01/12/2019 às 07h00min - Atualizada em 01/12/2019 às 07h00min

Luz, câmera... e a democratização

O acesso ao cinema envolve muito mais do que a simples exibição de filmes; iniciativas de entusiastas promovem a cinefilia

ADREANA OLIVEIRA
Doutorado de Iara Magalhães na UFMG joga uma luz sobre as mulheres no cinema | Foto: Adreana Oliveira

O ano era 1975. A jovem Iara Helena Magalhães ingressava no curso de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP). Era uma época de intensas atividades nos centros acadêmicos, não só culturais como políticos. Entusiasmada com as possibilidades que se abriam ali, a futura odontopediatra se enturmou com um “grupo de duas pessoas” apaixonadas por cinema.

“Eles exibiam filmes em 16mm no Centro Acadêmico e em pouco tempo, quando eu já fazia parte do grupo, conseguimos um espaço no Cine São Jorge. Cobrávamos um preço bem barato. Com o tempo, distribuidoras nos procuravam com seus catálogos para que exibíssemos os filmes em nossas sessões ou ‘iam virar vassoura’”, recorda Iara, em seu apartamento em Uberlândia, durante uma passagem na cidade entre suas idas e vindas a Belo Horizonte, onde atualmente faz doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

E foi assim, nessa atividade cineclubista, que a paixão pelo cinema tomou conta de Iara e é exatamente com outra atividade cineclubista que ela trabalha em seu doutorado. O projeto híbrido, além de colaborar com as pesquisas acadêmicas, pretende ajudar a formar nos assentamentos de Uberlândia cineclubes feitos para e por mulheres. “Olha só como as coisas estão conectadas... é como se fosse uma dobradura no tempo...tudo tem vida”.

Nascida no interior de São Paulo, Iara mora em Uberlândia desde os 3 anos de idade e foi para cá que voltou dois anos após a graduação. E trouxe consigo a paixão pela sétima arte e a Sétima Arte, uma locadora e ponto de encontro de cinéfilos uberlandenses. Foram 22 anos de atividade e, mais de 10 anos após seu fechamento, Iara ainda é conhecida como “Iara, da Sétima Arte”. A odontologia ficara para trás.

Ali surgiram projetos como “Domingo pede cachimbo”, “Pré-Estreia” e intensos encontros culturais. “Era meados dos anos 80 e a fita VHS começava a se popularizar. A pessoa passava a ter ‘o poder’ de ver o que quisesse em casa, na hora que quisesse e isso aconteceu também com as fotocópias para quem não queria ler um livro inteiro, com o walkman que levava uma fita com seleção de músicas que não necessariamente era um álbum. E hoje, veja só onde chegamos”, comentou a especialista em cinema, que foi professora do curso de Cinema da Unitri enquanto ele existiu, entre 2003 e 2011.

Para Iara, os avanços tecnológicos, que hoje permitem até mesmo fazer e exibir filmes por um smartphone dialoga com o tema da
reação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, que surpreendeu muita gente: Democratização do acesso ao cinema no Brasil.

Ela explica a importância em se falar e fazer cinema, mas que tal democratização como ela sonha ainda é bem utópica. Afinal, segundo dados de 2016 do Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC), nenhum município com população abaixo de 3 mil habitantes tem sala de cinema no Brasil.

“Não se trata só de exibir um filme, é realmente dar acesso não só às exibições, mas às ferramentas de produção para todos, independentemente de gênero, raça, cor”, diz Iara cujo título do doutorado é: “Corpos femininos e cinema nas ocupações – Fabricação de Memória e Lugares de Fala”.

O entusiasmo com que Iara fala sobre este novo projeto é contagiante, ela chega a comentar que “remoçou muitos anos” nos últimos meses. E na próxima semana ela participa, na UFMG, em Belo Horizonte, no dia 4, do lançamento do livro “Mulheres de Cinema”, organizado pela professora Karla Holanda, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e promovido pelo grupo de pesquisa Poéticas Femininas, Políticas Feministas.

Ela acredita que ao ajudar na criação de cineclubes por mulheres sem-teto é uma forma genuína de democratização e também dá a elas ares de protagonistas. “A gente tira o foco do filme em si para o ver juntos, para um mundo de possibilidades. Elas viram interlocutoras e partilham de algo. É a etnografia do sensível na busca desse cinema plural que a gente sonha.”
 
CINECLUBE
Tradição gratuita que já dura 34 anos

 
O Brasil tem pouco mais de 3 mil salas de cinema. Segundo dados do Observatório do Cinema e do Audiovisual (OCA) da Agência Nacional de Cinema (Ancine), entre janeiro e novembro deste ano, nestas salas foram exibidos 496 títulos estrangeiros e 297 títulos nacionais.

E a ida ao cinema – hoje em Uberlândia só há salas em shoppings - não fica barata. Se você comprar uma inteira e uma meia-entrada para este domingo em uma sala convencional, com um combo mais básico de pipoca e refrigerante, o gasto fica na faixa dos R$ 80.

E na contramão do cinemão, os cineclubes, como o Cineclube Cultura, de Uberlândia, que está em cartaz há 34 anos com sessões regulares, entrada franca, espaço para compartilhamento e filmes que estão fora do circuito comercial. “Hoje o Cineclube Cultura apresenta uma programação diversa, abrangendo linguagens e gêneros variados do cinema brasileiro e internacional, como é o caso do documentário e de filmes experimentais. Além disso, tem a programação para o público infantil no Céu Shopping Park, às terças-feiras. Além da diversidade e do ecletismo em sua programação, temos parcerias com produtoras de filmes e festivais, como o ‘Festcurtasbh’, de Belo Horizonte, e a ‘Mostra do Filme Livre’, de São Paulo”, explicou Paulo Augusto Soares, atual gestor do projeto idealizado por Paulo Torres, que ficou na direção do projeto por mais de 30 anos.

A iniciativa de Torres, então como funcionário da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), viabilizou, para sua realização, uma parceria entre a Prefeitura de Uberlândia e a Empresa de Cinemas São Paulo Minas Ltda. As atividades começaram em 1985, no Teatro Vera Cruz, com a apresentação de um ciclo de filmes do diretor Glauber Rocha e um debate com o pesquisador do cinema brasileiro, Jean Claude Bernadet. “Naquele tempo, utilizando projetores de 35 mm à carvão, ainda foram exibidos dois clássicos do cineasta mineiro Humberto Mauro, ‘O canto da saudade’(1952) e ‘Argila’(1940)”, relata Torres.

A SMC adquiriu no mesmo ano dois projetores de 16mm, somados a outros dois já existentes. O Cineclube passou então, a exibir filmes nos distritos de Martinésia, Cruzeiro dos Peixotos, Miraporanga, Tapuirama e também no Teatro Vera Cruz, Galpão do DCE e Casa da Cultura.

Em 1986, a Secretaria Municipal de Cultura iniciou na Casa da Cultura uma programação regular de vídeo, com um aparelho de TV de retroprojeção e uma tela. Posteriormente, passou a utilizar uma TV de 26 polegadas doada na programação mensal.
De 1995 a 2018, as exibições foram para a Oficina Cultural. A partir de 2006, as sessões já contavam com um projetor multimídia de alta definição e uma tela de projeção, da SMC.

Nos últimos três meses de 2019, a programação do Cineclube Cultura foi interrompida por causa de um problema com o projetor e, na sequência, a Oficina Cultural entrou em reforma. Para 2020, o Cineclube volta a funcionar no novo espaço cultural, onde era o Fórum.

NA ESCOLA
O cinema como aliado da educação

 


Registro de um dos encontros do projeto “Luz, Câmera...EducAção!”, que leva o cinema a crianças | Foto: Divulgação
 

Os alunos da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Anísio Spíndola Teixeira, no bairro Morumbi, estão bem longe de um Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), porém, já são beneficiados pelo projeto de arte e educação realizado em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

O “Luz, câmera...EducAção! – As possibilidades do Cinema na Escola” começou a partir da construção de dados de doutorado da professora Ludmila Rodrigues Rosa, que virou também um projeto de extensão. “A pesquisa que ela desenvolve trata de planejar e executar uma proposta de formação para as professoras da educação infantil com a temática Cinema e Educação”, explica Lúcia de Fátima Dinelli Estevinho, bióloga e educadora, professora do Instituto de Biologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFU, parceira do projeto.

Ludmila conta que as atividades entre março e novembro receberam mais de 80 inscrições e 64 profissionais de escolas dos bairros Alvorada, Santa Mônica e Tibery, além da Emei do Morumbi. “O sucesso foi tanto que precisamos mudar o lugar de realização das oficinas para comportar todo mundo. As avaliações, que aconteceram em módulos, nos deram um feedback positivo, todos já perguntam quando vai ser a próxima edição. Foram discussões muito ricas e também fizemos nossas produções.”

A professora disse que os professores são multiplicadores. A Anísio Spíndola atende cerca de 700 crianças de até 5 anos de idade. “Além deles, alunos de outras turmas da rede municipal vão aprender com mais essa ferramenta de ensino”.

Para Lúcia de Fátima, o cinema está longe de ser democrático, especialmente se pensarmos no acesso do público às salas de cinema. “Quem tem acesso às salas de cinema em Uberlândia é uma parcela muito pequena da população. Se pensarmos em outras regiões do país, isso é muito mais complexo. Há muitas cidades aonde não há salas de cinema, a mais próxima pode estar a quilômetros de distância”.

Por isso a bióloga afirma que a experiência do cinema na escola é importante. “É importante ver cinema e conversar na escola sobre os filmes, mas nada substitui a sala escura, a tela gigante à sua frente”.

Lúcia de Fátima acredita que a sétima arte pode ajudar na ampliação de horizontes das pessoas e muito. “A linguagem cinematográfica permite pensar, não leva a uma única visão das coisas e do mundo. Há diretores que fazem isso com perfeição, outros conduzem o espectador para um determinado entendimento, mas não há controle no audiovisual. Sempre penso que o cinema tem um ‘complete, três pontinhos’, que passa da tela para o pensamento do espectador e isso é maravilhoso.”

DISTRITOS
Na última quinta-feira, os alunos da Escola Municipal Domingas Camin e a comunidade do distrito de Miraporanga assistiram a uma sessão do filme “Lorax: Em busca da trúfula perdida” dentro do projeto Cine Água Cultural, parceria do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) e Secretaria Municipal de Cultura (SMC). Segundo Priscilla Petrocelli, supervisora de projetos de Educação Ambiental do Dmae, a iniciativa, contou com nove sessões e foi levada também aos distritos de Cruzeiro dos Peixotos, Tapuirama e Martinésia.

“Apesar de ser um projeto voltado para os estudantes, as comunidades também se envolvem e isso é muito legal. O cinema é um ótimo aliado da educação ambiental, trabalhando de forma lúdica nas tramas selecionadas. Ainda temos uma conversa após as exibições para tratar melhor do tema e assim as crianças aprendem e compartilham tudo em casa.”

O projeto está dentro do Programa Escola Água Cidadã, exibido a céu aberto. No caso de “Lorax”, o filme conta a história de um menino que vive na cidade onde as árvores são feitas de plástico e tudo é artificial. Ele deixa o local à procura do objeto capaz de aproximá-lo da garota de seus sonhos. Nessa busca, descobre a história de Lorax, uma encantadora e ao mesmo tempo mal-humorada criatura que luta para proteger um mundo em vias de extinção. Apesar de ser dirigida ao público infantil, a animação também tem conquistado os adultos.

A estrutura do Cine Água Cultural conta com um telão inflável de cinco metros de altura por sete de largura, projetor de alta definição e equipamentos de som digital e sempre tem entrada franca.
 
RECURSOS PÚBLICOS
Ancine diz ter investido mais de R$ 500 mi neste ano

 
Estamos quase em 2020 e, segundo reportagem da Folhapress, o governo Bolsonaro não aprovou um documento fundamental para que um dos principais incentivos culturais do país, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), injete R$ 724 milhões no setor. O atraso tem gerado a paralisação de projetos para o cinema e a televisão. Isso leva a um impacto significativo na produção cinematográfica brasileira, que vem enfrentando outros problemas políticos e jurídicos neste ano.

Em abril, a Agência Nacional do Cinema (Ancine), teve suas atividades paralisadas após o Tribunal de Contas da União identificar problemas nas análises de prestação de contas de projetos incentivados.

Segundo a coluna de Flávio Ricco, no dia 22 de novembro, no fim da “Mip Cancún”, no México, "a situação caótica da Ancine... com os tantos projetos absolutamente parados" foi tema de muitas conversas que davam conta de que a Agência tem R$ 1,5 bilhão em caixa esperando para entrar na economia brasileira, e por conta disso, muitas demissões têm acontecido no setor.

O Diário de Uberlândia procurou a Ancine, que respondeu por meio da assessoria de imprensa. “A informação de que a Agência teria R$ 1,5 bilhão paralisado em caixa não procede. Em relação à atuação da Ancine no fomento a projetos audiovisuais por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ao longo de 2019 foram desembolsados mais de R$ 520 milhões para 660 projetos. Além do FSA, outros mecanismos de incentivo indireto e investimento de estados e municípios apoiam a produção audiovisual nacional. A taxa de investimento em projetos audiovisuais por parte da Ancine é semelhante a anos anteriores.”

Em 2020, a Ancine afirma que buscará atuar em suas atribuições de Agência reguladora com foco na regulação, fiscalização e fomento do mercado audiovisual. Na área de fiscalização, serão concentrados esforços nas ações de combate à pirataria e acompanhamento da implementação dos recursos de acessibilidade em salas de cinema.

Na questão regulatória, atuará com a realização de Análises de Impacto Regulatório em diversos temas e revisão de instruções normativas. E em sua atuação de fomento ao mercado, a Ancine seguirá executando as políticas definidas pelo Conselho Superior do Cinema e pelo Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual.

Outro ponto de destaque na questão do fomento será o trabalho interno da Agência para redução do passivo de projetos com prestações de contas não analisadas.








 
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