04/11/2019 às 18h27min - Atualizada em 04/11/2019 às 18h27min

Crescimento de startups gera oferta de empregos mais qualificados em Uberlândia

Cidade conta com 126 empresas no ramo; uma delas, a ZUP, foi vendida por R$ 575 milhões

SÍLVIO AZEVEDO
Com um número crescente de empresas, aumenta a demanda por profissionais, mas falta qualificação | Visual Hunt
Muitas mentes brilhantes da tecnologia começaram seus negócios buscando solucionar alguma necessidade da sociedade. A Uber chegou para revolucionar o transporte de passageiros, assim como o AirBNB passando por cima da cadeia hoteleira mundial e dando oportunidade para pessoas encontrarem hospedagem com melhores preços. Esses são dois exemplos de startups de sucesso no mundo.

Mas o que é uma startup? É uma empresa recém-criada que tem um modelo de negócio e soluções que permitem uma grande oportunidade de crescimento, de forma mais eficiente do que uma empresa tradicional.

O Brasil sofreu um boom na abertura de startups nos últimos seis anos. Segundo dados da Associação Brasileira de startups (ABStartups), em 2014 o país tinha cerca de 3 mil empresas. Até o final de outubro deste ano, a base de dados da entidade mostrava que existem quase 12,7 mil.

Trazendo para uma realidade local, Uberlândia tem se tornado um grande centro de nascimento de startups no país. Atualmente, a cidade conta com 126 empresas, de acordo com a ABStartups. Entre os fatores que favorecem a abertura de novas startups estão o apoio do governo municipal, o baixo custo de vida, a localização privilegiada da cidade, diversas universidades que oferecem cursos de tecnologia e uma empresa de telecomunicação.

Gustavo Debs, um dos sócios-fundadores da ZUP, empresa fundada em 2011 e que foi destaque na imprensa nacional ao anunciar a venda de 100% do seu capital para o Itaú por R$ 575 milhões na última quinta-feira (31), crê que a cidade oferece um ambiente favorável para o nascimento e desenvolvimento de novas startups.

“Acredito que todos vemos com bons olhos esse crescimento no número de startups em Uberlândia. O ecossistema só tem a ganhar com tantos bons empreendedores e boas ideias. A cidade oferece mão de obra qualificada e um ecossistema propício para o desenvolvimento dessas novas empresas”, disse.

Gustavo Debs diz que cidade oferece um ambiente favorável a novas empresas | Foto: Divulgação


BOOM DE STARTUPS 
O mundo vive uma era de novas tecnologias. Saímos das máquinas de escrever para os computadores, celulares, internet cada vez mais veloz, smartphones e seus aplicativos. Isso, segundo o CEO da Zillion, Robson Xavier, é um dos fatores que favoreceram o crescimento do número de empresas de tecnologia.

“A gente está vivendo um reflexo de um crescimento assustador de novas tecnologias. Então quando se fala de internet das coisas, indústria 4.0, e-commerce, dispositivos móveis, principalmente de apps, o que acontece é uma explosão de novas soluções, de novas funcionalidades, de desejos que não existiam anteriormente”, diz.
 
Tecnologia na segurança pública
Empresa de Felipe Fernandes fechou parceria com PM para fornecer solução tecnológica
| Foto: Divulgação

Fundada há nove meses, a Ivare é uma startup uberlandense que trabalha exclusivamente com soluções em inteligência artificial (IA). De acordo com o CEO da empresa, Felipe Fernandes, o setor tem sido mais explorado e os resultados estão aparecendo, ganhando mais visibilidade para as empresas da cidade e de todo o país.

“Até três anos atrás [eu] não conhecia o ecossistema das startups. Ele existia, mas era fraco. Só que o ecossistema evoluiu muito de lá para cá. As coisas melhoraram de um ano e meio para cá. A cidade está sendo reconhecida pela qualidade das soluções oferecidas aqui. O ecossistema de Uberlândia é um dos maiores do Brasil porque está trabalhando a questão de reconhecer as empresas que estão nascendo e criando um processo para que a startup não morra”, explicou Felipe.

A empresa trabalha soluções usando exclusivamente inteligência artificial (IA). O sistema permite a geração de análises e envio de alertas em tempo real, além de aprender sozinho, mas de forma controlada, padrões que tornam seu funcionamento mais preciso.

“Dentro da IA consigo identificar qualquer imagem, de pessoa, animal, além de fazer análise em tempo real. Também consigo saber padrões, que geram insights de forma automática, porque a IA é uma criança. De acordo com o que você imputa dados e ela vai aprendendo, vai formando seu conhecimento. E a gente faz o balanceamento, e sempre focando em questões macro, pois se fizer isso a sua IA tem uma potencialidade de escala muito maior”, disse.

Recentemente a Ivare fechou uma parceria com a Polícia Militar de Minas Gerais para o fornecimento de uma solução que faça reconhecimento facial de pessoas com mandado de prisão em aberto utilizando as câmeras de segurança da PM espalhadas pela cidade.

“É uma plataforma integrada com todas as câmeras públicas da cidade e fará o reconhecimento apenas das pessoas que têm mandado de prisão, fazer uma análise e mandar um alerta. A Ivare montou desde a inteligência artificial até a parte física do projeto”, explica.

Atualmente três empresas oferecem esse sistema no Brasil. Uma chinesa, que colocou em Salvador (BA), uma italiana, que atua através da operadora OI, e a Ivare. A funcionalidade do sistema segue em segredo, mas será apresentada em uma coletiva de imprensa que será realizada nos próximos meses.
 
MERCADO DE OLHO
Sócios da empresa uberlandense ZUP
| Foto: Divulgação

Com oito anos de mercado, a ZUP é uma startup especializada em sistema de grandes conjuntos de dados que precisam ser processados e armazenados (Big Data). Na noite de quinta-feira (31) a Itaú Unibanco Holding S.A. anunciou a aquisição da empresa uberlandense por R$ 575 milhões, e a compra será feita em três etapas ao longo de quatro anos.

Na primeira etapa, o Itaú adquire 51% da Zup por aproximadamente R$ 293 milhões. No terceiro ano após o fechamento da compra, mais 19,6% do capital, e o restante no quarto ano.

De acordo com um dos sócios-fundadores da ZUP, Felipe Almeida, o Itaú já era cliente da empresa e durante conversas sobre projetos surgiu o interesse pela aquisição. Mesmo com a venda, os sócios continuam à frente da startup e a rotina permanecerá a mesma.

“Hoje são 900 funcionários na ZUP, que vão manter o dia a dia que ela sempre teve. A empresa continua em Uberlândia, a gente tem outras cinco filiais pelo Brasil, essa estrutura continua. A gente vai continuar expandindo e atendendo, não só Itaú, mas os clientes que a gente já tem. E vamos continuar focando e ampliando os demais”, disse Felipe.

A venda da ZUP serve como incentivo para quem está começando uma nova empresa. Felipe Almeida espera que movimente ainda mais o ecossistema de empreendedores e que vendas como essa sejam cada vez mais habituais dentro desse ecossistema da nova economia.

“Para as startups é um case bacana de criação de empresa, de crescer com o nosso próprio dinheiro. Depois a gente fez uma rodada de investimentos em 2015, que é o caminho que cada vez mais as startups estão buscando, encontrar fundos, quando é possível uma saída, acho que é um caminho bacana”.
 
EMPREGO
Fundador da Zillion, Robson Xavier acredita que escolas deveriam dar mais importancia à tecnologia
| Foto: Divulgação

Em um país que possui milhões de desempregados, a área de tecnologia vem gerando milhares de empregos anuais que não são ocupados por falta de profissionais qualificados. Segundo levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), até 2024 serão abertos 420 mil postos de trabalho no setor.

Em contraponto, o Brasil forma 46 mil profissionais por ano na área de tecnologia, seja curso superior ou técnico. No fim, as contas não fecham e a diferença será bastante alta: um abismo de 270 mil vagas ociosas.

De acordo com o presidente executivo da Brasscom, Sérgio Paulo Gallindo, a área da tecnologia da informação e comunicação que tem taxa de empregabilidade mais alta é o subsetor de software e serviços, que faturou, somente em 2018, R$ 100,8 bilhões. Para suprir a ausência de profissionais, empresas têm investido na formação de talentos.

“Você contrata, ou viabiliza a realização de cursos livres, formando mais pessoas do que você precisa. Aproveita algumas e deixa o resto para o mercado. Mas isso é muito custoso. Não dá para imputar isso para a empresa. Tem também a qualificação interna, o upskill. O bom profissional, que tem potencial, você treina para funções mais sofisticadas”, disse.

Ainda segundo Gallindo, se o problema não for corrigido, as empresas podem começar a buscar profissionais fora do país, o que seria uma perda muito grande, principalmente na parte financeira.

“A gente está diante de uma mega oportunidade de crescer a economia nacional com empregos de qualidade. Mas por outro lado, corre o risco de não conseguir capitalizar essa oportunidade. Produção de tecnologias de transformação digital, nesse setor intensivo em mão de obra qualificada, é sinônimo de PIB. É um setor que produz R$ 100 bilhões por ano e iria para R$ 200 bilhões. Mas ele só cresce no Brasil, com essa proporção, se o trabalho for feito no Brasil.”

O fundador da Zillion, Robson Xavier acredita que deveria haver uma apresentação desde a infância para que crianças e jovens se interessassem pela área. Segundo ele as escolas brasileiras não se prepararam para a importância da tecnologia no dia a dia da sociedade atualmente.

“Quando a gente olha a grade curricular, não tem uma matéria de computação, de lógica, uma matemática com mais foco na lógica. E desenvolver softwares é lógica, é um monte de 0 e 1 que se combinam, e nem todo mundo tem essa habilidade. Então assim, as escolas hoje precisam, de alguma forma, começar a se antenar com isso porque senão vai continuar faltando programador no mercado.”

Ainda segundo Robson Xavier, essa ausência de conhecimento na escola básica acaba refletindo na evasão de alunos do curso de ciência da computação nas faculdades. “Quando o cara entra no curso de Ciência da Computação ele não sabe direito com o que ele vai se deparar lá. Quando ele começa a pegar a lógica, programação, ele acha tudo um bicho de sete cabeças porque ele não foi treinado para aquilo, porque ele não tem essa habilidade”.

A consultora da empresa BE/BW, Marcela Pimenta, credita o boom de vagas ao crescimento acelerado no número de novas empresas de tecnologia de 2017 para cá, com uma média de 5,7 mil por ano. Com baixo número de profissionais disponíveis, mudou-se também o perfil de contratação das empresas. Se antes exigiam formação superior ou técnica, hoje o diploma não é mais uma obrigatoriedade.

“Muitas empresas já adotam nessa prática porque esses profissionais são muito autodidatas. Então não necessariamente eles fizeram um curso. Também às vezes ele já tem essa base. Só que tem se pedido muito mais vagas é de programadores e outras que são novas profissões”, disse.

Em Uberlândia existe o Uberhub, um ecossistema de inovação que, entre suas funções, ajuda na divulgação de vagas, fomenta a capacitação com cursos rápidos, com workshops e com palestras. “Eu sugiro que esses profissionais, novos ou não, que queiram se capacitar, estejam atentos a esses movimentos, estar ligado naquilo que está acontecendo na cidade, no Brasil e no mundo através de atualizações, através de networking e formações que vão ajudá-los a executar um bom trabalho de qualidade”, finalizou Marcela Pimenta.






 

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