07/04/2019 às 09h30min - Atualizada em 07/04/2019 às 09h30min

Zaire Rezende prepara livro de memórias

Em entrevista ao Diário de Uberlândia, ex-prefeito relembra infância em Martinésia e trajetória política

VINÍCIUS LEMOS
Aos 87 anos, Zaire Rezende fala sobre os momentos da carreira política e intenções para o futuro| Foto: VINÍCIUS LEMOS
Zaire Rezende, 87 anos, tem lido e estudado, além de se dedicar à escrita. Afastado da vida pública, mas não da política, o ex-prefeito de Uberlândia por dois mandatos resume suas atividades com a frase: “Tem fase que a gente dá o sangue. Tem fase que a gente dá o cérebro”. Vereador, prefeito e deputado federal, logo ele pretende publicar um livro.

O que chama a atenção é que durante um papo de quase uma hora e meia para a série “Por onde anda?”, do jornal Diário de Uberlândia, a respeito de sua biografia e de suas atuais aspirações, Zaire disse que as lembranças da infância são as mais vivas e fáceis de serem colocadas no papel. Com a reportagem, contudo, a política foi o norte da conversa, mesmo que o assunto se desviasse.

Não era raro ver Zaire Rezende andando pelo Centro de Uberlândia anos depois de deixar a Prefeitura ou a Câmara dos Deputados. Fora da gravação da entrevista ele disse que as pernas não são mais as mesmas hoje em dia. Ele é médico por formação, especializado em ginecologia e obstetrícia. “Trouxe muita criança ao mundo”, lembra. É provável que parte dessas histórias seja contada em sua publicação, que deve demorar mais algum tempo. A gestação desse ‘filho’, segundo o próprio Rezende, ainda demora pelo menos um ano.

Certamente a infância em uma fazenda no distrito de Martinésia será retratada. Nascido em 12 de dezembro de 1931, Zaire só foi registrado no dia 25 de dezembro daquele ano. “Talvez tenha sido o dia em que meu pai pôde vir à cidade ver a família e aproveitou para fazer o registro”, disse, frisando que o aniversário é comemorado dia 12 e não no Natal. Os sete primeiros anos de vida foram exclusivamente na zona rural do Município de Uberlândia.

Fato que contrasta bastante com a mudança do então estudante secundarista para a então capital federal Rio de Janeiro, na abertura da década de 1950. Lá, ele terminou o colégio e cursou Medicina, além de fazer a especialização do curso superior.

Do interior para uma capital e depois de uma rápida passagem por Lucélia, de volta ao interior, mas do Estado de São Paulo, na década de 1960, Zaire se estabelece no litoral paulista, na cidade de São Sebastião. A passagem paulista marca o início da vida política, de fato, para Zaire Rezende. Primeiro por meio da Juventude Universitária Católica (JUC), ainda em Lucélia.

Nesse período entre o interior e o litoral, ele contou que se juntou a um grupo de profissionais de diversas áreas cuja remuneração das atividades era dividida entre eles e parte ia para um fundo do grupo. O resto era investido, entre outras coisas, em peças de teatro de arena. Os temas envolviam, principalmente, levar informação de direitos a trabalhadores rurais.

“Levou a reações dos trabalhadores e também dos donos de terras”, conta, rindo, Zaire Rezende. “Quando retomamos as atividades fomos com mais calma, mas atendemos a outros grupos de trabalhadores e com menos ímpeto, mas mais inteligência”, afirmou.
 
PRIMEIROS MANDATOS 
 
Conhecido na época em São Sebastião, Zaire lembra que foi convidado por Ademar de Barros Filho para entrar na política. “Tem uma história interessante que o convite dele a mim para disputar o cargo de vereador foi desfeito, porque pessoas do MDB, devido ao meu histórico, eu era considerado subversivo”, disse.

O que não o impediu de ser vereador na cidade paulista por dois mandatos entre 1968 e 1972. “Outra curiosidade: vereador em São Sebastião naquela época não recebia salário”, lembra Rezende. Fato que viria mudar ainda nos anos seguintes, enquanto ele era legislador, em terras paulistas.
 
FINAL DA DITADURA
De volta a Uberlândia na década de 1970, Zaire atribui sua primeira vitória na eleição para prefeito, na década seguinte, a muitas caminhadas e reuniões por bairros. Ele diz que sua filiação ao MDB local aconteceu no ano de 1976. Entre 1981 e 1982 ele diz ter feito mais de 500 reuniões em diversas localidades de Uberlândia de onde tirou ideias para seu Plano de Governo com demandas que ouvia da população. A estratégia deu certo e no ano de 1982 ele foi eleito pela primeira vez para chefiar o Poder Executivo de Uberlândia.

O mandato, a partir de 1983, se deu na abertura política brasileira, já ao final da ditadura militar. Isso fez com que seu cargo fosse mantido até 1988, graças à legislação que prorrogou por dois anos o mandato de todos os prefeitos do País. Esses anos, na lembrança de Zaire, foram de criações dentro da estrutura do Município. Ele chama o período de modernização, com a melhoria da telefonia da Prefeitura. Foi ele quem trouxe o então moderno PABX para o Município.

Os três advogados do Município ganharam uma estrutura que hoje é conhecida como Procuradoria Geral do Município. Ainda em sua gestão foram criadas as secretarias de Cultura, Saúde, Comunicação, Meio Ambiente, Agricultura e a já extinta secretaria de Trabalho (hoje anexada à pasta de Desenvolvimento Social).

Talvez pela lembrança da infância em Martinésia, durante a entrevista Zaire Rezende destacou com maior entusiasmo a instituição da chamada Administração dos Distritos em seu mandato. “Era para criar a estrutura de bairro nos distritos, inclusive com transporte rural até em casa (para alunos), escola e posto de saúde”, afirmou.

Entre as lembranças políticas, Rezende destaca um churrasco com quase duas dezenas de cabeças de gado que foram oferecidas por produtores da região dos distritos de Martinésia e Cruzeiro dos Peixotos para comemorar a construção e entrega da rodovia municipal Neuza Rezende. A festa aberta à população durou todo um fim de semana. Afago político ou não, o fato é que o nome da rodovia, aprovado pela Câmara Municipal, foi uma homenagem à falecida ex-esposa de Zaire Rezende.
 
Falta de base política e ameaça de morte
 
Eleito deputado federal por três vezes, Zaire Rezende esteve no Congresso Nacional entre os anos de 1991 e 1999, quando deixou o Legislativo em Brasília e voltou para concorrer novamente como prefeito de Uberlândia. Venceu, mas o período que se seguiu entre janeiro de 2001 e dezembro de 2004, ele considera de grande dificuldade.

“No primeiro mandato tinha sete vereadores do MDB na Câmara e secretaria homogênea. No segundo mandato, tinha menos vereadores na base e secretariado de outros partidos. Tive coligações e outros partidos entre os secretários. Perdi governabilidade. Passei também por uma oposição perversa”, lamentou. Talvez por isso, seu segundo mandato ainda hoje é visto com ressalvas no meio político.

Foi nessa época que aconteceu um fato do qual ele não gosta muito de comentar. Zaire sofreu, por telefone, uma ameaça de morte que até hoje o deixa reticente. “Minha filha atendeu ao telefone e foi falado uma série de ameaças. Dali pra frente me senti acuado, andava com seguranças, e reuniões que poderia fazer com a população me deixaram com medo. Não sabia o que podia acontecer”, diz. Perguntado sobre detalhes do que se seguiu a partir dali, ele preferiu não comentar.
 
HOJE EM DIA
 
Quem acompanha o cenário político sabe que Zaire Rezende está intimamente ligado com os rumos do MDB local, ainda que não mais concorrente a cargos eletivos desde que perdeu a eleição como vice-governador na chapa de Nilmário Miranda (PT), em 2006, para Aécio Neves (PSDB).

Ele também é formado em Filosofia e mais ao final dos quase 90 minutos de entrevista, Rezende disse que também tem estudado Sociologia enquanto escreve. Partidário de ideias mais progressistas – ele citou vários momentos da democratização desde 1988 -, não será nenhuma surpresa uma análise crítica aos tempos atuais no possível livro a ser lançado pelo ex-prefeito. A aguardar.

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