15/12/2019 às 10h40min - Atualizada em 15/12/2019 às 10h40min

Busca por tratamento contra compulsão alimentar cresce em Uberlândia

Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) afeta 4,7% da população brasileira

GIOVANNA TEDESCHI
A compulsão alimentar é um transtorno em que o indivíduo come compulsivamente e sem controle uma quantidade exagerada de alimentos | Foto: Igor Martins
“Me dava até palpitação, as mãos suavam...Na maioria das vezes, eu comia sem ver. Dava a hora do almoço e eu começava a comer e só parava quando estava estufando, quase morrendo de tanto comer”. O relato da empresária Clara Marques, de 38 anos, é uma realidade para quem tem o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP). De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca 4,7% da população brasileira sofre com o problema. Mundialmente, o valor cai para 2,6%.

A compulsão alimentar é um transtorno em que o indivíduo come compulsivamente  e sem controle uma quantidade exagerada de alimentos em um período de poucas horas. Segundo a psicóloga Laura Diniz, que trabalha em uma clínica especializada em cirurgia bariátrica, no quadro, os episódios ocorrem, em média, um dia por semana, por no mínimo três meses. “Geralmente, se vê o transtorno muito entre os obesos. Está muito associado à ansiedade também. No mundo em que vivemos hoje, muito ansioso, nós temos cada vez mais encontrado pacientes com compulsão alimentar”, afirma.

O tratamento é realizado com acompanhamento médico, psicológico e nutricional. Medicamentos podem ser necessários. Ainda de acordo com Diniz, é preciso observar alguns sinais como comer muito rápido e desesperadamente, comer sozinho por vergonha da quantidade de alimento ou ficar culpado ou depressivo depois de comer muito. “Muitas pessoas, quando eu atendo esse público obeso, vêm com características de compulsão alimentar. Essas pessoas geralmente não buscam tratamento porque é uma válvula de escape para a ansiedade”, diz a psicóloga.

Psicóloga Laura Diniz durante consulta em clínica especializada em cirurgia bariátrica em Uberlândia | Foto: Giovanna Tedeschi


Clara Marques só procurou um tratamento quando entendeu que os episódios não eram normais. Ela já teve depressão. “Mesmo sabendo que aquilo ia me fazer mal, eu escolhia comer. Aí eu vi que não era normal. Um animal, se farejar alguma coisa que não vai fazer bem, ele escolhe não comer. Eu vi que a compulsão, o prazer por comer era maior do que o bem-estar”, diz. Nesse momento ela percebeu que precisava de ajuda. Navegando pelo Instagram, encontrou posts que falavam sobre a compulsão, começou a pesquisar sobre o assunto e buscou ajuda.

A educadora física Lesley Carlos sofreu com a compulsão alimentar quando fez um intercâmbio em Portugal por dois anos. “Mesmo fazendo uma faculdade em que eu tinha muita prática física, eu engordei mais de 10 kg. Desde então, o meu interesse em estudar sobre exercício, alimentação e emagrecimento ficou muito grande, porque eu sofri muito por causa da questão da autoimagem”, conta. Mas apesar de pesquisar sobre o assunto e fazer musculação, ela não conseguia fazer a compulsão parar.

Depois de se formar, Carlos passou a estudar a Programação Neurolinguística (PNL), uma abordagem de comunicação e psicoterapia. “Eu fui percebendo que o que impedia as pessoas de emagrecerem e lidarem com a alimentação é a parte da mente que tem as emoções. Foi aí que eu comecei a entender o que aconteceu comigo quando eu estava na faculdade: eu fui para um outro país, tive muitos desafios, fiquei num nível de ansiedade e stress. Esse estado emocional fez com que eu comesse a mais. Essa vontade de comer é uma vontade de sentir prazer”, explica. Atualmente, a profissional realiza mentorias e workshops para auxiliar quem tem dificuldade de lidar com a alimentação. A empresária Marques realiza o tratamento com Carlos.
 
PREJUÍZOS AO CORPO
De acordo com a endocrinologista Taciana Maia, o maior prejuízo da compulsão alimentar é a obesidade, que acaba tendo como consequência outras doenças. “Pressão alta, diabetes, alteração do colesterol e triglicérides que consequentemente levam a doença cardiovascular”, enumera. O aparelho digestivo também pode ser afetado, provocando ou piorando o refluxo gastroesofágico.

Além disso, o transtorno pode afetar os hormônios de saciedade: a pessoa passa a não saber mais quando está satisfeita. Foi o que aconteceu com a enfermeira Júlia (nome fictício), de 38 anos. Incentivada desde a infância a comer em grandes quantidades, ela tem dificuldade em saber a hora de parar. “Talvez o que tenha piorado essa situação da compulsão é a minha separação, há 11 anos. De lá para cá eu engordei uns 10 kg”, conta. Hoje, Júlia faz tratamento com a educadora física Lesley Carlos e com um psicólogo, além do acompanhamento médico para doenças como hipertensão e diabetes.

Para auxiliar no controle na hora de comer, a endocrinologista Maia aconselha uma mudança de utensílios. “Um dos mecanismos da saciedade é exatamente a mastigação. Se comer rápido, sem mastigar, o cérebro não vai entender que você está comendo. Uma estratégia seria comer em pratos pequenos, com talheres pequenos, e mastigar pelo menos vinte vezes antes de engolir”, afirma. A compulsão alimentar também pode desencadear outros transtornos, como a bulimia.
 
NUTRIÇÃO
Nutricionista Nayara Bernardes diz que é importante identificar origem do problema | Foto: Arquivo Pessoal
 
De acordo com a nutricionista Nayara Bernardes, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) é muito comum em pacientes obesos e é sempre ligada a fatores emocionais. “O primeiro de tudo é a gente conseguir identificar. Com o decorrer do atendimento, geralmente vai se criando um vínculo e os pacientes passam a mostrar problemas emocionais e a identificar que esses problemas influenciam na alimentação”, afirma.

Dietas muito restritivas também podem ser gatilhos para a compulsão alimentar. “Nós cortamos aquele alimento problemático para o paciente e ele fica na cabeça que aquilo é proibido e que ele não pode comer, não vai ter mais contato. E era um alimento que ele comia todos os dias, por exemplo, como o açúcar. Quando nós privamos o indivíduo daquele alimento, quando ele é exposto, a tendência é ter um episódio de compulsão”, exemplifica a nutricionista. Para evitar o transtorno é possível incluir o alimento “proibido” em pequenas quantidades na rotina alimentar.

Para tratar a compulsão, é necessária uma equipe multidisciplinar. “Nós precisamos primeiro resolver as questões emocionais e psíquicas que estão influenciando nesse comer compulsivo. Então temos essa possibilidade de encaminhar para um psicólogo para tentar trabalhar com essas questões, porque só assim vamos conseguir um sucesso na parte de nutrição também”, explica Bernardes.












 

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