22/05/2019 às 07h35min - Atualizada em 22/05/2019 às 07h35min

Quando a neutralidade não é, de fato, neutra

Alessandra Cunha traz novos questionamentos em seu retorno

ADREANA OLIVEIRA
Montagem da exposição está em fase final em duas salas da Oficina Cultural (Divulgação)
Às vezes, para um artista, a reclusão ou o mergulho dentro do ateliê é a melhor forma de deixar sua arte fluir. No último ano a artista plástica uberlandense Alessandra Cunha, também conhecida como Ropre, saiu das redes sociais e dos holofotes. “Quis me distanciar um pouco das redes sociais e colocar os pensamentos nas pinturas. Nesses momentos repensei muita coisa, principalmente a política e o que se tornou nossa vida social. Há muito que nos abala e nem sempre percebemos”, disse Ropre em entrevista ao Diário de Uberlândia na manhã desta terça-feira (21).

Nesta quinta-feira (23) o resultado desse hiato poderá ser conferido em sua nova exposição, “Setenta Neutrinos”. Trata-se de uma série de 70 telas produzidas em 70 dias. O neutrino, um dos metais mais leves presentes na natureza, está por ai, em abundância, assim como as pessoas neutras cuja neutralidade nem sempre é o que parece.

“Isso definiu muito o caminho da política nos últimos tempos. Quem não toma partido de um lado ou de outro acaba causando impactos às vezes danosos”, disse. Cada uma das 70 pinturas possui um ser humanoide estampado em seu pequeno mundo, amarrado à alguma estrutura padronizada. Cada um, neutro, em sua cor, em seu movimento, flagrado em um momento solitário. Há um jogo de labirintos e lacunas. Há formas de mapas ou blocos de construção. O que cada neutrino constrói? Ou sob qual mapa se perde? Porque permanecem neutros?

Sobre o processo de criação, Ropre disse que sempre começa mais de uma tela por vez, e só finaliza uma por uma. “Vem um fundo, um detalhe, algumas manchas, vou fazendo aos poucos várias delas até a hora de finalizar”.

A artista preparou 10 pinturas exclusivas para as primeiras dez pessoas que chegarem na abertura da exposição. “Como dizem por aí, vai te mimos”.
Sobre pintar setenta imagens padronizadas em um tema e fluxo, me lembro da agonia. Me impus um prazo, um desafio. Que terminou com o êxtase das cores, em setenta dias. E poder dispor tais cores na galeria, com a expografia escolhida, completa a necessária sensação de prazer em produzir, depois de um ano sem produção. Com setenta personagens povoando o espaço expositivo surge a oportunidade de testar algo contemporâneo no "fazer" pinturas.

Por outro lado, não temo em pensar que cada um destes personagens também representam a mim, em alguns de meus dias. Em situações ternas e quentes ou frias e confusas.

Setenta Neutrinos, setenta sentimentos, setenta momentos, setenta questões insolúveis, setenta medos, setenta distanciamentos. Tão neutro como nunca fui.

As setenta pinturas foram criadas com tinta acrílica sobre algodão cru preparado para suportar tantas investidas de tintas aguadas e sólidas. Onde criou-se uma por dia durante uma imersão obsessiva no ateliê. E poderia descrever qual foi o sentimentos e conjunto  de pensamentos formulados para cada pintura. Porém, deixarei que imaginem e criem seus próprios pensamentos sobre cada imagem e o que ela pode provocar.

SERVIÇO

O QUE: Exposição “Setenta Neutrinos”
ARTISTA: Alessandra Cunha (Roupre)
QUANDO: abertura amanhã (23), às 20h – visitação de 24 de maio a 28 de junho das 12h às 18h, de segunda a sexta-feira
LOCAL: Oficina Cultural de Uberlândia (Praça Clarimundo Carneiro, 204, Centro)
CLASSIFICAÇÃO: Livre
ENTRADA FRANCA
INF.: 3214-9889

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