11/11/2019 às 07h43min - Atualizada em 11/11/2019 às 08h47min

Transição de carreira exige foco e planejamento

Diário de Uberlândia mostra histórias de pessoas que mudaram radicalmente a rotina profissional; pesquisa aponta que maioria dos brasileiros está insatisfeita com o trabalho

SÍLVIO AZEVEDO
Paula Barcelos Rosa trocou a publicidade para se dedicar à gastronomia vegetariana | Foto: Arquivo pessoal
Na hora de prestar o vestibular, muitos adolescentes ficam em dúvida sobre qual carreira seguir. O futuro será definido em uma escolha que pode mudar para sempre a vida deles. Certo? Errado! Nos dias atuais, cada vez mais pessoas têm se direcionado profissionalmente para ares diferentes de sua formação original.

Uma pesquisa feita pelo LinkedIn, maior rede social de caráter profissional do mundo, e a empresa britânica Bands2Life, mostrou que cerca de 63% dos brasileiros estão insatisfeitos com seus empregos atuais. Outro dado apresentado é de que 80% dos profissionais não se candidatam a uma vaga de trabalho que têm interesse. As razões são diversas e vão desde o medo de sair da zona de conforto, insegurança quanto à qualificação para ocupar a nova função e até a remuneração.

De acordo com Débora Garcez, master coach de carreira e escolhas profissionais, é importante que essas pessoas estejam preparadas e com um planejamento estratégico e financeiro definidos para começar a transição de carreira.

“Tanto em uma mudança drástica, quanto em uma sutil de colocação profissional, existem alguns pontos importantíssimos que precisam ser levados em consideração. Primeiro, as habilidades que a pessoa tem para exercer essa nova função. Depois, construir um planejamento de ação, financeiro e estratégico, com processo de coaching, consultoria e suporte. Em terceiro lugar, colocar em prática o que foi desenhado no planejamento.”

Ainda de acordo com Débora Garcez, em toda mudança existem riscos e seguir os passos planejados é importante para evitar algum tipo de frustração. 

“Os riscos que podem acontecer durante o processo vão desde ansiedade, por muitas vezes depender da ação de um terceiro para que as coisas que você almeja aconteçam, até a decepção de executar uma função que não era aquilo que imaginava. Tudo isso porque não fez um bom planejamento e uma pesquisa sobre a ocupação”, explicou.

Mesmo com riscos, muitas pessoas que trocaram de área afirmam que o esforço é compensador. É o caso da hoje empresária Daniela Santos Gomes. Nem mesmo a estabilidade e uma vida cheia de vantagens financeiras morando fora do país evitaram que ela deixasse o emprego em uma grande rede do ramo de alimentação em Angola para voltar ao Brasil e abrir seu próprio negócio.

Mesmo ganhando em dólar, Daniela trocou emprego na África para virar empresária | Foto: Arquivo Pessoal

“Eu era gerente administrativa e financeira de uma empresa no ramo de alimentação em Luanda, Angola. Comecei a trabalhar no final de 2010 e fiquei até final de 2014. Foram quatro anos. Ganhava muitíssimo bem lá. Ganhava em dólares, a empresa me dava tudo, casa, comida, empregados, cozinheira, limpava a casa, lavava e passava roupa, internet, tudo era por conta da empresa. O salário era 100% meu, para gastar como eu quisesse.”

Mesmo com todos os benefícios financeiros, além da saudade de casa, o desgaste com o trabalho foi importante para que Daniela Gomes desse uma nova guinada na carreira profissional. “Trabalhar com o dinheiro de outras pessoas para mim era uma responsabilidade muito grande. O volume de dinheiro que passava nas minhas mãos era alto, mas o que me levou mesmo a mudar de área foi a realização profissional, de fazer o que gosto e por também estar distante da família. Eu estava na África e vinha de oito em oito meses.”

Decidida a alcançar a realização profissional, Daniela voltou ao Brasil e começou a trabalhar com maquiagem e cosméticos. “Mas a partir do momento que comecei a trabalhar com que eu realmente gostava, com prazer, eu passei a perceber que fazia aquilo com muito mais intensidade e os resultados eram cada dia melhores. Foi crescendo gradativamente, mas mais rápido do que esperava”.

O negócio deu tão certo que Daniela possui uma marca própria de maquiagens, a Santa Make, e ministra cursos em todo o país. “Falo que estou plena, completamente realizada e satisfeita com o que faço. Não tem aquela insatisfação de pensar: hoje é sábado, tenho que acordar 5h da manhã para trabalhar. Não! Acordo feliz pensando que tenho que deixar mulheres bonitas, mais felizes.”

Com a satisfação veio a recompensa financeira. Segundo ela, atualmente seus ganhos são maiores do que o antigo emprego em Angola.

DUAS MUDANÇAS
A publicitária Paula Barcelos Rosa, 35, mudou os rumos da sua vida profissional duas vezes nos últimos tempos. A primeira aconteceu após o anuncio do fechamento do Jornal Correio, onde trabalhava no departamento de marketing.

“A mudança aconteceu em 2016 quando a Algar Mídia anunciou que o jornal iria sair do mercado e que não só eu, mas outras pessoas perderiam seus trabalhos. Nesta época eu estava com casamento marcado, foi então que optei em buscar uma atividade que me proporcionasse algo além de uma renda financeira”.
Como é vegetariana e estava com dificuldades de encontrar produtos saudáveis e sem origem animal, enxergou uma chance de negócio e resolveu cozinhar para esse público. Foi uma transição causada pela necessidade, mas que acabou virando uma oportunidade.

“Saí de uma atividade que havia esforço intelectual para uma atividade que exigia além do esforço intelectual um esforço físico. Aprendi a realizar multitarefas: financeiro, compras, marketing, logística e produção. Exigiu de mim muita disciplina, porque se eu não arregaçasse as mangas e colocasse a mão na massa, o negócio não iria prosperar, dependia só de mim. Quando estabeleci uma rede de clientes, se tornou muito viável financeiramente, muito melhor do que quando trabalhava como empregada”.

A mudança de ares foi positiva e acrescentou muito no crescimento pessoal de Paula, que não se arrepende de não buscar mais nada no ramo publicitário. “Não tenho do que me arrepender, todas essas mudanças me fizeram crescer como pessoa e profissionalmente. É muito bom levar amor à mesa dos clientes através dos alimentos e saber que a cada garfada estarão cuidando das suas saúdes e prevenindo enfermidades. A recompensa financeira passou a ser somente uma consequência da dedicação diária”, explicou a agora chef.

Há alguns meses uma nova mudança aconteceu na vida de Paula: a chegada do filho Amós, em junho deste ano. “Tive que dar uma pausa no trabalho porque agora sou mamãe. Todas estas mudanças me proporcionaram infinitas possibilidades e uma delas é de poder cuidar da minha família e dos meus clientes.”

VOA ALTO
Em meio às trocas de carreiras, também existem casos de pessoas que vão longe na busca da realização. E Vladimir Thomaz de Aquino Malvestio sonhava alto, muito alto!

Para seguir a carreira que queria desde criança, a de piloto de avião, Vladimir, que veio do interior de São Paulo, precisou trabalhar para conseguir pagar o curso e conseguir o brevê, o diploma de piloto.

 
“Eu tinha 20 anos. Eu sou de uma cidade pequena do interior de São Paulo, Orlândia, e o que apareceu para mim foi vender vassouras. Uma amiga me indicou, comecei a fazer e vender com objetivo de pagar o meu curso de piloto. Trabalhei por aproximadamente um ano e meio, consegui a carteira de piloto e começar a trabalhar na área”.

Mesmo sendo um trabalho originalmente focado em um objetivo maior, as mudanças de um emprego de vendedor para o de piloto, claro, foram drásticas, desde a parte financeira até o operacional. Conquistado o sonho, o comandante Vladimir não pensa em mudança profissional.

“São áreas diferentes. Financeiramente foi uma mudança extremamente alta. Você consegue o brevê e começa a alcançar novos objetivos, conseguir o primeiro emprego de piloto. Estou na área há 25 anos. Não tenho pretensão de mudar. Consegui minha satisfação pessoal e profissional. Estou realizado nesse assunto”.
 
 




 
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