27/04/2019 às 13h40min - Atualizada em 27/04/2019 às 13h40min

Desigualdade para violência aumenta entre adolescentes brasileiros, aponta estudo

Parceria entre UFU e outras três universidades alerta para urgência de políticas públicas para jovens

DA REDAÇÃO
Estudo concluiu que a desigualdade entre os adolescentes está diminuindo para comportamentos de estilo de vida enquanto aumenta para comportamentos violentos | Foto: Marco Cavalcanti
Um estudo que avaliou as tendências nos comportamentos que afetam a saúde dos adolescentes brasileiros revelou que, entre 2009 e 2015, a desigualdade socioeconômica entre eles diminuiu para comportamentos relacionados ao estilo de vida, mas aumentou no que diz respeito ao envolvimento com a violência.

A pesquisa "Avaliação e monitoramento de desigualdades em comportamentos relacionados à saúde entre adolescentes brasileiros” foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O trabalho foi realizado em colaboração por um grupo de pesquisadores de três universidades brasileiras incluind a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) — e da London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM), instituição inglesa dedicada à pesquisa e estudos em saúde pública e global.

Foram analisados 12 comportamentos prejudiciais à saúde como consumo irregular de frutas, de vegetais e de feijão, consumo regular de refrigerantes, atividade física irregular, uso de álcool, de drogas e de tabaco, sexo inseguro, envolvimento em brigas com armas, vitimização por bullying e por violência doméstica.

Com o intuito de avaliar o nível socioeconômico dos estudantes, os pesquisadores lançaram mão de um “índice de riqueza”. Para chegar a esse índice, eles avaliaram as respostas dos adolescentes para perguntas sobre a posse de bens e acesso a serviços, como telefone, computador, internet, carro, banheiro dentro de casa e empregada doméstica. Também foram observadas a escolaridade dos pais e se a escola era pública ou privada.

A análise permitiu a obtenção de um índice único a partir de todas essas variáveis, explica a docente da Faculdade de Medicina da UFU e coordenadora do estudo, Catarina Azeredo. “Esse tipo de análise é necessária pois os adolescentes, que tinham em média entre 14 e 15 anos, dificilmente saberiam responder de forma direta sobre a renda da família, seja em salários mínimos ou em reais”, observa.

No estudo, eles viram que a desigualdade entre os adolescentes está diminuindo para comportamentos de estilo de vida (como o consumo de frutas), enquanto aumenta para comportamentos violentos. Outro ponto destacado no trabalho diz respeito ao uso de bebida alcoólica, ao consumo irregular de feijão e regular de refrigerantes. Descobriu-se que a diferença entre os grupos sociais nesses itens também ficou menor. No entanto, a diminuição se dá por uma redução desses comportamentos de risco entre os adolescentes ricos e um aumento entre os pobres.

“Nossos resultados mostram não só que existe desigualdade social para todos os comportamentos avaliados, mas que, especialmente para os comportamentos violentos, essa desigualdade está aumentando ao longo do tempo, ou seja, a distância entre adolescentes mais pobres e mais ricos está aumentando, com maior prejuízo aos mais pobres”, afirma Catarina Azeredo.

 
“Além disso, observamos tendência preocupante para a alimentação, pois embora haja a redução da desigualdade, essa redução está ocorrendo porque os adolescentes mais pobres estão comendo cada vez menos feijão, que é um comportamento de proteção, porque indica uma alimentação mais tradicional, e cada vez mais refrigerante, que é considerado um fator de risco para diversas doenças, como diabetes e obesidade, por exemplo”, alerta a Azeredo.

Políticas públicas de combate à desigualdade com foco nos adolescentes das classes sociais mais desfavorecidas são recomendações dos autores da análise. Embora a avaliação de políticas de combate à desigualdade ultrapasse a finalidade do estudo, a docente cita, como exemplo, uma política pública mexicana que poderia dar resultados no Brasil: a taxação de bebidas açucaradas.

“Em países de baixa e média renda como o Brasil e o México, os recursos arrecadados a partir de impostos sobre alimentos não saudáveis poderiam servir para subsidiar alimentos mais saudáveis como frutas e hortaliças, reduzindo o preço e os tornando mais acessíveis aos mais pobres, o que também teria um efeito positivo de redução da desigualdade em comportamentos de proteção”, argumenta.
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