17/03/2021 às 07h44min - Atualizada em 17/03/2021 às 10h00min

Pandemia completa um ano em Uberlândia nesta quarta-feira (17)

Diário traz entrevista com a família da primeira vítima do coronavírus na cidade

BRUNA MERLIN
Elayne Teixeira foi a primeira vítima fatal da enfermidade e morreu no dia 2 de abril de 2020, deixando três filhos e o esposo I Foto: Arquivo pessoal
Nesta quarta-feira (17), faz um ano que a rotina da população uberlandense mudou por completo. Há exatos 12 meses, as máscaras e o álcool em gel entraram para a lista de produtos prioritários. São 365 dias vivendo com medo de uma doença que chegou de forma inesperada e já levou milhares de vidas embora. O Diário de Uberlândia traz uma retrospectiva da doença na cidade e relembra como tudo começou.

O primeiro paciente a sentir na pele os riscos que a enfermidade traz foi o advogado Jonathan Edward Rodovalho Campos, de 40 anos. O morador de Uberlândia foi a primeira pessoa a testar positivo para o vírus na cidade.

Na época, Jonathan tinha acabado de voltar de uma viagem da Argentina. Os primeiros sintomas surgiram dias depois e o susto veio no dia 17 de março de 2020. “Graças a Deus tive sintomas leves como dor no corpo, febre e dor de cabeça. Logo fui fazer o teste e tive a confirmação”, explicou.

O medo se instalou na vida do advogado, principalmente por se tratar de uma doença nova e que tinha pouca informação e estudo sobre ela. Logo de início, ele se isolou da família e os cuidados básicos foram essenciais para que a filha e a esposa não se contaminassem.

“Elas não foram contaminadas e isso foi alívio porque fiquei muito preocupado com tudo isso. Uma doença muito contagiosa e letal que estava chegando para amedrontar nossa realidade sendo que tínhamos poucas informações sobre ela”, ressaltou.

Além da angústia e da preocupação por estar com o vírus, Jonathan teve que enfrentar outro problema. A discriminação e o preconceito por parte da população. Ele e a família tiveram as redes sociais atacadas com xingamentos de alguns usuários.

“Recebemos muitas mensagens de pessoas, até mesmo conhecidas, de que a culpa era nossa. Que fomos nós que trouxemos o vírus para a cidade. Foi um momento muito ruim, mas nos abstemos para conseguir lidar com a situação da melhor forma possível”, detalhou.

Depois de tanto tempo, os cuidados de proteção na rotina do advogado continuam e ele faz um apelo aos cidadãos. “É necessário que haja compreensão sobre a real situação em que estamos inseridos. Os cuidados básicos que devemos ter e que muitas pessoas acham chatos são muito melhores do que vermos alguém que amamos perder a vida. Se cuidem e cuidem do próximo”, finalizou.
 
PRIMEIRO ÓBITO
Uma data que comoveu a cidade foi o dia 2 de abril de 2020. O dia marcou a morte de Elayne Cristina Velasco Teixeira, de 61 anos, a primeira vítima fatal da Covid-19 em Uberlândia. Em entrevista exclusiva ao Diário de Uberlândia, o esposo e a filha de Elayne, em um ato de homenagem à ente querida, contaram como foi passar pela situação e como está sendo lidar com o luto.

Tudo começou no dia 19 de março, quando Elayne apresentou os primeiros sintomas. Além de uma sensação de cansaço e dor no corpo, ela também teve diarreia. Após 15 dias, ela não resistiu à agressividade da doença e veio a óbito, deixando três filhos, Marcella Velasco Brasileiro Teixeira e os irmãos Lucas Velasco Brasileiro Teixeira e Tiago Velasco Brasileiro Teixeira, além de dois netos e o esposo.

Conforme dito pela filha, Marcella Velasco, tudo aconteceu de repente e de uma hora para a outra a família estava vivendo cenas de terror. “Não passou pela nossa cabeça que seria Covid-19 porque, naquela época, os principais sintomas que estavam sendo divulgados era a falta de ar e febre. Sendo assim, neste primeiro momento, não imaginávamos que era algo tão grave”, disse.

Preocupados com a situação de Elayne, a família procurou a ajuda de um médico que acompanhou o quadro dela. Segundo a filha, os exames de sangue da mãe não revelaram muita coisa, apenas um índice baixo de plaquetas e uma leva infecção de urina.

“Ela tinha rins policísticos então acreditamos que os sintomas poderiam estar relacionados a isso. Mas, depois de muita investigação do médico, não foi encontrado nada. Foi ai, que ele falou: estou suspeitando de Covid”, relatou Marcella.

Mesmo sendo resistente por medo de enfrentar um hospital, Elayne foi levada, no dia 30 de março, ao consultório particular do médico que a acompanhou e foi comprovado que a saturação dela estava extremamente baixa. Neste momento, o pesadelo da família Teixeira se iniciou.

Elayne foi encaminhada às pressas para a Unidade de Atendimento Integrado (UAI) onde foi entubada. A notícia pegou todos de surpresa “A partir desse momento eu não vi ela mais. Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo”, disse a filha.

Horas depois, a paciente foi encaminhada para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal de Uberlândia onde foi comprovada a contaminação pela Covid-19. Lá, Elayne, que não convivia com nenhuma comorbidade, sofreu duas paradas cardíacas e, após apresentar pioras no quadro de saúde, não resistiu.
 
CICATRIZES
Após quase um ano da morte de Elayne, a família ainda procura por formas de remendar as cicatrizes e lamenta pela despedida que não tiveram. “Desde o dia que ela foi internada, nós não conseguimos ver ela. Não tivemos um velório e isso é muito dolorido porque queríamos ter visto-a por uma última vez”, se emocionou Marcella.

O esposo, Luiz Felipe Brasileiro Azevedo Teixeira, de 66 anos, estava em casa em isolamento quando recebeu a notícia do falecimento. Sem poder abraçar e confortar os filhos e outros familiares, ele também se despediu da companheira de uma forma que nunca esperava: de longe.

“Continuamos com a sensação de que ela foi fazer uma longa viagem, mas que vai voltar. Não tivemos nossa despedida. Não pude olhar uma última vez para aquela que foi minha primeira namorada, esposa e companheira de tantos anos”, lamentou Luiz Felipe.

O medo e a preocupação continuam assombrando a família Teixeira. Após perderem Elayne, os cuidados que eram tomados antes foram reforçados para que a família não passe por tamanha dor novamente.

Marcella e Luiz Felipe também fizeram um apelo para que a sociedade compreenda os riscos da doença porque, segundo eles, a vida é muito curta e passa em um sopro.

“Elayne era uma mulher forte, linda, vaidosa, generosa e que acreditava muito em Deus. Perdemos uma referência de vida, nosso porto seguro. Se podemos deixar algo para as pessoas, é que elas se cuidem e cuidem dos outros porque nunca estamos preparados pra isso e isso pode aconteceu quando menos esperamos”, disseram a filha e o esposo de Elayne.



 

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