14/05/2020 às 18h57min - Atualizada em 14/05/2020 às 18h57min

Frota reduzida gera transtorno aos usuários do transporte coletivo de Uberlândia

Passageiros relatam que aglomerações ficaram mais intensas e que os horários não são cumpridos; empresas e Settran se posicionam

BRUNA MERLIN
Passageira registra ônibus lotado no primeiro dia do revezamento de horários | Foto: Arquivo Pessoal
Com a pandemia do novo coronavírus, a frota de ônibus do transporte público de Uberlândia foi reduzida pela metade em razão do baixo número de usuários e a consequente queda na arrecadação. Essa alternativa, implementada pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (Settran), está sendo alvo de reclamações de passageiros.

Ao longo desta semana, o Diário de Uberlândia realizou uma enquete nas redes sociais para saber a opinião da população sobre o serviço de ônibus após a recomendação de escalonamento de horários entre os comércios e o transporte coletivo, que começou a ser aplicada na última segunda-feira (11). A reportagem recebeu diversos relatos dos usuários dando conta de que a medida está gerando ainda mais aglomerações e outros transtornos.

A estudante Gabriela dos Santos Cabral, de 19 anos, conta que os problemas começaram desde a redução de frota e foram ficando piores com a recomendação de revezamento de horários. Segundo ela, todos os dias utiliza ônibus cheios, principalmente os das linhas T120, T105 e T122.

“Na segunda, acredito que o ônibus tinha em torno de 60 pessoas e não tinha mais espaço para ficar em pé. Isso vem se repetindo todos os dias, especialmente nos horários em que todos saem do trabalho”, detalhou.

Gabriela acredita que a estratégia adotada não tenha sido traçada de má-fé, mas ressalta que era inevitável o aumento de aglomerações já que os escalonamentos não funcionam para todos os trabalhadores. “Esses horários não estão funcionando e é necessário mudar esse posicionamento porque o risco de contaminação aumenta ainda mais”, complementou a estudante.

A situação também é preocupante com a utilização de máscaras. De acordo com a jovem e com outros usuários que entraram em contato com o Diário, muitos passageiros estão respeitando a recomendação de segurança, mas alguns ainda deixam de usar o equipamento de proteção. Além disso, não está tendo fiscalização ou proibição da entrada de usuários sem máscara.


Veja abaixo vídeo gravado por um usuário do serviço, por volta das 15h desta quinta-feira (14), no Terminal Central. As imagens mostram aglomeração de passageiros durante embarque e desembarque da linha T610, sentido ao Terminal Novo Mundo. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Jornal Diário de Uberlândia (@diariodeuberlandia) em



CARTEIRINHAS
O escalonamento de horários dos ônibus também está afetando estudantes que estão tendo suas carteirinhas de passe bloqueadas em determinados períodos. Eles afirmam que não houve divulgação ampla sobre a medida, tanto por parte do Município quanto das empresas responsáveis pelos veículos.

A auxiliar administrativa e estudante de Psicologia Polyana Silvino, de 28 anos, passou pelo constrangimento de ter o recurso bloqueado. A jovem voltava do trabalho na segunda-feira (11) e iria pegar o ônibus da linha T132 no Terminal Central, quando foi barrada pela catraca.

“Eu não tinha dinheiro para o passe e tive que voltar. Questionei os fiscais sobre a falta de informação e eles souberam me responder poucas coisas. Somente me disseram que o horário para passar era das 9h às 16h ou após às 21h”, relatou.

Na terça (12), Polyana teve que ir trabalhar a pé porque o horário estipulado não batia com a carga horária do serviço. No mesmo dia, a estudante entrou em contato com a Ubertrans e foi informada que a medida já havia sido revogada.

A situação se repetiu com a Gabriela dos Santos Cabral. Ela também estava voltando do estágio, por volta das 17h40, e não conseguiu passar a carteirinha na catraca do ônibus. A estudante chegou a pedir informações para os cobradores do Terminal Central, mas não obteve respostas concretas sobre o acontecimento.

“Se tivessem avisado, eu poderia ter me programada. A sorte é que eu tinha dinheiro na bolsa para voltar para casa, mas como ficam os estudantes que não têm dinheiro sobrando? É um descaso porque é nosso direito”, concluiu a jovem. 


OUTROS PROBLEMAS
Além das aglomerações, falta de fiscalização do uso de máscaras e carteirinhas bloqueadas, o Diário de Uberlândia recebeu outros comentários sobre a situação dos ônibus durante a pandemia da Covid-19.

Por meio do Instagram do jornal, uma usuária do transporte coletivo da cidade relatou que está enfrentando dificuldades para acompanhar os novos horários já que os mesmos não batem com o aplicativo Moovit e com o site da Prefeitura. Além dela, outros passageiros criticaram o novo itinerário realizado pelas empresas, pois eles não acompanham os horários divulgados.

A reportagem recebeu ainda relatos sobre pessoas que tiveram que solicitar o serviço de um aplicativo de transporte porque os ônibus não estão passando nos horários de costume. O fato aconteceu com uma passageira que mora no bairro Jardim Célia e com o auxiliar de acabamento gráfico Samuel Reis Gomes, de 23 anos, do bairro Minas Gerais.

 
“Costumo pegar a linha A234 todos os dias por volta das 6h10. Na segunda, quando cheguei no ponto, outros dois trabalhadores estavam lá desde a madrugada esperando o veículo. Deu 6h45 e eu já estava ficando atrasado para o trabalho, sendo assim, tive que pedir um veículo de aplicativo particular”, comentou.

Ponto de ônibus lotado também é uma realidade enfrentada pelos passageiros. Além disso, muitos deles estão notando a falta de abastecimento de álcool em gel nos ônibus e a não limpeza dos mesmos. 

Usuários relatam outros problemas enfrentados com o transporte coletivo | Foto: Sílvio Azevedo
 
FROTA TOTAL
No dia 22 de abril, o Ministério Público Estadual (MPE) recomendou às concessionárias de ônibus do transporte coletivo de Uberlândia e à Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (Settran) que retomassem imediatamente toda a frota de ônibus na cidade. Na época, a Promotoria de Justiça, que recebeu reclamações de usuários e outros órgãos, entendia que a redução da frota “é prática abusiva e acintosa contra a população, já que causa aglomeração de usuários, especialmente os mais vulneráveis e outras pessoas compreendidas em situação de grupo de risco para o contágio com a Covid-19”.

A recomendação não foi acatada devido aos problemas financeiros das empresas, que já impactam no pagamento dos funcionários. Em decorrência do cenário, representantes da Prefeitura, dos ministérios públicos Federal e Estadual e das empresas alinharam a medida de escalonamento de horários entre os comércios o transporte coletivo. 

O revezamento, que segue o esquema de grupos selecionados para início de expediente considerando cada atividade comercial, começou a ser aplicado na última segunda. Segundo o Ministério Público, toda a ação será avaliada durante a semana para saber se está dando certo ou não.

O Diário de Uberlândia conversou com o promotor de Justiça de Defesa do Consumidor, Fernando Rodrigues Martins, que disse que está analisando todas as situações a favor do consumidor. “Isso tudo é temporário e também deve haver compreensão de toda a população porque esse mecanismo é grande e nem sempre vai dar tudo certo”.

Sobre o problema enfrentado pelos estudantes que tiveram as carteirinhas bloqueadas em alguns horários, o promotor reconhece a falta de comunicação e publicidade em relação à medida adotada. Segundo ele, os passageiros acima de 60 anos e estudantes, transportados gratuitamente ou por descontos de ordem legal, deverão ter acesso ao transporte entre 9h às 16h e 20h à meia-noite. 

RESPOSTAS

A reportagem procurou a Settran e as empresas responsáveis pelos ônibus e solicitou um posicionamento sobre o cumprimento dos horários de escalonamento. Também foi questionada a fiscalização do quantitativo de pessoas nos veículos, da reposição de álcool em gel e da entrada de usuários sem máscara de proteção.

Em nota, as empresas de transporte urbano de Uberlândia e o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Triângulo Mineiro (Sindett) informam seguem um cronograma de linhas estabelecido pela Prefeitura de Uberlândia. Disseram ainda que estão fazendo um trabalho intensivo de higienização dos veículos e que todos os ônibus possuem recipiente de álcool em gel, que é reposto diariamente ou sempre que tomam conhecimento que o mesmo acabou.

“Entretanto, reforçam que a população pode informar aos fiscais quando notarem a falta do antisséptico, que os mesmos informarão as empresas. Também reforçam a importância, neste momento, da conscientização da população com relação aos cuidados pessoais que devem ser tomados. É fundamental que os clientes mantenham o distanciamento nas filas de espera pelo ônibus e que aguardem o próximo veículo sempre que verificado um número elevado de pessoas”.

Já a Settran informou que tem acompanhado individualmente o caso de todas as linhas do transporte público durante o período de pandemia, “promovendo as adequações necessárias na frota. Ressalta também que verificará as situações apontadas pela reportagem.”

O Diário também entrou em contato com a empresa responsável pelo aplicativo Moovit que disponibiliza, de forma online, o itinerário do transporte coletivo da cidade, mas até a publicação desta matéria não houve retorno das solicitações.














 
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »