01/09/2019 às 09h29min - Atualizada em 01/09/2019 às 09h29min

Esporte mental, poker vira meio de vida para jogadores de Uberlândia

O jogo de cartas mais famoso do mundo é considerado no Brasil um esporte da mente, com milhões de jogadores

SÍLVIO AZEVEDO
Osmar Ferreira é jogador de poker desde os 12 anos de idade | Foto: Sílvio Azevedo


Todo jogador de poker sonha em sair com a mão mágica. 10- J- Q- K- A, todos do mesmo naipe. O famoso e cobiçado Royal Straight Flush! A maior combinação de cartas do jogo pode garantir um grande pote, que é o valor de premiação apostado na mesa.

Aos 82 anos, Osmar Ferreira é praticante do poker desde os 12 anos de idade. Nessas 7 décadas, participou de inúmeros torneios e conquistou muitos prêmios. Em Uberlândia, é conhecido no meio como Broto, ou “A Lenda”. Com tantos anos de jogos, Osmar disse ter conseguido o Royal Straight Flush seis vezes.

Com anos de experiência, seu Broto enfrentou todo tipo de adversário e bate na tecla de que existem apenas dois tipos de jogadores: os que vencem sempre e os que perdem sempre. “Essa é a regra do poker. Não é jogo de sorte, é de ciência. Só ganha o melhor”.

Broto acompanhou as mudanças do jogo, implementadas pelos cassinos a fim de evitar que haja fraudes durante as partidas, principalmente na entrega das cartas. “Na minha época não existia esse poker moderno de 10 jogadores em uma mesa, com baralho inteiro e o dealer (profissional que distribui as cartas aos participantes). Eram quatro a cinco pessoas, as cartas iam do oito para cima e cada um a entregava uma vez. Os cassinos mudaram para evitar fraude nos jogos, existia muito roubo no baralho antigamente”, lembra.

Com o dinheiro que ganhou no poker, Osmar Ferreira comprou um caminhão Feneme em 1960 e foi trabalhar como caminhoneiro, mas nunca deixou a paixão pelo jogo de lado. “Paguei Cr$ 1,4 milhão naquela época, no dinheiro. Tudo ganhado no jogo. Viajei por Belém/Brasília, Cuiabá/Porto Velho, Cuiabá/Santarém, e sempre jogando poker”.

Em Uberlândia, Osmar jogava poker no Uberlândia Clube e se lembra dos adversários que enfrentava na mesa. “Eu era novo e enfrentava os empresários daqui, todos bem mais velhos. Eu com 18 anos e eles com 70, 80 anos. Foram morrendo todos e sobrou só eu”.
 
ESPORTE DA MENTE
Antônio Carlos Bruno e sócio do NoLimit | Foto: Sílvio Azevedo

Pouco se sabe sobre a verdadeira história do surgimento do poker. Muitos especialistas afirmam que ele pode ter sido inspirado em um antigo jogo persa chamado “As Nas”. Estudiosos também encontraram semelhanças no espanhol "primeiro".

O poker atual teve sua primeira aparição em arquivos datados dos anos de 1830, em Nova Orleans (EUA), usando apenas 20 cartas e, em seguida, levada a todas as regiões dos Estados Unidos e, em seguida, para o mundo.

Em 2010 o poker foi considerado pelo Ministério do Esporte um esporte da mente, assim como o xadrez. Dentro da modalidade existem diversas variações de jogos. Os mais tradicionais são Texas Hold’m, Omaha, Seven Card Stud (Razz), Five Card Draw. Mais recentemente duas novas entraram no circuito, a Courchevel e a Crazy.

Dos esportes individuais, o poker é o que concentra o maior número de atletas no país, segundo a Confederação Brasileira de Texas Hold’m. A entidade que representa a modalidade no Brasil estima que em 2020 existirão cerca de 10 milhões de jogadores no país.

Muitos desses jogadores participam de partidas em plataformas online e/ou frequentam casas de poker espalhadas pelo país. Em Uberlândia existem duas casas. Uma delas é a NoLimit, que funciona diariamente no bairro Lídice e tem cerca de 1.300 jogadores ativos frequentando o clube mensalmente.

Segundo um dos sócios, Antônio Carlos Bruno, as casas de poker conseguiram ser legalizadas provando que o esporte não é um jogo de azar. “Vários especialistas e ações correram o Brasil. Como a jurisprudência de um clube serve para outro, com a legalização de um, todos estão dentro das normas. Então, quando a NoLimit foi aberta, em 2014, não teve nenhum problema”.

A legalização das casas de poker aconteceu a partir de 2010 quando a justiça de Santa Catarina deferiu um pedido de funcionamento dando como uma das justificativas que a habilidade do jogador sobressai à sorte, portanto, o poker não é considerado um jogo de azar. Com isso, a jurisprudência da decisão valeu para todas as casas do país.

Para o empresário Antônio Carlos, quem quer jogar poker tem que estudar, independente se recreativo ou profissional. Saber as regras não quer dizer saber jogar, tem que entender. “O poker é um esporte para quem entende do jogo. Tem que ter sorte, como em qualquer esporte, mas alguns matemáticos falam em 3% a 5% de sorte. Quando você vê os resultados, de vez em quando um jogador recreativo ganha, mas os caras que chegam são sempre os mesmos. Quem está no poker vê isso como uma constante”.

Nas disputas do clube podem ser encontrados jogadores profissionais e recreativos na mesma mesa. A diferença no estilo de jogo fica clara durante o andamento das partidas. “O profissional é mais estratégico, tem uma visão melhor, bom conhecimento, tem uma leitura melhor dos jogadores, conhece o modo de cada jogador. Principalmente os recreativos, que são menos agressivos, e eles se aproveitam disso”, explicou Antônio.
 
POKER E AS PROBABILIDADES
O matemático Rodolfo Collegari discorda da afirmação de que o poker é menos sorte. Para ele, além do conhecimento técnico é preciso que as cartas ajudem bastante durante as jogadas. “É preciso bastante sorte, porém a pessoa que conhece mais e sabe tomar melhores decisões durante as mãos envolvendo as probabilidades, ao longo prazo, quanto mais ele vai jogando e repetindo as mãos, vai tirar melhor proveito desse conhecimento”.

Sobre probabilidades, Rodolfo destaca que os jogadores devem se atentar em dois momentos durante o partida: chances de conseguir uma boa mão e se compensa investir fichas em determinada aposta.

“São duas contas. Uma é saber a probabilidade de sair as cartas necessárias para fazer o seu jogo. Para isso, é importante saber contar a quantidade de cartas que eu preciso, conhecidos como ‘outs’. A outra conta, que é até mais importante, envolve as apostas. É saber se compensa ou não pagar aquela aposta baseado nas probabilidades. Deve-se comparar a chance de acertar sua mão com o valor que ganharia se pagasse a aposta. Você deve analisar se o seu investimento compensa o potencial lucro”.
 
OLHAR ESTRATÉGICO
Marcella fez do jogo uma profissão e já ganhou cerca de R$ 57 mil em premiações | Foto: Reprodução/Instagram
 
Em meio a tantos homens, as mulheres também vêm ganhando seu espaço. Marcella Camargo, 30, é formada em administração, nunca atuou na área e se apaixonou pelo esporte ainda na faculdade. “Aprendi a jogar na faculdade em 2009 e logo me apaixonei por ser tão fascinante e desafiador ao mesmo tempo. Jogava recreativamente nas horas vagas do estágio e da faculdade”.

Atualmente, o que era apenas recreação virou profissão. Marcella é jogadora profissional, faz parte da equipe Full Poker Team, já conquistou dois títulos, entre eles o torneio Ladies do Brazilian Series Of Poker (BSOP) Millions, em 2016. Ao todo, ganhou cerca de R$ 57 mil em premiações.

Mesmo como profissional, Marcella diz que muitos jogadores subestimam a capacidade das jogadoras, mesmo que em um ambiente de disputa bastante competitivo. Mas, segundo avalia, isso é um fator que pode ser explorado.

“Eles não gostam de perder, e para uma mulher nem se fala. Soa absurdo para alguns deles. Então tem sim uma parcela de jogadores que subestimam as mulheres, não querem que elas estejam ali. Mas também tem outra que são de jogadores que cada vez mais apoiam e levam suas mulheres e até filhas para disputarem. A sacada é aproveitar com olhar estratégico e já pensando em como podemos utilizar isso a nosso favor nas mesas”.

CINEMA
O poker também foi tema central de diversos filmes hollywoodianos. Entre os mais famosos estão “Maverick”, “007 – Cassino Royale”, “A Mesa do Diabo”, “Cartas na Mesa”, “Jogada Decisiva” e “High Roller – The Stu Ungar Story”.
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