18/01/2019 às 08h57min - Atualizada em 18/01/2019 às 08h57min

Agora é que são elas

MARIANA SEGALA
A primeira reportagem que escrevi para a revista Exame, onde trabalhei como repórter no início da década, descrevia os desafios das mulheres à frente de grandes empresas de tecnologia. Era, mais especificamente, de Virginia Rometty que o texto falava. Aquela americana, uma cientista da computação com 30 anos de carreira, havia sido nomeada a mais nova presidente da IBM. Não era a primeira mulher a assumir o comando de um colosso da tecnologia, mas sua ascensão ao topo ganhava contornos especiais – a empresa, veterana de um setor em transformação permanente, vinha de gestões excepcionais e crescia consistentemente há anos. Virginia tinha muito a provar. O sucesso global de tecnologias como a plataforma de inteligência artificial da IBM – o IBM Watson – é um exemplo do que a devotada executiva tem conseguido fazer à frente da companhia, uma resistente centenária de um setor onde os negócios surgem e acabam em intervalos cada vez menores.

A tecnologia é um segmento predominantemente masculino. O debate sobre as razões desse desequilíbrio – que passam por fatores culturais e educacionais, para ficar no mínimo – invariavelmente termina com discussões acaloradas. Mas os fatos são os fatos. Dos programadores no Brasil, cerca de 17% são mulheres. Globalmente, de cada dez entrevistas de emprego realizadas para suprir vagas em tecnologia, apenas três são com mulheres, segundo o grupo de empresas de recrutamento PageGroup. No ano em que Virginia se tornou CEO da IBM, apenas 16 mulheres ocupavam a presidência de uma das 500 maiores empresas americanas.

É passo por passo que se constrói um ambiente mais receptivo às mulheres no campo da tecnologia. E é inspirador notar como, aos poucos, elas têm ganhado projeção também na cena local. Postos chaves do ecossistema da inovação em Uberlândia são ocupados hoje por mulheres. Na Algar, há pelo menos dois casos emblemáticos. Um está na Algar Tech, empresa do grupo que desenvolve soluções tecnológicas de relacionamento com clientes. Tatiana Penato, que entrou no grupo como estagiária duas décadas atrás, se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de CEO da companhia, no início de 2018. Era, na verdade, um fato inédito no grupo inteiro – nunca antes uma mulher havia presidido qualquer uma das empresas. Sob a sua batuta estão nada menos que 12 mil profissionais, que têm participado de um amplo processo de transformação digital colocado em marcha na Algar Tech.

O segundo caso está no Brain, centro de inovação em negócios digitais da Algar Telecom. Lá, são construídas parcerias com outras empresas para desenvolver produtos e negócios inovadores. Poucos meses depois de Tatiana abrir os trabalhos, a engenheira Zaima Milazzo seguiu um caminho parecido, assumindo a presidência do Brain no fim de 2018. É seu papel estreitar o relacionamento com o ecossistema da tecnologia na cidade, em busca de boas ideias que possam ser implementadas em conjunto.
Foi pelas mãos de uma mulher que Uberlândia se tornou a primeira não-capital brasileira a sediar uma representação da Singularity University, a icônica instituição de ensino localizada dentro de uma base de pesquisa da Nasa, na Califórnia. Anna Paula Graboski, CEO da Landix, empresa que desenvolve softwares para automação de vendas, voltou de sua própria imersão no Vale do Silício querendo compartilhar aqui as experiências que teve lá.

Desde quarta-feira, também cabe a uma mulher desenvolver as ações da Diretoria de Inovação, órgão da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Turismo da Prefeitura de Uberlândia. A administradora Fran Rodrigues foi nomeada a titular da pasta na última semana. Uma das líderes do movimento Uberhub Mulher, que procura disseminar a cultura do empreendedorismo no público feminino, Fran assume uma tarefa e tanto. Em dois anos, a diretoria desenvolveu ações pioneiras. Pela primeira vez, um censo conseguiu mapear os atores do ecossistema local de inovação – que, aliás, ganhou nome e força com isso. Também foi capaz de fazer marcharem juntos poder público e iniciativa privada, em projetos como o Uberhub Code Club, programa gratuito de atividades extracurriculares que procura apresentar o universo do raciocínio lógico e da programação a adolescentes e jovens adultos.

Para cada uma dessas mulheres notáveis, existe uma legião de outras tantas anônimas inspiradas pelas conquistas delas como se fossem suas próprias. Obrigada, parabéns e boa sorte.
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