30/12/2018 às 06h30min - Atualizada em 30/12/2018 às 06h30min

Três décadas dos sons de Maurício Winckler

Cantor e instrumentista começou a tocar em Uberlândia ainda na adolescência e se tornou referência no blues e jazz

NÚBIA MOTA
Maurício Winckler começou a tocar profissionalmente há exatamente 30 anos | Foto: Máquina 3/Divulgação
Dois terços da vida de Maurício Winckler, de 46 anos, foram no rastro da música, batendo no endereço certo, mesmo que para isso fosse preciso deixar muito de si para trás. A intenção não era apenas tocar melhor o instrumento ou cantar com perfeição, mas sentir as notas musicais na pele, dialogar com o blues cara a cara, sentar ao lado do estilo que ele aprendeu a gostar desde menino, assistindo filmes de western.  E lá se foram 30 anos de altos e baixos dentro da carreira, sempre conectada com a vida pessoal. A serenidade que chega com a idade, o vínculo familiar e a paternidade o trouxeram novamente para Uberlândia, onde ele começou a dedilhar pela primeira vez o violão ainda criança, até se tornar hoje referência no meio artístico. 

Mauricio Winckler Perdomo é gaúcho de Santo Ângelo, a capital das missões, mas foi em Uberlândia que ele descobriu qual era a sua vocação. Ele veio para o Triângulo Mineiro aos 3 anos, quando o pai, Mário Perdomo, foi transferido de uma empresa de máquinas agrícolas, com uma filial em Itumbiara (GO). Como a mãe, Mary Winckler, preferiu Uberlândia, a família se estabeleceu aqui, onde ela foi professora e diretora da Escola Messias Pedreiro.  Como é tradição lá no Sul, a matriarca aprendeu acordeom na infância e essa é a única referência que Maurício teve dentro de casa. “Eu não sei direito de onde veio essa veia, mas foi muito cedo. Eu lembro que eu tinha 9 anos e já começava a batucar Tupperware, pedia para entrar em aula de música. Foi uma decisão minha”, disse o músico. 

As primeiras aulas de música foram no Instituto Rio Branco, da professora Carlota de Andrade Marquez, com o professor Gilberto Caixeta. Logo em seguida, ele entrou em uma escola infantil de violão chamada Toque, até conseguir vaga, aos 12 anos, no Conservatório Estadual Cora Pavan Capparelli, onde ficou até os 15 anos estudando com Eurípedes Guimarães e seu jeito peculiar e controverso de ensinar o instrumento, muito voltado para o improviso. De lá para cá, mais de 30 anos se passaram, Maurício Winckler hoje é professor de violão e guitarra, de crianças até idosos, mas nunca deixou de ser aluno. Graças ao encurtamento de distância que só a internet é capaz de proporcionar, recentemente ele reencontrou pelo Facebook o guitarrista de Uberaba Fernando Borges, hoje residente em Porto Alegre (RS), com quem aprendeu muito há 20 anos e atualmente faz aulas via Skype. “Todos os professores são muito importantes. E tem vários companheiros de profissão, com quem eu toco e toquei, que eu também considero professores, como é o caso do Edson Júnior, o Bud Garcia, o Beto Rosa. Na verdade, existe uma troca de informações entre os músicos. A gente aprende e ensina o tempo todo. Em São Paulo também foi uma escola”, afirmou o músico. 

O blues na vida de Maurício é meio que atemporal. Ele não se lembra ao certo como surgiu. As memórias mais remotas é dele ainda criança buscando filmes americanos para assistir, já que não havia empatia com a produção nacional. E o gosto pela música nasceu junto ao do cinema,  como quando assistiu o épico “A cor púrpura”, lançado em 1985, dirigido por Steven Spielberg, com a trilha sonora assinada por Quincy Jones. “Assistia também os filmes de faroeste e quando comecei a estudar, descobri que o que tocava era blues. Mas fui me encontrar com isso mais tarde. Primeiro eu gostei do filme, gostei da trilha, sem saber que era blues. Passei pelo rock, pelo samba e de repente encontrei com o blues no caminho e me toquei que era aquilo que tocava no filme. Sempre gostei sem saber”, disse Maurício. 

Antes de ir para São Paulo, Maurício chegou a fazer muito cover em Uberlândia, como de Red Hot Chili Peppers, U2, Pink Floyd. Outro caminho que a cidade oferecia era o sertanejo e, então, ele acompanhou as duplas Jean e Jefferson e as Irmãs Barbosa, mas por razões óbvias, acabou sendo por pouco tempo. “Se você não pertence ao universo da música sertaneja, se você não vive aquilo e compactua, não consegue ficar muito tempo. É tudo muito amarradinho e o blues é tudo no improviso. Se pegar um músico que acompanha o Alexandre Pires, a Anitta, ou uma dupla sertaneja, acostumando com hotéis suntuosos, comidinha na hora certa, vans com ar-condicionado, saindo na hora certa e colocar em uma turnê de blues, com hotéis meio tronchos, tem que comer sanduíche, em casas menores, público diferente, sem ninguém idolatrando o artista, ele também não vai ficar muito tempo. Quando você vive e é aquilo que se propõe a fazer, normalmente é onde se dá melhor”, disse Maurício. 

Já para a capital paulista, Maurício Winckler se mudou aos 25 anos, um tempo depois de participar de um show, no London, em Uberlândia, de J. J. Jackson, falecido em julho, aos 75 anos. A intenção era só diminuir a despesa da produção, mas como agradou a equipe e o próprio bluesman norte-americano, a parceria se deu  por 3 anos, rodando todo o Brasil. Em princípio, Maurício ficou na estrada entre Uberlândia e São Paulo, mas à medida que a agenda foi ficando lotada e cansativa, acabou se mudando definitivamente para lá, onde permaneceu por 8 anos. Na nova cidade, graças ao convívio com outros artistas, com quem ele passou a tocar, deixou de ser exclusivo do J. J. Jackson acompanhou outros nomes, até fazer os seus próprios shows. “J. J. deixou o novo vir sempre para substituir o antigo, porque o novo é mais barato. Eu fui aposentado por tempo de serviço e entrou a garotada que queria ocupar meu lugar. Como eu estava com outros contatos tão bons como o J. J., foi bom para mim também”, contou o instrumentista, que ainda tocou, por 3 anos, com Ari Borger, considerado o mais importante pianista e organista de blues no Brasil.

Mesmo com a carreira em ascensão, juntando grana para comprar um apartamento e se fixar em São Paulo, um dia, Maurício Winckler se olhou no espelho e viu os primeiros fios de cabelo branco. Já tinham se passado 8 anos naquele lugar e a maior cidade do Brasil já não lhe cabia mais. Com o que ele já havia economizado, arrumou as malas e foi direto para as margens do rio Mississipi, em Nova Orleans, a maior cidade do Estado de Louisiana, nos Estados Unidos, berço do blues e capital mundial do jazz. O músico, de cara, começou a fazer canjas em apresentações na infinidade de bares que o local oferece. “Existe uma diferença muito grande no cara que é fã de blues, mas nunca foi nos Estados Unidos. Dá para identificar com ele cantando, pelas gírias. Porque o blues é muito regional, é tipo a nossa música caipira, com erros de português propositais. O blues também é repleto de pequenas imperfeições, com letras de duplo sentido, cheio de brincadeira. E quando você vai lá e vive isso, você fica 10 vezes mais apaixonado. Muito melhor que um apartamento”, disse. 

Mas lá, os turistas são bem-vindos, desde que não fiquem demais.  Depois de 2 anos nos Estados Unidos, de cidade em cidade, já com o visto vencido nos primeiros 6 meses, em um dia, Maurício foi pego pela imigração, enquanto viajava em um ônibus interestadual, entre Louisiana e o Texas. Ficou preso por 28 dias e grande parte do que conseguiu economizar foi gasto com advogado. “Meu pai estava com leucemia aqui em Uberlândia, tinha a Maianinha (filha mais velha) que eu não via há anos. Pensei, vou perder meu pai e minha filha por causa de um Green Card. E também estava sentindo a xenofobia, que é inacreditável, mas depois de 2 anos você consegue perceber e é forte. Eu percebi que nunca ia me sentir em casa. Eu também estava em depressão e precisava me tratar. Fiquei sabendo da deportação voluntária, que você recebe de volta tudo que você gastou, desde a fiança aos honorários advocatícios, se topar a voltar para o seu país. Eu vim há 8 anos, direto para Uberlândia, não conseguia tocar”, disse. 

Para se curar, o músico atacou três frentes, unindo o exercício físico ao espiritismo e medicação e, seis meses depois, voltou a se apresentar no Vinil Cultura Bar, graças ao convite do amigo Sérgio Giovani Pessoa, o Sérjão do Vinil. Foi quando nasceu a banda Black Jack 21. Em 2013, ele se tornou o artista principal e um dos idealizadores do filme “Por um punhado de blues”, longa metragem produzido em Uberlândia e dirigido por Renato Cabral, em um misto de fatos reais e um pouco de ficção. 

Mas o filme já pode ter continuação, pois nos últimos 5 anos, muitas coisas aconteceram. Logo depois de lançar o longa, Maurício Winckler se mudou com a esposa, a geógrafa Maria Bastos, para Recife (PE), depois do convite para trabalhar com 9 mil indígenas em uma etnia chamada Pankararu, na divisa com a Bahia, durante a passagem de uma linha de energia sobre aquelas terras. “Eu sempre fui apaixonado pela pentatônica, que é uma escala que corta a quarta e a sétima nota, o Fá e o Si, e é uma das bases do blues. E onde você pode estudar a pentatônica com mais pureza é em uma tribo. Foi como aconteceu quando fui para os Estados Unidos, direto na fonte”, disse Maurício, que participou do trabalho como fotógrafo. Por lá, o casal ficou 2 anos com os índios e outro ano com as marisqueiras, até que veio a Anninha, como os pais chamam Anna Bastos Perdomo, hoje com 2 anos e 9 meses, nascida em pleno carnaval pernambucano. “Ela é uma promessa Pankararu. Mas quando ela tinha 1 aninho, voltamos para ficar perto da família. Hoje, não tem uma cidade melhor para a gente ficar, onde estão os 4 avós, os tios”, disse o pai de segunda viagem. 

Agora, a ideia é retomar o projeto do estúdio de gravação, sonho deixado de lado antes ainda dele ir para São Paulo, começar a gravar o próximo de muitos outros discos, além de continuar dando aulas de guitarra e violão e tocar na noite, assim como nos velhos tempos.

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