09/02/2019 às 15h03min - Atualizada em 09/02/2019 às 15h03min

Espécie de vespa é descoberta na cidade

Inseto foi encontrado em uma reserva do Caça e Pesca, demarcada para estudos científicos da UFU

DA REDAÇÃO

Bruno de Sousa Lopes estudava uma lagarta em 2013, quando descobriu a nova espécie | Foto: Divulgação
Pesquisadores anunciaram recentemente a descoberta de uma nova espécie de vespa em área localizada no Clube Caça e Pesca Itororó, em Uberlândia (MG). O inseto, batizado de Cotesia itororensis, possui dois milímetros de comprimento, destaca-se pela coloração enegrecida do corpo, pernas amarelas cor de mel e um pequeno ferrão. A descoberta foi publicada na edição do dia 14 de janeiro da revista científica neozelandesa Zootaxa, um dos periódicos mais conceituados do mundo na descrição de animais, o que ratifica o achado e coloca o nome de Uberlândia no mapa mundial da Biologia.

O estudo que resultou na descrição dessa nova espécie de vespa envolveu o trabalho de quatro pesquisadores e começou há cerca de cinco anos, durante a iniciação científica do aluno da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Bruno de Sousa Lopes, um dos envolvidos e, hoje, doutorando da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeiro Preto. Bruno foi o primeiro a ter contato com o inseto que em 2014 eclodiu de uma lagarta que estava sendo estudada por ele desde 2013, após ser capturada em área reservada para pesquisa dentro do Caça e Pesca. Após três anos de estudos, em 2017, deu-se início ao processo de descrição da Cotesia itororensis. A pesquisa foi orientada pelo professor do Instituto de Biologia da UFU e orientador do Programa de Pós-Graduação em Entomologia da USP, Kleber Del Claro. Teve ainda o acompanhamento do doutorando em Agronomia pela Universidade de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, Geraldo de Salgado Neto e do professor da Universidade de Ilinóis (EUA), James Bryan Whitifield, uma das maiores sumidades americanas na identificação de espécies de vespas parasitoides. 

O nome itororensis foi dado em homenagem ao Caça e Pesca, onde a vespa foi encontrada na reserva de patrimônio particular que o clube mantém, dentro de um espaço cedido à UFU para realização de pesquisas científicas. O nome também homenageia o tupi-guarani, linguagem de origem da palavra, que significa bica d’água ou nascente d’água. É justamente próximo a nascentes existentes dentro do clube que a planta conhecida como dormideira gigante ou pompom (Mimosa setosa) é encontrada. Nesta planta, as lagartas da mariposa Oospila pallidaria se alimentam de suas folhas, flores e frutos. São essas lagartas que servem como hospedeiras da vespa descrita, ou seja, ela usa o corpo da lagarta como abrigo e alimento até se tornarem maduras e, posteriormente, se transformarem na vespa Cotesia itororensis.

Para o presidente do Caça e Pesca, Reginaldo Eduardo Ferreira, a descoberta dessa nova espécie de animal evidencia os esforços feitos para manutenção e conservação do ambiente natural dentro da área do clube. “Não medimos esforços para preservação das nossas nascentes e da nossa mata, que se constituem em um dos nossos maiores patrimônios e é o que nos diferencia dos demais clubes de Uberlândia e região”, afirma. 

 
Essa atenção do Caça e Pesca em relação à preservação do meio ambiente, procurando mantê-lo dentro da maior naturalidade possível, segundo o pesquisador Bruno Lopes, é o que contribuiu para sobrevivência de animais e espécies da fauna e flora e até na descoberta de novas espécies de animais, até então desconhecidos no meio científico, com é o caso da Cotesia itororensis. Antes da descrição da itororensis, há cerca de dois, foi catalogada no meio científico uma nova espécie de libélula, a Erythrodiplax ana, igualmente descoberta na mesma área de pesquisa usada pela UFU dentro do Caça de Pesca.

CERRADO

Biodiversidade ameaçada e desconhecida


Para o professor e orientador Kleber Del Claro, a descoberta amplia o conhecimento sobre a biodiversidade do Cerrado, que embora esteja sendo bastante degradado, ainda pode conter muitas espécies desconhecidas em áreas preservadas. “Além disso, o conhecimento dessas espécies nos dá bases para estudos teóricos de biologia (interações hospedeiro-parasitoide) e sua aplicabilidade, como, por exemplo, na agricultura. O nosso desafio, portanto, é preservar o Cerrado para conhecermos as espécies antes que elas sejam extintas”, explica.

Inicialmente, durante a sua iniciação científica (IC) e mestrado, Bruno Lopes começou a estudar as lagartas da mariposa Oospila pallidaria para relatar a história de vida do animal. Ele coletava lagartas no Caça e Pesca e as levava para o Laboratório de Ecologia Comportamental e de Interações (LECI) no Instituto de Biologia da UFU. Foi, então, que o pesquisador percebeu que algumas lagartas morriam e de dentro de seus corpos saíam as vespas. Ao longo da pesquisa Bruno descobriu que as fêmeas da vespa usam seus ferrões para depositarem seus ovos dentro das lagartas, que são o alimento da vespa em seu estágio imaturo (larvas). As larvas da vespa se alimentam das lagartas internamente, levando-as à morte quando, então, saem dos seus corpos, constroem seus casulos e, aproximadamente três dias depois, uma nova vespa adulta emerge e sai voando. Daí o ciclo começa novamente.

Segundo Bruno Lopes, até o momento, há apenas o registro da vespa para o município de Uberlândia. Contudo, outras espécies do mesmo gênero são encontradas no Brasil. Por exemplo, a Cotesia flavipes que é uma vespa bastante utilizada como agente de controle biológico de espécies de lagartas causadoras das brocas da cana-de-açúcar em diferentes partes do país.

Atualmente, cerca de 25 estudantes da UFU, entre doutorandos, mestrandos e iniciantes científicos, participam de pesquisas na área de estudos destinada à universidade pelo Clube Caça e Pesca Itororó.

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