18/01/2019 às 09h35min - Atualizada em 18/01/2019 às 09h35min

Mais que um simples tombo

Sequelas de queda de idosos aumentam em 20% a chance de mortalidade, segundo SUS

FERNANDA PARANHOS
Ana Melo acompanhada do fisioterapeuta Hugo Rodrigues | Foto: Divulgação
Foi há 5 anos, quando estava saindo do apartamento em que morava, que dona Ana Melo sofreu uma queda. A luz do corredor, que deveria acender automaticamente, continuou desligada e, no escuro, ao procurar o interruptor, ela se desequilibrou. A queda trouxe uma consequência comum para pessoas acima de 65 anos: a fratura do fêmur. O maior osso do corpo humano é o mais sensível à queda em idosos. O que aconteceu com Ana, naquela época com 76 anos, faz parte da estimativa alarmante de que após atingir a terceira idade a chance de queda das pessoas aumenta em 50%. Além disso, as sequelas das quedas e da fratura de fêmur são responsáveis pela morte de 20% desses idosos.

Os dados são do Sistema Único de Saúde (SUS) e fazem parte da rotina da geriatra Lorene Rodrigues, que coleciona casos de assistência a homens e mulheres com idade avançada e que caem corriqueiramente. Segundo a médica, 60% dos acidentes acontecem em casa e poderiam ser evitados. A falta de estrutura adequada do ambiente em que vive o idoso é um dos fatores determinantes para a causa das quedas, mas nem sempre o idoso e a família têm consciência disso.
Com Lourdes Battaglione, de 82 anos, foi assim. Prevenção à queda nunca passou pela cabeça dela. A aposentada vive sozinha na cidade de Araguari. Na casa onde mora, desde a adolescência, há um degrau entre a sala e a cozinha e isso nunca foi problema até novembro do ano passando, quando esse mesmo obstáculo causou uma queda. Saldo positivo, em partes: dona Lourdes não quebrou nenhum osso, mas teve os antebraços ralados e o pé esquerdo torcido.

Enquanto contava à reportagem sobre o episódio acabou se lembrando que, na semana passada, perdeu o equilíbrio ao se levantar do sofá. “Caí sentada no chão”, relata em meio a risadas e completa dizendo que nem liga para isso. “Já passou e eu já vou à missa todos os dias bem cedo, andando”, diz Lourdes.
Orientação é o que não falta aos usuários das Unidades Básicas de Saúde de Uberlândia. Ao serem atendidos numa UBS ou UBSF da cidade os idosos são orientados sobre a necessidade vital de utilizar dispositivos de auxílio à marcha, como bengalas, muletas e andadores, instalação de pisos ou faixas antiderrapantes, sobretudo em salas e banheiros, corrimões e barras e até mesmo a organização do ambiente comum ao idoso, como o quarto, onde utensílios de uso pessoal devem estar sempre em fácil acesso. “Além dos fatores extrínsecos, é importante o acompanhamento regular da saúde do idoso e a busca por atividades físicas prescritas, como por exemplo, terapia ocupacional”, complementa a médica Lorene Rodrigues.

A atenção primária faz parte do programa “Cidade Amiga do Idoso”, da Secretaria Municipal de Saúde. O objetivo é melhorar a saúde da pessoa para que problemas comuns da terceira idade possam ser tratados e acompanhados, e a prevenção às quedas fazem parte do protocolo a ser seguido pelos profissionais da área. Problemas de visão - como catarata -, diabetes, hipertensão, sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), patologias degenerativas e osteoporose são exemplos de fatores que aumentam a chance do idoso cair e são observados de perto pelas equipes.

Segundo o assessor técnico da Secretaria de Saúde, Clauber Lourenço, é preciso fazer uma força-tarefa com uma equipe multidisciplinar para esta parte da população. “Nossos profissionais estão cada vez mais próximos aos idosos, entre eles psicólogos e médicos especialistas, como oftalmologistas, que atuam fortemente, porque, às vezes, o idoso tem um quadro de catarata avançado [e isso também pode causar queda]. O programa também envolve a parte nutricional”, detalha.

A promoção de atividades físicas nas unidades de saúde também integra o programa que ainda deve produzir, ao longo de 2019, informativos sobre prevenção de quedas, com dicas de saúde e outras atividades laborais para a comunidade.
 
TRATAMENTO
Fisioterapia ajuda melhorar parte óssea e muscular

 
Mesmo tendo caído no corredor do prédio onde morava e ter passado por cirurgia, dona Ana Melo adotou medidas de prevenção dentro de casa. Retirou tapetes da sala e determinou a instalação de barras de apoio no banheiro, tudo para ajudar na locomoção e na recuperação, afinal de contas, o tombo lhe rendeu uma placa de titânio na perna. E a história não para por aí. Há três anos uma nova fratura deixou a saúde da senhora debilitada. Desta vez o fêmur da outra perna, a esquerda, teve de ser operado por causa de uma nova fratura potencializada por uma descalcificação.

Desde o primeiro acidente, dona Ana faz fisioterapia regularmente, o que é imprescindível para pessoas acima de 65 anos. Hugo Rodrigues é fisioterapeuta e acompanha idosos que passaram ou não por uma cirurgia consequente de queda. Ele é o profissional responsável pelo tratamento de dona Ana, que faz sessões de fisioterapia três vezes por semana. Segundo Hugo, no caso dela, todo o tratamento é lento, passivo, sem peso excessivo para não prejudicar as funções motoras. A idosa, aliás, só se sente segura na presença dele para dar alguns passos com o andador. O especialista afirma que há muitos pacientes que continuam o tratamento pós-cirúrgico para melhorar as funções ósseas e musculares. “Fisioterapia é uma das condutas preventivas à queda. É o mais indicado até para pacientes que não tiveram quedas. A gente trabalha com três valências principais, que são força, equilíbrio e agilidade”, explica o fisioterapeuta.
 
REDE PÚBLICA
Cidade registra média de 30 quedas por mês

 
O cuidado com a saúde do idoso é a primeira medida para evitar um verdadeiro efeito dominó. O idoso com a saúde debilitada e com um acompanhamento médico deficiente está sujeito à queda, à fratura do fêmur, à cirurgias, internações e sequelas que podem levar à morte.

Mesmo quando o acidente acontece, a forma com que o socorro é prestado e a urgência com que a cirurgia é feita, no caso da fratura da perna, é o que muitas vezes determinam se o idoso vai se recuperar ou não, segundo Clauber Lourenço. Este cenário é o outro lado ainda mais amplo de um problema de saúde pública. Em Uberlândia, são registrados em média 30 casos de quedas com fratura de fêmur por mês, só a partir dos atendimentos pelo SUS. Ou seja, uma ocorrência por dia. A maioria dos pacientes dá entrada pelas UAIs e, segundo Lourenço, a partir de um pacto assinado entre o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) e o Município, o HC deveria assumir a maioria das cirurgias necessárias, por se tratar de casos de alta complexidade. A demanda crescente, somada a questões de disponibilidade de leitos, motivaram o secretário de Saúde, Gladstone Rodrigues da Cunha, e o prefeito Odelmo Leão a liberar, a partir de março de 2017, um maior volume de cirurgias de reparação de fêmur no Hospital Municipal.

“Em 2017 nós tínhamos casos de pessoas aguardando 20, até 30 dias na UAI a vaga na UFU para a cirurgia. Desde março (daquele ano) o Hospital Municipal iniciou o projeto das cirurgias em maior volume. Hoje, desses 30 casos da cidade/mês, a maioria é operada no Municipal e tudo isso com recurso próprio”, diz Lourenço.

O assessor técnico afirmou ainda que a maioria dos pacientes operados no Hospital Municipal tem mais de 70 anos e o objetivo da equipe médica é otimizar o tratamento para que o idoso fique o mínimo possível acamado. Segundo ele, a alta após as cirurgias acontece, em média, em três dias e muitos não precisam passar pelos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Dona Ana fez as cirurgias num hospital particular e viverá, em breve, mais um capítulo dessa história, porque ainda este mês uma nova cirurgia deve acontecer. A placa que sustenta o fêmur direito será recolocada. “Eu sinto dor demais, mas agora eu espero que dê certo. O que eu mais quero é agradecer e louvar a Deus. Também quero passear e viajar para Fátima, em maio. Eu já fui uma vez e foi lindo, quero ir de novo, dessa vez, boa”, conta animada.
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