07/04/2019 às 08h00min - Atualizada em 07/04/2019 às 08h00min

Profissionais refletem sobre os desafios do jornalismo em plena era da fake news

Diário de Uberlândia entrevistou veteranos e iniciantes da área sobre os novos rumos da profissão

VINÍCIUS LEMOS
Maurício Ricardo resistiu, mas acabou por aderir ao YouTube para publicar suas críticas | Foto: Divulgação
“[O jornalismo atual] Acho melhor do que o de outrora. Estamos enfrentando uma concorrência mais numerosa, mais ampla, mais pulverizada, as pessoas estão cada vez mais se tornando jornalistas. Eu acho que as fontes mais testemunham do que veem notícia”.

A citação é do jornalista Ricardo Boechat, ainda em 2013, quando concedia uma entrevista exclusiva ao site Na Telinha. O país perdeu Boechat em fevereiro deste ano, morte que fez o jornalismo brasileiro perder parte de sua voz. Mas o que mais o jornalismo tem perdido? Talvez, credibilidade. A força em meio às redes sociais e smartphones, quem sabe? O monopólio da informação diária, com certeza. É preciso criticar e ser criticado nesta reflexão de 7 de abril, data em que se celebra o Dia do Jornalista. Ambos os processos, contudo, não podem ser vazios, com crítica pela crítica, e é isso que o Diário buscou entender com colegas de profissão.

No ano de 1949, Alberto de Oliveira foi contratado pelo extinto jornal Correio de Uberlândia, ainda como office boy. Poucos anos depois, ele conta, do hábito de acompanhar as revisões do impresso, passou a colunista e depois repórter. Cerca de três décadas depois, em 1982, Neivaldo Silva, o Magoo, começou sua carreira na rádio Visão AM. Lá ele teve acesso ao que chama de “mundo que passava por um radinho de pilha”. A citação é tirada da infância do jornalista, quando ficava esperto ao lado do pai ouvindo o rádio. Mais do que uma profissão, o que eles tinham nas mãos eram meios de reverberar informações em grande escala, o que vinha com grandes responsabilidades. Os dois jornalistas sabiam disso e provocam os futuros colegas de profissão.

“Melhoraram as estruturas [desde os anos 80]. Quando eu fazia jornal, eu dormia de madrugada porque gravava as notícias nacionais que iria apresentar às 7h com as notícias locais. Isso mudou com a chegada da internet, no fim da década de 90. Nos anos 80, não tinha faculdade de jornalismo e surgiram várias depois, que trouxeram fornadas de jornalistas e muitos não têm como confrontar a academia com a prática. Há jornalistas em cada esquina e na internet, tanto para o bom, quanto para o mau jornalismo”, disse Magoo.

Com seis décadas de jornalismo, Alberto de Oliveira é mais direto na crítica. “É preciso ser mais incisivo, cutucar mais na reportagem”, disse.


Alberto de Oliveira começou carreira em 1949: “é preciso ser incisivo”. | Foto: Vinícius Lemos

Ir além das gravações em telefones celulares. Ir além do fato presenciado por uma pessoa ou uma pequena aglomeração e replicado rapidamente em redes sociais. É disso que falam Magoo e Oliveira. E com isso concorda outro veterano, Maurício Ricardo, que foi chargista e editor também no Correio de Uberlândia, e que mantém um dos sites de charge mais famosos do País há quase 20 anos e, mais recentemente, comenta política e outros assuntos no próprio canal do YouTube.

“O jornalístico factual tende a perder peso e o jornalismo vai ser analítico. O jornal que apenas noticia o fato tende a perder peso. Aquela velha máxima do lead, do onde, como, quando e por que, isso as redes sociais vão se encarregar com muita facilidade”, resumiu. Mas ele vai além, já que a responsabilidade que se exige da imprensa não é a mesma das redes sociais. “[Nas redes] Vai haver ainda muita destruição de reputação e você vai ver gente sendo exposta. Isso, na boa imprensa, não aconteceria, porque é preciso checar [antes de ser publicado].”

MUDANÇAS
Estudante de Jornalismo, Melissa Ribeiro, aos 25 anos, não consegue mensurar a abrangência das mídias sociais no curto prazo desde que ingressou na graduação. O que chama a atenção é a luz que ela resolveu jogar em seus estudos: o velho jornal impresso e sua relação com a notícia online. “Quando eu comecei a estudar já tínhamos mídias digitais, mas aumentou muito de lá para cá. Na minha pesquisa de conclusão de curso, vou investigar o jornalismo impresso. Ele migrou para o digital e teve que mudar a linguagem”, afirmou.

Se por décadas o repórter tinha o poder do microfone e o veículo para o qual ele trabalhava ditava a hora em que a notícia era consumida, atualmente, a internet mudou esse panorama. O que era lido em texto, agora é visto em vídeo graças ao aumento da velocidade da internet e o grande negócio do momento: streaming. “Eu acredito ter escolhido o modo de consumir notícias. As pessoas estão mais independentes. Não preciso ver o jornal às 20h30, mas posso assistir depois em uma plataforma de streaming”, lembrou a universitária Melissa Ribeiro.


Estudante de Jornalismo, Melissa Ribeiro vê certa hostilidade com a classe. | Foto: Vinícius Lemos

Canais de YouTube, hoje, têm mais influência em jovens do que qualquer programa da TV aberta. Os programas de rádio estão ao vivo na internet, transformando ouvintes em telespectadores, e ficam disponíveis a qualquer momento por meio de podcasts ou mesmo no próprio YouTube. “A internet via celular trouxe capilarização e esvaziou nosso papel de filtro do mundo para as pessoas terem conhecimento do que estava acontecendo. No futuro, 65% das profissões vão desaparecer, mas não acho que a nossa profissão vai acabar. [De início] Eu mesmo resisti [aos novos tempos], mas falei: não tem como; porque aquilo que comunicava com uma charge, com apoio de uma notícia, percebi que muitas vezes caía no vazio”, explicou Maurício Ricardo, sobre o porquê migrou seus comentários mais aprofundados para o YouTube.

O sucesso do audiovisual em Uberlândia em detrimento do jornalismo impresso ou mesmo online é explicado por alguns fatores pelos próprios jornalistas. “Tenho que louvar a persistência de jornais como o Diário [único impresso de circulação diária em Uberlândia]. O uberlandense não teve hábito de ler, não se pode vender jornal na esquina, com proibição da figura do gazeteiro, sendo assim é natural que o impresso vá diminuindo e o jornalismo migre para internet, basicamente”, disse Magoo.
 
Fake News e hostilidade geram desafios
Ética e compromisso com a verdade nunca foram algo tão importante, com a pulverização da informação. “Antigamente, a gente fazia as reportagens por telefone. Conversávamos com as fontes assim e tínhamos confiança”, afirmou o jornalista Alberto de Oliveira. Em mais de meio século de jornalismo, em Uberlândia as coisas não mudaram tanto, mas saiu o telefone e entrou o smartphone. Saiu a credibilidade que se tinha na figura de um repórter e chegou-se à era em que as informações pipocam em aplicativos de mensagens. Daí, até as famosas fake news é um passo. Junte isso ao ataque direto sofrido pela imprensa por meio de rede sociais e temos um ambiente que se mostra hostil para o jornalista.

“Sobre as fake news, a velocidade da informação é muito grande. Com essa disseminação tão rápida, é difícil ir à fonte para saber se era mentira. Não se tem senso crítico com essa velocidade. A nossa esperança é que vai mudar. A própria pluralidade dos meios de comunicação permite a contestação. O que tem acontecido é que isso não tem sido feito com responsabilidade. A gente vive um contexto político que não nos deixa confortáveis”, disse a universitária Melissa Ribeiro.

Tema abordado em vários de seus comentários em vídeo, essa perda de credibilidade da imprensa brasileira passa pela falta de visão do jornalismo e também pela contestação como armadilha política, usada por parte de influenciadores digitais, para arrebanhar seguidores.

“É uma visão bem particular minha. Como é uma guerra, não se pode cair na armadilha. A [jornalista da Globo News] Eliane Cantanhêde anunciou a queda do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues. Com certeza foi um trabalho jornalístico e de fonte. Mas ainda que o presidente Bolsonaro tivesse decidido isso, ele permanece com o ministro e desacredita a notícia. A imprensa tem que ser crítica ao governo, mas tem que entender que aquele modelo de furos não funciona [mais]. O contra-ataque deve ser de jornalismo investigativo, ao mesmo tempo que você não pode ter sangue nos olhos. Isso vai te levar para apuração malfeita e notícias incompletas, como já vimos por aí”, disse Maurício Ricardo.
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