03/02/2019 às 08h29min - Atualizada em 03/02/2019 às 08h29min

Uma visita ao mundo de Maciej Babinski

Artista plástico polonês tem uma história rica com Uberlândia e ganha documentário dirigido pelo filho

ADREANA OLIVEIRA

Foto: Divulgação
Ao som do pianista Fats Waller (1904-1943) surgem as primeiras imagens do artista plástico Maciej Babinski na tela. As mãos acompanham trechos das notas, o olhar contempla o espaço e algumas telas espalhadas pelo ambiente. Começa o documentário “Babinski”, dirigido por um dos filhos do artista, Daniel Babinski, com roteiro dele e de Maciej. “Ele me falou que não queria nada com som de violino, como geralmente são os documentários de artistas”, disse o diretor.

Nascido na Polônia, radicado no Brasil, Maciej Babinski completará, em abril, 88 anos de idade. Há mais de 40 anos o artista morou em Araguari e Uberlândia, onde lecionou na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e fez muitos amigos.

“Agora que meu filho Marcelo voltou a morar ai tenho me lembrado bastante das pessoas que conheci nesta época. Tenho todo tipo de recordação positiva desta cidade e sou muito grato por tudo que ela me proporcionou. Lembro de Dr. Celso Queiroz, dona Martha Pannunzio, da Valéria Uchoa. Aliás, no final do ano passado estava remexendo em umas caixas e encontrei um desenho que fiz dela, ainda bem nova”, disse Maciej, durante entrevista ao jornal Diário de Uberlândia.

Hoje, estabelecido no Ceará, Maciej lembra que a mudança para Uberlândia foi uma obra do acaso. Ele residia em Araguari e a queda de uma ponte inviabilizou as idas e vindas para trabalhar em Uberlândia. “As paisagens entre as duas cidades são parte de minhas melhores memórias. Eu saia de motocicleta por ai, contemplava o que depois transformava em quadros. Posso dizer que foram mundos diferentes que conheci em Araguari e Uberlândia, mas o que mais me marcou foram as pessoas desses lugares”, comentou o artista.

Quando diminuiu as viagens de moto e se estabeleceu em Uberlândia passou a viver em um outro mundo. Começou a pintar mais e conviver com o público universitário. “Nesta época passava muito tempo no ateliê. Fiquei conhecido pelos retratos, mas logo mudei para paisagens. Para mim todo tipo de mudança é positivo, só não muda o que ou quem está morto”.
O campus da universidade era propício para se exercitar a criatividade. Não só com alunos e colegas professores, mas com todos os funcionários do espaço com quem Maciej interagia. “Meu método de trabalho não era nada convencional e naquela época, toda aula extra que aparecia passavam pra mim. Até aula de modelo gostei de fazer porque não era só isso. Durante uma aula fazia minhas intervenções quando achava que precisava e se eu falava algo com um aluno todos os outros paravam para ouvir, por isso acho que se lembram de mim até hoje. Apesar de estar em um ambiente teoricamente controlado, nada nem ninguém me controlava, sempre tive muita liberdade para ensinar e criar”, explicou.
 
O OLHAR DO FILHO
 
“Babinski” contou com uma semana de captação e seis meses para edição. Desde o lançamento, já foi selecionado para três festivais internacionais, o mais recente em Mumbai, na Índia. Para Daniel Babinski, o mais importante neste trabalho foi não mostrar tanto os quadros, mas sim fazer um breve recorte de Maciej Babinski na atualidade. “Fiz uma conexão entre os quadros e o cotidiano dele, que queria algo leve e acessível pra qualquer pessoa e foi tudo feito com calma e muito carinho”, contou o diretor e filho do artista.

Para o espectador, que conhece o trabalho de Maciej, o olhar do filho traz um recorte intimista e sincero. E o que mais ele destacaria no pai? “O humor sempre pertinente e a vitalidade em todos os sentidos. Ele não estacionou no tempo em relação à sua obra, não se ‘copiou’. A pior coisa pra um artista, seja qual for o tipo, é copiar a si próprio”, disse Daniel. Para ele, ter Maciej como pai também é paradoxo. “O pai artista é ausente e presente ao mesmo tempo. Ele é fantástico como artista, e como pai, nada convencional. Somos amigos e temos um lindo relacionamento. Às vezes rimos juntos como dois adolescentes, falamos sobre ovnis, política, mulheres, o Brasil. O que ele fala pra mim é sempre atual e verdadeiro e eu o amo muito”, disse o filho.

Daniel espera que em breve consiga um espaço para exibir o documentário em Uberlândia. “No momento não podemos disponibilizá-lo na internet, por exemplo, porque ainda estamos participando de muitos festivais que têm como pré-requisito o ineditismo da obra, mas quero muito exibi-lo em Uberlândia o mais breve possível e busco apoio para concretizar esse plano”.
 
FAMÍLIA
 
Maciej Antoni Babinski nasceu na Polônia, há 87 anos. Mudou-se para o Brasil ainda jovem. Tem dois filhos, o fotógrafo Daniel e o barista Marcelo Babinski, do casamento com dona Hilda (in memoriam) e outras duas filhas mais velhas do primeiro casamento, uma já falecida. Desde meados dos anos 90 reside em um sítio em Várzea Alegre (CE), com a esposa Lídia.

Entre suas andanças pelo Brasil, passou por São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, além de Minas Gerais, terra de onde tem saudades e belas lembranças, mas não deve visitar mais. “Vou fazer 88 anos em abril, já não consigo mais viajar essa distância. Se quiserem me visitar fiquem à vontade”, comentou ele com a reportagem do Diário. No documentário ele chega a comentar o passar do tempo e reclama que o corpo não acompanha a mente tão produtiva.

Segundo Maciej foi o artista plástico Edmar de Almeida e sua própria paixão pelo Triângulo que fizeram com que ele se mudasse para a região. “Nunca vi alguém tão apaixonado por esse lugar, isso me contagiou”, conta ele. “O Daniel nasceu em Araguari, o Marcelo foi registrado em Estrela do Sul, por isso o Triângulo é profundo em mim”.
 
O ARTISTA
 
Ao saber como seu nome  é lembrado em Uberlândia, por meio de outros artistas, colegas e discípulos que o têm como mestre, Maciej afirma sentir gratidão. “Eu sempre me considerei um artista e dou muito valor à liberdade que me foi dada. Mas tudo que faço está diretamente ligado às pessoas e à vida que é tão imprevisível. Nós não controlamos nada. Temos o passado e o presente. O futuro não existe. O artista geralmente vive de muito trabalho e pouco dinheiro, mas isso não é um problema quando se é mestre de si mesmo, não mestre de qualquer outra pessoa”, explicou.

As motocicletas ficaram para trás. No documentário Maciej aparece dirigindo um fusca bem conservado em uma estrada de terra próxima ao sítio onde mora, mas conta um segredo à reportagem. “Aquele Fusca é uma ilusão da liberdade sonhada e não alcançada. Ele fica mais na garagem porque quando ligo não dá partida, a bateria descarrega, precisa de manutenção que não está ao alcance, é meio que uma metáfora de mim mesmo às vezes”, brinca.

Maciej aparece contemplando algumas telas, inclusive modifica uma. “É a primeira vez que tenho uma parede deste tamanho para deixar os quadros para olhar. Às vezes eles já viajaram, passaram por vários lugares e quando voltam ainda vejo que tem algo a fazer, tem algo que não está certo. Com o tempo também foi mudando o meu jeito de encarar o trabalho artístico”, disse Maciej Babinski, um mestre de si mesmo e um ícone da arte mundial.