17/03/2019 às 10h00min - Atualizada em 17/03/2019 às 15h28min

2019 já tem maior incidência de dengue em Uberlândia e região

Desde o início do ano, já foram mais de 7,6 mil casos suspeitos, dois quais 5,6 mil em uberlândia

MARIELY DALMÔNICA
Foram 7.676 registros até agora, o que representa o maior índice da doença na área de abrangência da regional | Foto: Ministério da Saúde/Divulgação
A Secretaria de Estado de Saúde divulgou no início da última semana que Uberlândia já tem 5.642 casos suspeitos de dengue só em 2019. De acordo com dados da Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Uberlândia, o número de registros deste ano superou o de outros anos de epidemias. Em 2010, 1.391 casos suspeitos foram notificados nos 18 municípios da região nas nove primeiras semanas do ano. Em 2013, foram 2.558; em 2016, 5.499; e em 2019, 7.676 foram registrados, o que representa o maior índice de incidência da doença até o momento na área de abrangência da regional.

Além de Uberlândia, Romaria, Prata, Douradoquara e Prata são os municípios com situação de incidência muito alta. Uberlândia foi a única cidade da região que teve um óbito registrado. Mais de 44 mil casos suspeitos foram registrados em Minas Gerais desde o começo do ano, segundo o boletim epidemiológico. Este número de casos já superou o total registrado durante 2018, que foi de 30.022.

Segundo Fernando Rodrigues, referência regional em endemia na SRS, o aumento de casos em 2019 é significativo, principalmente se for comparado a anos epidêmicos, como 2016.  “Acredito que tem relação ao novo sorotipo, porque já temos a confirmação do vírus tipo 2”, disse.

De acordo com Rodrigues, a Superintendência tem recebido apoio dos profissionais de saúde do município e continua mantendo a rotina de ações, que inclui atividades como orientações com relação a melhoria de prestação de serviço e fornecimento de insumos para o município. “Embora tenha um protocolo, o município tem autonomia administrativa e avalia aquilo que melhor lhe compete”, afirmou. 
 
POPULAÇÃO
 
Depois de visitar as Unidades de Atendimento Integrado (UAIs) dos bairros Tibery e Roosevelt no início da última semana, a redação do Diário de Uberlândia foi até a unidade do bairro Planalto na quarta-feira (13) e ouviu alguns cidadãos com suspeita de dengue que aguardavam atendimento.

A dona de casa Auriza Diniz, que estava acompanhada da filha Audicleia Diniz, aguardava a triagem sentada no chão da UAI devido a lotação de pacientes. Auriza estava com sintomas da doença há uma semana, mas decidiu ir ao médico apenas na quarta-feira. “Estou com dores no corpo, dor na cabeça e até na região do ouvido”, disse.


Diário de Uberlândia foi até UAI conversar com pacientes | Foto: Mariely Dalmônica 

A enfermeira Carolina Almeida é mãe do Pedro, de um ano, e estava levando o filho pela segunda vez à UAI depois de uma consulta em um hospital particular. Segundo a mãe, o médico da unidade afirmou que o filho estava apenas com um sintoma, a febre, e era necessário que ela retornasse caso piorasse. “Me disseram que um sintoma é pouco e não o medicaram. Na segunda-feira (11) tinha mais de 30 crianças esperando atendimento, estava lotado”, afirmou Carolina.

Ester Rodrigues é cabeleireira e saiu do bairro em que mora, Shopping Park, antes das 6 horas para ser atendida na unidade do bairro Planalto.

 
“Fiz a triagem, colheram meu exame pela manhã e agora estou esperando a consulta, a quase 7 horas”, disse. A cabeleireira que estava com diferentes sintomas da doença, afirmou que não foi bem atendida quando chegou ao local. “Você fala que está com suspeita, as moças riem e falam que é melhor voltar para casa, porque está muito lotado. Mas e se eu for embora e passar mal na rua?”

A dona de casa Andressa Fávero, e a filha dela, Micaele Ferreira de 1 ano e 3 meses, também estão com sintomas da doença. “Estou com dengue pela terceira vez, mas nem quis consultar, minha filha é mais importante.” Segundo a mãe, Micaele está com febre e vomitando há duas semanas, e quase todos os dias ela está levando a filha na UAI para exames. “Ainda não disseram se ela está com dengue, mas ela não melhora”, afirmou Andressa.

Segundo Clauber Lourenço, assessor técnico da Secretaria de Saúde, as UAIs estão lotadas porque os cidadãos que apresentam sintomas de dengue estão deixando de ir às Unidades Básicas de Saúde (UBS) e às Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSF). “Temos que orientar a população. Tem tido pouquíssimos casos nesses locais, e eles também têm condição de fazer diagnóstico. Os casos mais graves serão encaminhados para a UAI para fazer hidratação.”
 
ATENDIMENTO
Para a conselheira de saúde Tânia Lúcia dos Santos (que foi presidente do Conselho Municipal de Saúde até abril de 2018), no início de abril o Município não obedeceu às recomendações do órgão. Em 2017, o órgão recomendou a contratação de 121 novos agentes da Zoonoses antes da epidemia, além de outras ações para minimizar os índices da doença. De acordo com Tânia, o Plano de Contingência de Dengue que deveria ser protocolado pelo Município até outubro daquele ano só foi deliberado em fevereiro do ano seguinte. “A gente sabe que o grande pico da dengue vem no frio. O conselho foi atrás e cobrou. O município não deveria deixar chegar à situação que está hoje”, disse.

Ainda de acordo com a conselheira, a falta de profissionais nas unidades de saúde também é um problema. “Vejo uma falta de retaguarda humana nos atendimentos da UAI, falta médico, falta enfermeira e não tem maca. A parte da triagem também está deixando desejar”, afirmou.

Tânia ainda disse que a falta de leito e o déficit de ambulâncias são fatores graves quando o paciente precisa ser transferido. Além disso, ela apontou que a rede não está preparada para atender, por exemplo, pacientes com dengue hemorrágica que ficam aguardando para passar pela triagem.

“De fato, não estamos preparados para o atendimento das epidemias. Em fevereiro foi presenciado um paciente aguardando triagem na recepção da UAI Martins, mesmo estando com todas evidências de dengue hemorrágica, devido sangramento boca e ouvido, comentou a conselheira.

Em 28 de fevereiro, mesmo dia em que uma morte pela doença foi confirmada em Uberlândia, o Ministério Público Estadual instaurou um inquérito para apurar os casos de dengue da cidade e para descobrir se não houve omissão do Município e do Estado.
“Só requisitei informações, por enquanto. Estou aguardando as respostas do secretário municipal de Saúde e do secretário de Estado, para depois tomar outra postura”, afirmou o promotor de Justiça de Defesa do Consumidor Fernando Martins.

Segundo o promotor de Justiça de Defesa da Saúde Lúcio Flávio Faria, o alto número de casos de dengue está impactando o atendimento de toda a rede de saúde. “Vivemos uma crise. Tem dia que não tem nenhuma vaga, nem na rede pública, nem particular. A carência de leitos é diária, a comunidade tem que ajudar a combater, até porque não tem como criar leitos de uma hora para outra.”

De acordo com o promotor, o Município está fazendo o que pode, mas como a cidade é grande, é impossível fiscalizar todos os imóveis. “O grande problema são as calhas. Hoje precisaríamos de uns 300 veículos [fumacê]. Acho que é uma falta de responsabilidade coletiva. O problema é que o morador faz seu trabalho e se o vizinho não fizer, é improdutivo”, afirmou Faria.
 
Prefeitura diz que não foi notificada pelo MPE
Em nota enviada à redação na tarde da última sexta (15), a Prefeitura de Uberlândia informou que não foi notificada até o momento do inquérito do Ministério Público Estadual. Reforça ainda que, por meio do Programa de Controle da Dengue, trabalha diariamente para combater o mosquito Aedes Aegypti no município. “Desde 2017, são realizadas permanentemente várias ações, como: bloqueio dos casos suspeitos, visitas em imóveis (inclusive os fechados, para venda ou aluguel), retiradas de pneus nos imóveis e em borracharias.”

A nota diz ainda que recentemente o Município implementou o uso de drones para monitorar locais de difícil acesso e realizou a compra de cinco termonebulizadores (um tipo de pulverizador) para ajudar no combate ao mosquito (medida adotada somente após decretação da epidemia, conforme preconiza o Ministério da Saúde).
 
 
CCZ chama mais 32 profissionais e recebe 4 novos fumacês
De acordo com o coordenador do Centro de Controle de Zoonoses de Uberlândia, José Humberto Arruda, 32 novos agentes foram aprovados em um processo seletivo e estão em treinamento para atuar nas ruas a partir desta semana. Número de contratações pode chegar a 100. Quatro novos veículos fumacê também entrariam em funcionamento ainda neste fim de semana.

O processo seletivo já estava em andamento antes do Município anunciar que estava em situação de epidemia, segundo o coordenador. Alguns aprovados foram chamados na última semana, 10 novos agentes começaram a qualificação na quarta-feira (14) e 10 iniciaram o processo de contratação na quinta-feira (15).A Prefeitura também está utilizando drones para monitorar os imóveis. De acordo com Arruda, o Guarani e o Luizote foram os primeiros bairros a serem visitados.

“Visitamos alguns quarteirões e nos surpreendeu a quantidade de piscinas e pneus sem uso. Os agentes já vão chegar na casa do morador com a informação. Se for uma casa na imobiliária, pegamos a chave. Se for um imóvel abandonado, passamos a monitorar”, disse.

O CCZ também está utilizando peixes para controlar os focos da dengue. Segundo Arruda, a atividade é efetiva e menos agressiva. “O peixe é uma atividade antiga, desde 2006 usamos. Mesmo que não tenha larva, eles conseguem se manter. No caso de piscinas, se o morador não está usando, a gente oferece para colocar os peixes”, afirmou.

 

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