatam o problema às esferas superiores.

Não são simbologias de autoridade que farão com que as pessoas respeitem o líder. O líder de hoje não possui funcionários ou empregados, ele possui seguidores. Assim como não existe capitão sem tropa, não existe líder sem equipe. O que fará as pessoas seguirem o líder é a sua capacidade de mostrar a elas como é capaz de cuidar delas, e não como é capaz de mandar nelas. Engajamento se conquista através de relacionamentos respeitosos e pacíficos. Quando o líder se comunica com humildade, respeito e empatia, as pessoas deixarão que ele as guie. Quando Winston Churchill se dirigia à nação do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, as pessoas diziam “vamos lutar”. Não por que Churchill era uma autoridade, mas por que exercia poder real. Ele demonstrava aos britânicos o quão eles eram importantes para defender a nação naquele momento. O propósito era o grande diferencial.

O líder de verdade transforma autoridade simbólica em poder real, confia na equipe e tem certeza de que ela fará o melhor. Um líder que engaja sabe que o que importa são os motivos que nos levam a fazer o que fazemos e tira isso de sua equipe. Ao invés de dar uma ordem, simplesmente, o grande líder procura entender se quem recebe a ordem está apto a cumpri-la, de maneira confortável e eficaz, de acordo com suas possibilidades. Por isso, ao se relacionar com nossos liderados, devemos nos lembrar da arrogância e presunção daquele capitão do navio que não teve sua autoridade e poder reconhecidos pelo marinheiro do farol. Poder não é algo que o líder tem. Poder é algo que as pessoas lhe dão.
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