17/01/2019 às 08h51min - Atualizada em 17/01/2019 às 08h51min

Macri e Bolsonaro atacam Maduro durante encontro

Brasileiro defende Mercosul mais enxuto em reunião com líder argentino

FOLHAPRESS
Presidente argentino, Mauricio Macri, foi o primeiro chefe de estado a se reunir, de forma oficial, com Jair Bolsonaro | Foto: José Cruz/Agência Brasil
Na primeira visita de um chefe estrangeiro ao país desde o início do novo governo, os presidentes Jair Bolsonaro, do Brasil, e Mauricio Macri, da Argentina, se uniram em um discurso de repúdio à ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela, ontem. Em um discurso forte, no Palácio do Planalto, o argentino disse que ambos não aceitam um escárnio com a democracia e que reconhecem a Assembleia Nacional da Venezuela como o "único poder legítimo eleito democraticamente" por vontade popular. "A comunidade internacional já se deu conta de que Maduro é um ditador que busca se perpetuar no poder com eleições fictícias prendendo os opositores e levando a Venezuela a uma situação desesperadora e agoniante", disse o argentino em breve comunicado à imprensa ao fim do encontro.

Bolsonaro, por sua vez, fez uma referência mais tímida à situação da Venezuela. Ele pregou a defesa da liberdade e da democracia na América do Sul e disse que a cooperação entre Brasil e Argentina está no rumo certo para recuperar "o tempo perdido". "Nossa cooperação na questão da Venezuela é um exemplo mais claro do momento. As conversas de hoje só fazem reforçar a minha convicção de que o relacionamento entre Brasil e Argentina seguirá no rumo da democracia, liberdade e segurança", disse.

Sobre o Mercosul, Bolsonaro defendeu que o bloco sul-americano seja "mais enxuto" e que volte a ter relevância, reduzindo barreiras e eliminando burocracias. Segundo ele, é necessário propor uma nova agenda de trabalho, "sempre com sentido de urgência".

"No plano interno, o Mercosul precisa valorizar a sua tradição original, com abertura comercial, redução de barreiras e eliminação de burocracias. O propósito é construir um Mercosul enxuto, que continue a fazer sentido e ter relevância", acrescentou.

Durante a campanha presidencial, uma declaração feita pelo hoje ministro Paulo Guedes (Economia) em outubro gerou preocupações sobre o papel do Brasil no Mercosul. No dia da vitória de Bolsonaro, Guedes respondeu irritado que o Mercosul não seria prioridade do governo. Ainda não se sabe qual será a relação do país com o bloco, já que o governo defende que o Brasil prefira negócios bilaterais a multilaterais. Os dois presidentes também adotaram discursos diferentes em relação às negociações de um acordo com a União Europeia, em andamento há mais de uma década.

A equipe de Bolsonaro vê o acordo com ressalvas. Já Macri, que é presidente pro tempore do Mercosul, defendeu a conclusão do acordo e disse que as negociações têm requerido muito esforço e evoluíram "como nunca antes", apesar de estarem travadas. "Com a sua chegada [Bolsonaro], teremos a oportunidade de levar o compromisso político do Mercosul e fazer um acordo que beneficie os dois blocos, sempre pensando na importância de gerar emprego, oportunidades e liberdade para os nossos povos", disse.

FORTALECIMENTO

No discurso, Bolsonaro defendeu o fortalecimento na relação entre Brasil e Argentina e elogiou Macri pelo esforço de tentar reerguer a economia argentina. Para ele, as reformas econômicas defendidas pelos dois países são fundamentais para um "crescimento sustentável" e para revigorar o intercâmbio comercial. "Nós falamos sem qualquer viés ideológico", disse. "Não há tabus na relação bilateral. O que nos move é a busca de resultados concretos."

Pouco depois, na recepção que ofereceu ao argentino no Palácio do Itamaraty, Bolsonaro voltou a elogiar a agenda econômica adotada por Macri no país vizinho e disse que seu governo pretende "levar adiante reformas econômicas de envergadura, que soltem as amarras do nosso crescimento e gerem emprego e renda para os brasileiros".

As incertezas em relação ao Mercosul preocupam Macri, que comanda um país que tem o Brasil como o principal parceiro econômico. O argentino havia programado vir à posse de Bolsonaro, mas cancelou a viagem alegando que estava em férias na Patagônia, o que dificultaria chegar a tempo da cerimônia. Apesar da ausência na posse, Macri foi o primeiro mandatário recebido em visita oficial por Bolsonaro, numa agenda que incluiu, ao longo da manhã de ontem, reuniões ministeriais entre os titulares de pastas estratégicas dos dois países.

No início da tarde, quando recepcionou Macri na entrada do Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, Bolsonaro fez gestos com as mãos que aludiram a uma pistola. A cena ocorreu quando Bolsonaro e o argentino estavam lado a lado, enquanto eram fotografados pela imprensa. Macri, no entanto, não correspondeu ao sinal e apenas acenou aos repórteres. Imitar uma arma com as mãos foi uma das marcas da campanha presidencial do mandatário brasileiro.

Com dificuldades para tentar uma reeleição neste ano, o argentino também não quer parecer muito próximo de Bolsonaro, considerado extremista por parte de seu eleitorado. Embora ambos tenham visões parecidas ao defenderem agendas econômicas liberais, Macri tem um discurso mais moderado em relação à esquerda e aos costumes, divergindo da pauta conservadora do brasileiro.
 
ACORDO
Governos querem rever tarifa comum do Mercosul

 
O Ministério das Relações Exteriores brasileiro divulgou ontem uma declaração conjunta do país com a Argentina na qual os dois governos prometem trabalhar para rever a tarifa externa comum do Mercosul. O comunicado é resultado do encontro entre os presidentes da Argentina, Mauricio Macri, e do Brasil, Jair Bolsonaro, também ocorrido ontem em Brasília.  A tarifa externa comum é uma alíquota do imposto de importação acertada entre os quatro sócios do bloco - Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

O conteúdo da nota indica que Bolsonaro e Macri pretendem flexibilizar essa regra. No mesmo documento, o Itamaraty diz que Bolsonaro e Macri vão trabalhar juntos para "melhorar o acesso a mercados e avançar em facilitação de comércio e convergência regulatória". Ainda sobre o Mercosul, os mandatários decidiram atuar para impulsionar as negociações "mais promissoras já em curso" do bloco com outros países, e "avaliar o início de novas negociações com novos parceiros".

Assim, a declaração aponta uma linha semelhante a que o Itamaraty adotou sob Bolsonaro em relação aos acordos que o Mercosul tenta fechar com outros parceiros: fazer o possível para concluir conversas que já estão avançadas, como as que envolvem a União Europeia, mas no futuro atuar para que haja mais liberdade entre os membros para fechar acordos com terceiros. Também foi informado que Bolsonaro deve realizar uma visita oficial a Buenos Aires, em data que ainda será definida.
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