24/05/2020 às 16h24min - Atualizada em 24/05/2020 às 16h24min

Medo ainda é empecilho para mulheres denunciarem agressores

SOS Mulher e Família de Uberlândia contabilizou crescimento de 200% em atendimento às vítimas durante isolamento; em contrapartida, PM registrou queda no número de denúncias

BRUNA MERLIN
ONG diz que vítimas ainda se sentem intimidadas a denunciarem agressores | Foto: Agência Brasil
O medo e a insegurança são alguns dos sentimentos que acometem as mulheres vítimas de violência doméstica e ainda representam os principais motivos e barreiras na hora de denunciar os agressores. Durante o isolamento social, causado pela pandemia do coronavírus, essa atitude de procurar ajuda nos órgãos de segurança se tornou ainda mais difícil, já que as vítimas estão passando mais tempo com os autores.

Atualmente, muito se fala sobre o aumento de registros e atendimentos às mulheres vítimas do crime durante a pandemia. Segundo um estudo conduzido pelo Fundo de População das Nações Unidas, deve haver um acréscimo de 20% na quantidade de casos de violência doméstica em todo o mundo no período de distanciamento social.

No Brasil, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) registrou um aumento de 35% no número de denúncias de agressões contra mulheres no mês de abril. Nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, o aumento se aproxima de 50% em relação ao mesmo período do ano passado. Em Minas Gerais, o Centro Risoleta Neves de Atendimento à Mulher (Cerna), órgão da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, atendeu 123 vítimas em situação de violência doméstica entre 26 de março e 6 de abril.

Caminhando na direção oposta dos dados nacionais, a Polícia Militar (PM) de Uberlândia não registrou acréscimos significativos no número de denúncias de violência doméstica durante a medida de distanciamento social. Em contrapartida, a Organização não Governamental (ONG) SOS Mulher e Família, instituição de referência da cidade que oferece apoio e auxílio às vítimas, contabilizou um aumento de mais de 200% na quantidade de atendimentos às vítimas.

Conforme apontado em um levantamento feito pela Secretaria de Estado de Segurança de Minas Gerais, o município de Uberlândia registrou 396 denúncias de violência doméstica em janeiro e 363 em fevereiro deste ano. Em março, quando foi decretado o isolamento social na cidade, o número aumentou para 398, mas caiu para 329 em abril. 

A SOS Mulher e Família computou 75 atendimentos a mulheres, sendo 30 na área de serviço social, 19 em consultas psicológicas, quatro assistências jurídicas e o restante realizado por outras áreas de auxílio da ONG. Já no mês de março, o número de procedimentos subiu para 251. Em abril, foram 262.

MEDO
A psicóloga da SOS Mulher e Família, Claudia Cruz, acredita que a diferença significante entre os números da PM e da ONG reforçam a ideia de que a insegurança e medo ainda são condições que impedem as mulheres de denunciarem os agressores que muitas vezes se tratam de seus parceiros, como maridos ou namorados. “O ato de denunciar não é tão simples assim porque ele poderá gerar consequências futuras para a vítima. Várias delas consideram essa atitude radical, mesmo que esteja sendo agredida por anos, e elas se preocupam com as implicações que isso pode trazer para elas e a família”, disse.

Para Claudia, é nítido o aumento no número de ocorrências de violência doméstica durante a quarentena em todo o país. Mas, diversos motivos dificultam a realização da denúncia como a não compreensão, julgamento da família e a não efetivação da prisão do agressor por parte da Polícia Militar. 

“Quando a mulher não tem garantia de que o autor será preso ou afastado, ela não se arrisca porque tudo pode ficar pior. Além disso, os familiares podem questionar a decisão, julgar ou até mesmo se distanciar”, explicou a profissional.

A profissional também explica que a ONG, diferente de um órgão de segurança, oferece acolhimento e auxílio psicológico para enfrentar toda a situação de violência e as mudanças que surgirão caso a vítima opte pela denúncia. Para ela, esse é um fator que influencia as mulheres que procuram primeiro a instituição para saber de seus direitos e quais procedimentos podem ser tomados.

“Quando recebemos um caso de violência, sempre procuramos entender o histórico e muitas vezes as mulheres não sabem o que está acontecendo e o porquê daquilo. Nós oferecemos alternativas e a vítima pode ser atendida por uma assistente social, por um psicólogo de forma contínua e também receber orientação jurídica para entender seus direitos em uma possível separação. Nós não condicionamos o atendimento a um boletim de ocorrência e isso gera mais tranquilidade a elas”, complementou. 

Em virtude do distanciamento social, a SOS Mulher e Família está realizando os atendimentos de forma online e oferecendo canais seguros e discretos para que a vítima consiga procurar ajuda mesmo estando isolada com o agressor. “Aumentamos nossa interação nas redes sociais e também pelo WhatsApp. O procedimento não precisa ser feito somente por ligações”, finalizou Claudia Cruz. 

“METER A COLHER”
PM reforça importância de denúncias por terceiros | Foto: Arquivo/Diário de Uberlândia

Em tempos atuais, em que a quantidade de crimes domésticos aumenta a cada dia, a frase “em briga de marido e mulher, se mete a colher” deve ser levada a sério pelas pessoas que presenciam ou conhecem mulheres que sofrem algum tipo de violência. Segundo o capitão da 9ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp) da Polícia Militar de Uberlândia, Leandro Ângelo de Menezes, terceiros podem e devem denunciar casos de violência doméstica quando se depararem com um.

“É muito importante não fechar os olhos para essa situação, porque tudo o que as mulheres precisam nessas horas é de ajuda. Os vizinhos, parentes, amigos e até mesmo desconhecidos podem auxiliar essa vítima denunciando o fato, principalmente agora que o autor está monitorando ela a todo tempo”, ressaltou Menezes.

O capitão da PM também reconhece que o temor ainda é um empecilho para as mulheres denunciarem o acontecimento, mas afirma que o órgão de segurança trabalha incansavelmente para reduzir ainda mais o número de vítimas na cidade. “Intensificamos a patrulha de prevenção da violência doméstica neste ano e principalmente neste período de quarentena. Através das denúncias e trabalho de inteligência conseguimos chegar ao autor mais rápido e combater o crime”.

Por fim, Menezes explica que as denúncias devem ser feitas o mais rápido possível para que a prisão do autor seja efetuada em flagrante delito. “A vítima, quando não conseguir solicitar o socorro durante a ação do autor, pode procurar a PM dias após o ocorrido para fazer a queixa. As marcas da agressão ainda estarão em evidência no exame de corpo e delito e o autor ainda poderá ser preso em flagrante”, concluiu.

MEIOS DE DENÚNCIA E ATENDIMENTOS 
Denúncia PM:
Através do 190 ou pelo aplicativo Salve Maria

Atendimento SOS Mulher:
Aplicativos de mensagem pelos números (34) 99636-7862, (34) 99876-7862 e (34 99636-7862)
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