08/05/2021 às 08h00min - Atualizada em 08/05/2021 às 08h00min

Doações a instituições têm queda de até 90% em Uberlândia

Entidades buscam alternativas para continuar mantendo atividades em meio à pandemia

NILSON BRAZ
AACD teve redução de mais de 70% nas arrecadações I Foto: Divulgação/AACD
A pandemia causada pelo coronavírus tem durado mais tempo do que a maioria das pessoas imaginava. O ritmo lento da vacinação e a falta de um tratamento que garanta a recuperação de pessoas que desenvolvem a forma mais grave da doença tem prolongado ainda mais esse período, até então, inédito para muitas gerações.
 
Uberlândia passou pelo pior período da pandemia nos últimos quatro meses, que para muitos caracterizou o que seria uma segunda onda de casos da doença, mas ainda mais grave e letal. Os impactos, além das vidas que são perdidas diariamente, continuam crescendo com o passar do tempo. Muitos setores estão ficando cada vez mais comprometidos, a economia segue aos tropeços e muita gente está se desdobrando para conseguir se sustentar.
 
Dentro desta realidade estão, ainda, organizações que dependem majoritariamente da boa ação e caridade de outras pessoas. Com o comprometimento da renda de muitos trabalhadores, a incerteza se vai continuar tendo um trabalho, se vai estar saudável, se não vai precisar apoiar algum familiar, tudo isso faz com que muitas pessoas pensem mais antes de fazer qualquer doação.
 
Uma dessas instituições que viu diminuir, consideravelmente, a quantidade de doações que recebia foi a Associação de Proteção Animal de Uberlândia, a APA. De acordo com o presidente da associação, Elson Torres, a ajuda que ainda recebe representa uma parte muito pequena do que já foi um dia, além de ter aumentado a demanda dos atendimentos prestados pela APA.
 
“As doações diminuíram bastante desde o início da pandemia, mas agora esse número diminuiu ainda mais. Hoje a APA recebe só 10% do que recebia antes, de doações. Outro fator que comprometeu os valores arrecadados é que não podemos mais fazer eventos, os festivais de sorvete, barraquinhas, venda de pizzas, como fazíamos antes, que era de onde vinha grande parte do dinheiro necessário para manter a associação. Os valores que recebemos do governo não são suficientes nem para manter a ração dos animais, que é o básico e que teve um aumento de 50% desde o início da pandemia. Em contrapartida, de cinco a seis animais são deixados toda semana na porta da APA”, pontuou Torres.
 
Com pouco mais de um mês de pandemia, em 2020, o Diário de Uberlândia conversou com representantes de entidades que já sentiam o peso da crise sanitária provocada pelo coronavírus, que já tinha impactado em uma
diminuição de até 40% das arrecadações voluntárias destinadas à ONGs e associações como a AACD, o Grupo Luta Pela Vida e a APAE.
 
Um ano depois a complexidade da situação se agravou. As doações caíram ainda mais e as organizações estão fazendo o possível para continuar realizando os atendimentos. De acordo com a gerente administrativa da AACD Uberlândia, Cinthia Borges de Sousa, o momento é de incertezas.
 
“Hoje, na verdade, foi mais de 70% de queda nas doações, esse mês foi especialmente difícil por causa da piora no número de casos dos últimos meses. Nós estamos com o nosso bazar permanentemente fechado, porque não temos condições de abrir. Estamos, inclusive, fazendo algumas alterações para receber os clientes com segurança. A nossa produção também caiu porque agora existe uma dificuldade de realizar terapia com o paciente. A situação da AACD é bem delicada. Em nenhum momento a gente deixou de atender nossos pacientes, de prestar assistência, mas nossas finanças foram muito afetadas”, disse Cinthia.
 
Apesar dos esforços para manter todos os atendimentos, a instituição percebeu que alguns pacientes deixaram de frequentar as instalações. “Alguns pacientes se sentem inseguros de vir para a terapia, além da greve do transporte público , já que nossos pacientes têm uma condição vulnerável, eles dependem disso. O número de faltas, que não passava de 12%, aumentou para mais de 27%”, ressaltou a gerente da AACD.
 
Outra instituição que viu a quantidade de doações vair pra menos da metade foi a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). De acordo com a diretora geral da associação, Mirelle Vilela, além da dificuldade em conseguir doações de quem não contribuia antes, o fechamento do comércio comprometeu aquelas doações que era recebidas direto nas empresas, nos comércios.
 
“Nós temos algumas formas de receber as doações. Uma delas é pelo telemarketing, o TeleApae, onde a dificuldade maior é conseguir novos doadores. Além disso, diminuiu muito as doações de empresas, pessoas jurídicas, que é aquela arrecadação feita de porta em porta. As empresas não estavam doando porque elas estavam fechadas. Com isso, aproximadamente caiu 60% das doações que recebíamos”, afirmou Mirelle.
 
ALTERNATIVAS
Para tentar reverter o quadro negativo de doações, as instituições têm procurado novas maneiras de conseguir complementar a receita e continuar cumprindo trabalhando. De acordo com o diretor e contador do Grupo Luta Pela Vida, Donizete de Paula, responsável pela ONG que auxilia na manutenção do Hospital do Câncer, mesmo tendo que parar as atividades, dar férias coletivas e tudo que a legislação permitiu no início da pandemia, eles conseguiram manter grande parte das doações que recebiam.
 
“Nós tínhamos a previsão de perda que iria variar de 35% a 50% das doações. Com o passar do tempo, voltando aos poucos, o grupo passou a trabalhar para suprir a perda prevista com outras atividades. Nós instituímos o ‘Bilhete Premiado’, que foi o sorteio de um apartamento que conseguimos através de doação. Além de outras atividades. Com base nisso nós passamos a trabalhar focando nos doadores pessoa física para manter a doação. Com tudo isso nós tivemos uma perda de só 2,5%. Bem menos do que esperado, felizmente”, disse Donizete.
 
Ainda pensando em alternativas que possam suprir a perda causada pela pandemia, o Grupo Pela Vida espera receber doações que podem ser feitas por meio da declaração do Imposto de Renda. “Quem está prestando contas a União pode doar na declaração de ajuste até 3% do imposto devido. A pessoa não vai estar pagando a mais do que ele iria pagar”, finalizou o diretor do grupo.
 
Mas, também buscando aumentar a arrecadação de recursos, a Apae vai realizar um evento adaptado para o cenário de pandemia. Na impossibilidade de realizar festas presenciais, como era anteriormente, a instituição vai fazer um festival diferente. “Vamos fazer um festival de caldos congelados. O evento vai começar em junho, em maio a gente vai preparar tudo, captar patrocinadores, voluntários para ajudar, para no fim de maio, início de junho estarmos preparados para fazer esse evento online, pra ver se ajuda um pouco mais”, disse Mirian.
 
Os representantes das quatro ONGs lamentaram a falta dos recursos que eram arrecadados em eventos, como os festivais, shows, festas temáticas, bazares. Eles afirmam que os valores representavam uma parte significativa do custeio das atividades feitas por eles. “É um futuro incerto. A gente ainda não sabe se vai conseguir realizar estes eventos com a mesma eficiência e no formato que a gente realizava. Estamos repensando, obviamente, novas ações, novas estratégias para conseguir aumentar nossas receitas, mas é um momento bem delicado como está sendo para todo mundo”, afirmou a gerente da AACD.
 
Mas para Cinthia, o momento é de ter esperança em uma melhora, tanto no cenário da pandemia, quanto do retorno das doações. “Com a vacinação, quando atingir um número maior de vacinados, a gente espera que as coisas comecem a voltar a uma certa normalidade. Estamos vendo diminuir os índices aqui da cidade. Tomara que isso reflita de alguma forma nas doações e no número de atendimentos. Temos esperança que no segundo semestre, com um número de vacinados maior, a gente consiga reestabelecer tudo” finalizou.
 
 
COMO DOAR
 
AACD
As doações para a AACD podem ser feitas através de depósito ou pagamento de boleto. Mais informações sobre o processo podem ser obtidas pelo telefone (34) 3228-8008.
 
Apae
Os interessados podem entregar as doações na sede da instituição, localizada na rua João de Barro, nº 396, no bairro Cidade Jardim. Para mais informações, o telefone de contato é o (34) 3217-8514. Também é possível entrar em contato com o Tele Apae através do número (34) 3216-7177 para realizar doações.
 
Hospital do Câncer
 
O doador pode entrar em contato pelos telefones 0800 34 2062, (34) 2101-1937 ou realizar a doação pelo site doehospitaldocancer.org.
 
APA
Quem quiser ajudar, a APA recebe doações presencialmente e por PIX. Mais informações pelo telefone (34) 99677-0358.


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