20/11/2020 às 18h35min - Atualizada em 20/11/2020 às 18h35min

Em protesto pela morte de homem negro, ato antirracista é realizado em Uberlândia

João Alberto faleceu após ser agredido em um supermercado em Porto Alegre (RS); manifestação nesta sexta (20) também é em prol do Dia da Consciência Negra

IGOR MARTINS
Manifestantes se reuniram na Praça Cívica | Foto: Alexandre Igrecias/PSOL

No fim da tarde desta sexta-feira (20), um ato antirracista preencheu o espaço da Praça Cívica na Prefeitura de Uberlândia. No dia em que é celebrado o Dia da Consciência Negra, diversos manifestantes foram até o local para protestar contra o racismo, especialmente em função da morte de João Alberto, homem negro que faleceu após ser agredido em um supermercado em Porto Alegre (RS), nesta quinta (19).

O engenheiro ambiental e sanitarista 
Wallace Alves, participante do ato, disse que o movimento busca debater a cultura negra e inseri-la no município, com o objetivo de combater o racismo estrutural no Brasil.

“O Dia da Consciência Negra deveria ser um feriado nacional. Foi uma conquista nossa e isso deveria ser reconhecido. Todos os anos a gente se reúne em luta. Infelizmente é com indignação que a gente se reúne hoje. Um homem negro ser assassinado a pancadas às vésperas do feriado é muito triste. Hoje em dia a gente tem que se reunir lutando para que outras pessoas não sejam mortas pela cor da pele”, disse.

Ainda segundo Wallace, os manifestantes marcharam em rumo ao supermercado da rede em que João Alberto morreu. “Nós estamos radicalizando a questão do racismo, e não mais aceitando. Estamos reagindo, indo pras ruas. Não estamos mais tolerando que não haja mais resposta nenhuma, pra nós basta. Não suportamos mais”, falou ao Diário.

Na opinião de Gilberto Cunha, que também participou das manifestações antirracistas nesta sexta, o caso da morte de João Alberto mostra a naturalização da violência contra o negro no Brasil. “Nós não temos outra saída. Cada vez fica mais evidente que vivemos numa sociedade marcada pelo racismo. Temos que ir pra rua mesmo durante a pandemia”, relatou.

RACISMO ESTRUTURAL
Servidora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a Dra. Jane Maria dos Santos Reis comentou a morte de João Alberto em Porto Alegre. Segundo a técnica em Assuntos Educacionais, o fato ocorrido na capital do Rio Grande do Sul é apenas mais um dos casos de racismo estrutural no Brasil.

De acordo com Jane, o Dia da Consciência Negra deveria ser uma data para dialogar com as pessoas e despertar a atenção da população sobre a necessidade de modificar os lugares de fala da sociedade como um todo. “Não há o que comemorar. O luto do negro não é de hoje, o luto do negro é todos os dias. A gente não aguenta mais. Casos como o do João Alberto acontecem todos os dias, e isso cansa. Para mim e outros negros, a indignação é diária”, disse.

Ao falar sobre o crescimento do movimento “Vidas Negras Importam”, decorrente da morte de George Floyd, nos Estados Unidos, a presidenta da Comissão de Heteroidentificação Racial da UFU falou que a comunidade negra vive com o medo diariamente de sofrer alguma violência simplesmente pela cor da pele.

“O luto de hoje não é só pelo João Alberto. É por tantos outros, pelo George Floyd, pelo João Pedro, Pela Ágatha e por todos os negros. É por ser uma mulher negra e pensar que em qualquer momento pode ser eu ou alguém da minha família. Nós sempre temos a sensação de pensar quem será a próxima vítima”, explicou Jane.

A resistência, na opinião da vice-coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), colabora com a importância da representatividade da comunidade negra, na busca por uma sociedade mais igualitária e de maior acessibilidade a todos.

“Nós não somos um grupo minoritário. Somos a maioria da sociedade brasileira. Precisamos lutar contra o racismo até mesmo nas questões cotidianas, como na questão do vocabulário. Quando nós nos comunicamos com outros, tudo o que é ruim dentro do vocabulário é associado ao negro. A mulher negra é sempre associada a emprega doméstica, são posições estigmatizadas”, falou em entrevista ao Diário.

A Dra. Jane repercutiu ainda a fala de Hamilton Mourão nesta sexta (20). Em entrevista no Palácio do Planalto, o vice-presidente da República disse que não existe racismo no Brasil. “Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil”, afirmou.

A servidora da UFU repudiou a fala de Mourão e disse que o racismo não existe para quem não sabe o que é ser alvo dele. “A gente que é negro sabe muito bem que existe racismo. É muito fácil você dizer algo quando não te machuca, quando não te ataca, quando não faz parte do seu universo. Aí fica muito cômodo e muito confortável”, disse Jane.


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