12/06/2021 às 08h00min - Atualizada em 12/06/2021 às 08h00min

Queimaduras causadas por acidentes com álcool representam 64% dos casos atendidos pelo Setor de Queimados do HC-UFU

Atendimentos feitos pelo Corpo de Bombeiros de vítimas de queimaduras aumentou em mais de 87%

NILSON BRAZ
Grávida de aproximadamente 7 meses, Débora teve mais de 40% do corpo queimado em acidente envolvendo o álcool 70% | Arquivo pessoal
Com a pandemia da covid-19, o álcool está mais presente nas prateleiras das farmácias e, principalmente, dos supermercados. Como é um dos produtos essenciais na prevenção do contágio contra a doença, o acesso mais fácil e a maior quantidade de líquido dentro das casas faz aumentar o risco de acidentes.

De acordo com informações do Corpo de Bombeiros de Uberlândia, os registros de atendimentos de pessoas vítimas de queimadura aumentaram neste ano, comparado com igual período do ano passado. De janeiro a maio de 2021, a corporação recebeu 15 chamadas para atender pessoas com queimaduras. No intervalo equivalente ao ano passado, esse número foi de apenas  oito, o que representa um aumento de 87,5% nos casos.

Muitas vezes por descuido, ou falta de atenção, os recipientes de álcool acabam ficando em locais próximos ao fogo, como em cozinha e áreas de churrasco. Foi o que aconteceu com a dona de casa Débora Miranda dos Santos. Grávida de aproximadamente sete meses, ela, o marido, o sobrinho e a esposa dele estavam em um rancho quando um frasco borrifador, que estava com álcool, explodiu. Ela conta que não sabe dizer, com precisão, a distância, mas o frasco estava perto de um fogareiro no momento da explosão.

Débora teve queimaduras de segundo e terceiro graus em quase 40% do corpo. As regiões atingidas foram os braços, pernas, barriga, peito e o rosto. “Hoje, três meses do acidente, eu acredito que me recuperei rápido. Ainda estou com algumas feridas pelo corpo, passei por uma cirurgia no início do mês, fiz um enxerto no braço e recebi alta médica dois dias depois”, disse.

A dona de casa contou ainda que a principal preocupação foi a bebê, já que o fogo se espalhou pelo corpo todo e atingiu a barriga e o peito. A gestante ficou 82 dias internada e nesse período a pequena Aila Vitória nasceu. Por sorte os ferimentos no peito se recuperaram mais rápido, possibilitando que a criança amamentasse.

Débora conta que a recuperação continua. Além do trauma psicológico, algumas feridas, principalmente nos braços e nas pernas, ainda exigem cuidado. “Tudo que relaciona a fogo, eu evito. Fogão, churrasqueira, tudo. Como estou ficando dentro de casa, por causa do resguardo, nem chego perto de álcool, só água e sabão mesmo pra higienizar as mãos”, finalizou a dona de casa.

ALERTA
Débora recebeu atendimento no Setor de Queimados do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU). O Hospital Universitário tem oito leitos destinados ao atendimento de vítimas de queimaduras em toda a região do Triângulo Norte, que abrange parte do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. A técnica em enfermagem Miriã Márcia Pazini conta que o setor atende queimaduras de segundo grau profundas a terceiro grau. Ela conta que durante o período da pandemia os casos atendidos na unidade aumentaram.

“A gente tem visto um aumento no número de queimaduras causadas pelo álcool. O álcool 70% tinha sido proibido de ser vendido, justamente para evitar esse tipo de acidente. Mas com a pandemia foi liberado novamente, para ajudar no combate a covid. Mas as pessoas estão usando indiscriminadamente, sem cuidado e para outros objetivos, como para acender a churrasqueira, ou, por causa da crise financeira, usando em fogareiros para fazer comida”, disse a técnica em enfermagem.

Miriã conta que desde o início da pandemia, em março de 2020, até o fim do mês passado, 103 pessoas foram atendidas com queimaduras. Nos anos anteriores a média foi de 85 casos por ano. Para ela, o aumento mais expressivo foi o de acidentes envolvendo o álcool especificamente. A técnica em enfermagem afirma que em um levantamento feito no hospital, de 2016 a 2019 no setor de queimados, aponta que 52% dos acidentes foram causados por álcool. Já no período de um ano e dois meses de pandemia, o percentual subiu para 64% dos acidentes causados pelo material.

CONSCIENTIZAÇÃO
Junho foi escolhido como o mês de prevenção a queimaduras por causa do Dia Nacional de Luta contra Queimaduras, que foi instituído em 2009, como uma forma de divulgar e conscientizar as pessoas sobre medidas preventivas para a redução de acidentes com queimaduras.

De acordo com Miriã, neste ano o foco principal da campanha é a conscientização de manter o álcool longe do fogo, mas que outro alerta, também ligado à pandemia, é com relação à presença de crianças na cozinha e que podem acabar se queimando com líquidos quentes. “É o que a gente chama de escaldadura. Alguém da família tá fazendo um café, um chá, um macarrão e a água ou óleo quente cai na criança. Principalmente agora que as famílias e as crianças estão ficando mais tempo dentro de casa”, disse a técnica em enfermagem.

CUIDADOS
Em casos de acidentes envolvendo o álcool, a instrução dos especialistas é que seja interrompida a fonte de calor o mais rápido possível. Abafando, no caso de ser em uma região específica, ou mesmo rolando no chão, de forma a apagar as chamas o quanto antes. Outro ponto importante é que o local queimado seja resfriado com água, em temperatura ambiente, por pelo menos 15 minutos. De forma a impedir que a queimadura se agrave, já que a pele, ainda quente, mesmo que sem contato com as chamas, continua sofrendo dano pelo calor que foi exposta.

Outro apelo da técnica em enfermagem é o de que as pessoas utilizem o álcool de forma mais consciente. “A instrução que a gente dá é que as pessoas não usem o álcool no ambiente doméstico, muito menos perto da cozinha ou churrasqueira. Em casa a higienização das mãos pode ser feita com água e sabão que vai ter a mesma eficácia contra o vírus. Mercadorias, coisas que vem de fora, pode usar um detergente neutro e um pano úmido. O álcool é para quando estamos na rua e não tem outra forma de higienização”, disse Miriã.


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