06/02/2021 às 10h00min - Atualizada em 06/02/2021 às 10h00min

Promotoria da Infância defende retomada das aulas presenciais em Uberlândia

Reportagem do Diário conversou com pais que também são favoráveis ao retorno das atividades nas escolas

IGOR MARTINS

A retomada das aulas nas escolas municipais no formato híbrido, com atividades presenciais e remotas, tem dividido opiniões em Uberlândia. Se de um lado há os contrários à volta das crianças e adolescentes para as instituições educacionais por conta da pandemia, diversos cidadãos uberlandenses são a favor do retorno presencial dos ensinos infantil, fundamental e médio.

A Promotoria da Infância e Juventude da Comarca de Uberlândia demonstrou apoio com relação à retomada. De acordo com a promotora Aluízia Beraldo Ribeiro, não há qualquer justificativa do ponto de vista científico para que as instituições de ensino estejam fechadas, sem contar o impacto do ano letivo feito em casa ao longo de 2020 no município.

Em conversa com o Diário, Aluízia afirmou que várias promotorias vinham discutindo a possibilidade de retorno das atividades de ensino com a Secretaria Municipal de Educação (SME), levando em consideração o número de casos confirmados na cidade, bem como a quantidade de óbitos e de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ocupados.

“O ano de 2020 é irrecuperável no sentindo do ensino. As crianças e adolescentes não têm tanta maturidade para acompanhar e aproveitar o sistema online. A sociabilidade deles fica prejudicada, a atenção fica prejudicada. Além disso, eles passam um tempo ainda maior nos meios digitais, e isso gera um prejuízo na cognição deste público”, explicou.

Na visão da promotora, a falta de acesso à internet por parte da população uberlandense é mais um dos motivos para a retomada de atividades presenciais nas escolas municipais. Para Aluízia Ribeiro, o ensino remoto é completamente inviável para alunos em processo de alfabetização, o que gerou aproveitamentos baixos no ano letivo, além de um aumento considerável na evasão escolar. “Isso prejudica ainda mais os índices de educação do país, que já são muito baixos”, detalhou.

A promotora afirmou, ainda, que tal evasão resultou em um aumento considerável no número de casos de violência doméstica, de envolvimento na criminalidade, queixas de saúde mental e o surgimento de creches clandestinas em baixa idade. “São vários eventos que prejudicaram o ano dos alunos. Para as famílias, o prejuízo também é grande. Os filhos foram privados de uma atividade que é essencial para a vida delas.”

Para a promotora, as escolas municipais estão preparadas para retomarem suas atividades presenciais com segurança. Aos contrários à retomada, Aluízia Ribeiro falou sobre a possibilidade de poder deixar os filhos em casa, uma vez que o modelo adotado pelo Município será o híbrido.

“Vejo muitas famílias temerosas e tomadas pelo medo, mas as notícias sobre a Covid-19 já estão amplamente difundidas. Penso que as famílias, neste momento, pecariam pelo excesso, e não pela falta. Todos já sabem da doença, principalmente nos grandes centros urbanos, como é Uberlândia. Tenham confiança na rede municipal. Tudo está sendo feito com muita responsabilidade”, disse a promotora.

Por fim, Aluízia Ribeiro falou sobre a necessidade de retornar com o serviço, essencial para o desenvolvimento das crianças da cidade. “A educação é um direito dos filhos. Se os pais não quiserem encaminhá-los, que exerçam a opção de adesão ao formato remoto ou híbrido. As escolas estão preparadas. A educação é o último serviço essencial a ser retomado. De todos, a educação ficou preterida. Estamos muito atrasados nesta retomada. São 11 meses sem uma aula presencial, o impacto disso é irrecuperável”, finalizou a promotora.

APOIO DOS PAIS
Professor do curso de Biomedicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Alberto da Silva Moraes passou a lecionar aulas no formato remoto desde o início da pandemia. Em entrevista ao Diário, ele afirmou que as aulas mudaram radicalmente para vários colegas de trabalho. No seu caso, por ter facilidade com meios digitais e uma boa conexão de internet, o processo de adaptação ocorreu com maior facilidade.

“Eu sinto muito dos alunos que eles desejam um maior contato com o professor, de falar com o professor pessoalmente. Para eles, muda muito ter um professor na frente e um professor atrás de uma tela. Eles reclamam bastante, mas da minha parte é um pouco mais tranquilo, porque domino muitos recursos e já trabalhava algumas práticas virtuais”, falou.

A facilidade na adaptação foi ainda maior porque sua esposa deixou de trabalhar após o início da pandemia. Como eles têm um filho de cinco anos, é ela quem cuida, na maior parte do tempo, dos afazeres domésticos e do filho Lorenzo, que irá retornar às aulas na próxima segunda-feira (8). “Isso facilita muito para eu poder trabalhar. Se ela também precisasse, não teria como”, disse Alberto Moraes.

O filho de Alberto, aluno de uma escola particular no bairro Morada da Colina, chegou a ter atividades para serem desempenhadas dentro de casa durante a pandemia da Covid-19, mas o aproveitamento, conforme o biomédico, não foi o mesmo.

“É impossível uma atividade para casa abranger todos os aspectos que uma escola trabalha nos aspectos físicos e psicossomáticos. Nós não somos pedagogos. Não é que a gente não quer ajudar os nossos filhos. As pessoas confundem muito, mas nós não temos preparo para isso. Não sei como atrair a atenção de uma criança. O ensino remoto infantil e para os primeiros anos do fundamental é uma falácia. Quem tenta fazer isso está só enganando para manter os pais pagando”, disse o professor e pesquisador da UFU.

Questionado sobre o temor da pandemia, Alberto Moraes acredita, baseado em pesquisas científicas e sendo biomédico, que a transmissibilidade do vírus entre crianças é quase nula. “Ninguém é louco. Jamais vamos considerar mandar meu filho para a escola sem segurança. O que eu quero é meu direito de decidir”, afirmou.

O professor criticou ainda a possibilidade de greve de professores das escolas municipais em Uberlândia. “Precisamos evitar a demonização e esse terrorismo. A volta às aulas é segura. Muitos funcionários públicos, que têm seus salários integrais, são contra as aulas presenciais com medo de serem contaminados, mas vão à academia, vão viajar, saem de casa. É uma grande hipocrisia”, disse.
 
DÉFICIT NO APRENDIZADO
A autônoma Aline Silva Ferreira também é a favor da volta das aulas presenciais nas escolas de Uberlândia. Mãe de dois filhos, João Lucas (13 anos) e Murilo (8 anos), ela conta que ambos sentiram os impactos da interrupção do ensino ao longo de 2020.

“Eles ficaram muito mais ociosos em casa e até um pouco depressivos. Com o passar do tempo, meu menino mais novo teve ganho de peso e desenvolveu uma certa ansiedade. O convívio com os colegas, as atividades e o ensino fazem falta”, relatou a uberlandense.

Para Aline Ferreira, a dificuldade maior para ela e seu marido foi para acompanhar as atividades propostas pelo Município, como uma tentativa de seguir o ensino mesmo longe da sala de aula. “Nós não temos didática para poder acompanhar os dois meninos. Eu não sou pedagoga. Eles estão em fase de alfabetização. O ensino remoto não é tão efetivo quanto o presencial”, afirmou.

A profissional explicou que não parou de trabalhar presencialmente durante a pandemia e, com isso, está sempre correndo riscos de ser contaminada pela Covid-19. Sendo assim, ela afirmou que, dentro de sua casa, as medidas de segurança são regra para toda a família.

“Eu estou sempre exposta ao vírus, mas estou todas as noites em casa com os meus filhos. Não tem como a gente evitar totalmente, e a gente, como mãe, não quer expor nossos filhos a nenhum tipo de risco, mas o déficit de ficar em casa sem estudar é muito mais prejudicial do que uma possibilidade de dois garotos serem contaminados”, detalhou.



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