08/08/2019 às 08h05min - Atualizada em 08/08/2019 às 08h05min

ONG de Uberlândia completa mais de 700 atendimentos a vítimas de violência

Dados do SOS Mulher mostram quadro de agressões disseminado em todas as classes sociais; lei de proteção à mulher completa 13 anos

VINÍCIUS LEMOS
Cláudia Guerra fundadora e voluntária da ONG | Foto: Arquivo Pessoal
Números da ONG SOS Mulher e Família mostram que a violência, tanto a física, quanto a psicológica, tem feito vítimas entre os mais diversos grupos de mulheres em Uberlândia. Neste ano, quase 70 pessoas buscaram atendimento na ONG no primeiro semestre de 2019 em casos de violência, seja a cometida por parceiros ou por estranhos. Entre esses novos casos e outros que continuam em acompanhamento, a organização fez 739 atendimentos até o fim de junho deste ano, contando o serviço social e o apoio jurídico e psicológico. Ainda segundo análise da ONG, é difícil traçar um perfil sobre a violência contra as mulheres, já que as vítimas têm caraterísticas bem distintas.

A maioria dos novos casos envolvem mulheres negras (53%), mas o número de vítimas brancas chega a 45% dos atendimentos neste ano, sendo o restante de vítimas asiáticas, com 2%. Também não se pode destacar grandes diferenças na escolaridade das mulheres atendidas, uma vez que a percentagem de vítimas varia de 10% a 26% entre os grupos de escolaridade, que vão do ensino Fundamental Incompleto ao Superior Completo.

A renda é outro critério que se divide sem grandes destaques. Os gráficos da ONG SOS Mulher mostram que a maior parte das atendidas têm ganhos de dois a quatro salários mínimos (R$ 1.996 a R$ 3.992), contudo há percentuais entre aquelas que têm renda de até oito salários (R$ 7.984) e aquelas que não têm renda.

Segundo Cláudia Guerra, fundadora da ONG e hoje voluntária, os dados comprovam a disseminação do problema entre as várias classes da sociedade. “Eu falo de características de pessoas que buscaram ajuda nesta instituição. Não dá para falar em perfil mais porque a violência pega todo mundo. São dados bem distribuídos. Lembrando que às vezes quem não tem renda não tem como chegar à ONG para receber atendimento”, disse Guerra.

MAIS DADOS
Por outro lado, alguns dados chamam a atenção, que são as idades mais comuns entre as vítimas e o estado civil e o local onde a agressão acontece. A maior parte das vítimas atendidas neste ano, sendo 68% delas, tinha entre 26 e 45 anos, o que se explica, segundo a ONG, por serem mulheres em faixa etária reprodutiva e que estão no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, 62% dos atendimentos foram de mulheres que já haviam se separado dos cônjuges, mas que seguiam recebendo algum tipo de violência do ex-parceiro.

Agressões em via pública foram o segundo caso mais comum no levantamento da ONG SOS Mulher e Família, com 34% dos locais onde as agressões aconteceram, dado que, segundo a organização, mostra um tipo de banalização da violência sendo levada ao espaço público.

INTENSIFICAÇÃO
A maior parte das violências cometidas são de cunho psicológico, segundo relatos à instituição, chegando a 33% do total. As violências físicas foram 26% dos atendimentos em 2019. “Existe uma relação entre esses tipos de violência que se intensifica. A gente tem um quadro que mostra a intensificação, o chamado Violentômetro. Ele vai de piadas ofensivas e ciúmes, desqualificação a humilhação em público. Numa segunda etapa, a gente já vê intimidação, controle, destruição de bens pessoais. Na terceira etapa, que requer ajuda profissional, a gente já vê confinamento, ameaças com armas, abuso sexual, lesões corporais e morte”, explicou Cláudia Guerra.

A Lei Maria da Penha, que endureceu as punições para crimes de violência doméstica ou familiar, completou 13 anos nesta quarta-feira (7).

2018
O número de atendimentos de novos casos na ONG SOS Mulher e Família caiu quase pela metade no primeiro semestre de 2019 em comparação com igual período de 2018. O motivo foi a redução de quadros na instituição. Até junho do ano passado, a ONG recebeu 114 novos casos, contra 67 até o fim de junho deste ano. A ONG informou que há pequena subvenção e que a maior parte dos funcionários são voluntários, mas que já corre um processo de contratação de mais dois profissionais para o segundo semestre.
 
MARIA DA PENHA
Em meio às comemorações dos 13 anos da Lei Maria da Penha, que endureceu as punições para crimes de violência doméstica ou familiar, o Ministério da Justiça e mais 10 órgãos assinaram o Pacto pela Implementação de Políticas Públicas de Prevenção e Combate à Violência contra Mulheres. A ideia é ampliar a articulação do Poder Público visando a políticas que evitem esse tipo de prática.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, disse que sua expectativa é que o pacto resulte em ações concretas. “Não podemos aceitar que o ódio e a violência criem raízes na nossa sociedade”, afirmou.

Citando a escritora Clarice Lispector, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, falou sobre a luta histórica das mulheres pelos próprios direitos políticos e civis. “Liberdade é pouco. O que queremos ainda não tem nome”, disse. “Sim, liberdade é pouco. O que queremos é dignidade”, completou.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, apresentou dados de 2018, do Disque 180, segundo os quais foram contabilizadas 92 mil denúncias de violência contra a mulher. Neste ano, já houve 42 mil registros, informou a ministra.


Órgãos de apoio
SOS Mulher e Família
Rua Feliciano Morais, nº 62, bairro Aparecida
3215-7862
 
Delegacia da Mulher – Polícia Civil
Avenida Nicomedes Alves dos Santos, nº 728, bairro Lídice
(Cruzamento com avenida Rondon Pacheco)
3210-8304
 
Casa Abrigo – Icasu
3236-4040
 
Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica
99968-5878

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