16/12/2019 às 18h31min - Atualizada em 16/12/2019 às 18h31min

Áudios e planilha de propina revelam esquema de corrupção na Câmara de Uberlândia

Operação Guardião investiga suborno envolvendo empresa de vigilância e membros da mesa diretora

CAROLINE ALEIXO
Pagamentos de propina eram feitos mensalmente a vereadores de Uberlândia | Foto Diário de Uberlândia
Uma das operações deflagradas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), denominada Guardião, derrubou esquema de corrupção envolvendo o contrato de vigilância da Câmara de Uberlândia, em que membros da mesa diretora teriam subornado o dono da empresa para receberem vantagem indevida. Além de acordo de colaboração premiada, as investigações são embasadas por provas como áudios, vídeos e uma planilha que comprovam o pagamento de propina aos vereadores.

As investigações do Ministério Público Estadual (MPE) apontam que a Câmara pagava por um número de 22 vigilantes, mas apenas 16 prestavam o serviço efetivamente. O dinheiro referente aos seis “funcionários fantasmas” era devolvido aos vereadores. Segundo o MPE, o esquema começou com o ex-presidente Alexandre Nogueira (PSD) e o então ordenador de despesas Juliano Modesto (suspenso do SD) no ano passado e prosseguiu com Hélio Ferraz-Baiano (PSDB), atualmente à frente da mesa diretora.

Houve ainda comprovação de transferência bancária do proprietário da empresa A Precisão Segurança para a conta de Juliano Modesto no valor de R$ 1.900.

 
O Diário teve acesso a alguns dos elementos que revelam como a fraude era feita.  Em um dos áudios gravados pela chefe de segurança do Legislativo, o diretor administrativo Samuel Soares instrui a servidora para que minta em depoimento do Gaeco a fim de que o esquema não fosse descoberto.

Segundo o MPE, Samuel é o “braço direito” de Baiano e tentou atrapalhar as investigações ao coagir a servidora. Em determinado momento da conversa, a mulher questiona a Samuel se ele quer que ela diga que não tinha os 16 vigilantes trabalhando na Câmara:

- Chefe de segurança: “Mas assim, o senhor quer que eu fale que não tinha os 16?”
- Samuel: “No começo, quando nós começamos aqui, não tinha não.”
Chefe: “Não, tinha 16, mas é para eu falar para eles que tinha 22 e que aos poucos foram tirando?”
– Samuel: “Tinha 22 quando nós pegamos o contrato, nós pegamos o contrato tinha 22 pessoas.”

Ouça abaixo a conversa.

A chefe de segurança foi presa temporariamente e liberada ainda nesta quarta-feira (16), após a oitiva. “A chefe de segurança da empresa foi ouvida e colaborou com as investigações, inclusive entregou os áudios. Nós tínhamos parte desses áudios e ela entregou os demais áudios. Em razão disso, ela já foi colocada em liberdade”, explicou o promotor de Justiça e coordenador do Gaeco, Daniel Martinez.

A prisão dela decorreu por mencionar na conversa sobre um documento que iria apagar do computador em que constava o nome dos funcionários. Aos promotores ela disse que assim o teria feito por causa da pressão que estava sofrendo.

Houve ainda imagens que mostraram que as conversas continuaram, inclusive até a última sexta-feira (13). Um dos vídeos mostra Samuel entrando na sala para conversar com a chefe de segurança e pega o celular dela e desliga, para que não fosse gravada a conversa.

 

 
PROPINA
O Gaeco apurou desvios de R$ 355 mil do Legislativo Municipal com o esquema montado entre 2018 até outubro deste ano. Uma planilha da propina foi entregue ao MPE e mostrou os valores que foram desviados e devolvidos da empresa para os vereadores investigados.

Na planilha é possível ver que ainda em outubro, quando o vereador Juliano Modesto já estava preso pela operação Torre de Babel e as investigações da operação O Poderoso Chefão estavam a todo vapor, foi paga a propina mensal. Daniel comentou que o valor foi pago no gabinete do presidente.

“Em relação ao atual presidente da Câmara e seu chefe de gabinete [diretor administrativo], além da gravidade da conduta tem a contemporaneidade dos fatos. O presidente da Câmara não se intimidou em receber, dentro da sala dele, o pagamento de vantagem indevida”, finalizou o promotor.

Além de Baiano, Alexandre e Juliano, foi preso preventivamente Adeilson Barbosa que era ex-controlador da Câmara na gestão de Alexandre. Ele também foi preso na operação O Poderoso Chefão e estava solto mediante uso de tornozeleira eletrônica.

Na operação Guardião, também foi decretada a prisão temporária do vereador Marcelo Cunha (que assumiu a vaga de Ismar Prado) e do ex-secretário Geral da Câmara, Aldo de Sousa Filho, que até o último mês assessorava Wilson Pinheiro. Os dois são investigados por terem sido gestores do referido contrato e, ainda assim, se abstiveram de fiscalizar a contratação, de acordo com o MP.

O Gaeco, recentemente, chegou a recomendar à Câmara a não renovação do contrato com a empresa e redução nos gastos com o serviço de vigilância, o que foi acatado pela presidência.


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