23/12/2018 às 08h55min - Atualizada em 23/12/2018 às 08h55min

Uberlândia tem 1,5 mil mulheres no AA

Ainda é difícil para elas admitirem problemas e a dependência com álcool

VINÍCIUS LEMOS
Em Uberlândia há aproximadamente 5 mil pessoas cadastradas nos grupos do Alcoólicos Anônimos, sendo que 30%, ou 1,5 mil delas, são mulheres. A discrepância entre os gêneros aponta para uma conta que não parece fechar. Os números de levantamentos brasileiros mais recentes mostram que enquanto o alcoolismo caiu entre os homens, entre as mulheres a tendência é de aumento. Fato é que todos os entrevistados ouvidos pelo Diário de Uberlândia para esta reportagem concordam no ponto em que a dificuldade em se tratar o vício para as mulheres segue por um caminho difícil de aceitação do problema, ainda hoje. 

Relatórios do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) mostram que “ao longo dos últimos anos está havendo uma convergência do uso de álcool entre os gêneros, com maior aceitação social do uso pela mulher. A vulnerabilidade do organismo feminino perante os efeitos do álcool é algo preocupante e merece atenção em termos de políticas públicas”. Em 2014, o II Levantamento de Álcool e Drogas (II Lenad) mostrou que a dependência de bebidas alcóolicas caiu três pontos percentuais entre homens no período de 2006 a 2012. Enquanto isso, a realidade das mulheres consumidoras de álcool foi de tendência de aumento, com ligeiro crescimento do problema, cuja prevalência chegou a 3,63% da população feminina.

“Alcoolismo é uma doença e ela [mulher alcóolica] é vista como uma sem vergonha e sem moral”, disse a delegada do AA em Minas Gerais, Tereza Cristina França Barros. Ela disse que a dificuldade para admitir o problema é inerente ao dependente do álcool, mas que entre as mulheres ainda se encontra a vergonha, por exemplo, em ser uma “mãe de família” alcóolatra. O estigma social é um peso extra para admissão do problema e posterior tratamento. O que parece, segundo Tereza Cristina, é que a aceitação da mulher nos bares junto a homens foi mais rápida do que o fato delas também passarem por problemas com a bebida. Não é à toa que o médico psiquiatra Bruno Caetano Vieira percebe que a maior parte das mulheres alcoólatras beba em casa. 

Na opinião de Tereza Cristina, no entanto, o problema não tem aumentado entre as mulheres, mas o que acontece é que, aos poucos, aquelas que precisam de ajuda se expõem mais e por isso os números de pesquisa apontam para crescimentos, ainda que tímidos. “Acreditamos que o problema afeta homens e mulheres de maneira igual, mas no homem é mais notado. [Admitir o problema entre mulheres] Passa por uma negação muito maior que entre os homens. A família não quer que a mulher seja exposta como alcoólatra”, disse.

Comportamento

Em 2006, 27% das mulheres brasileiras bebiam regularmente, de acordo com o II Lenad. Isso quer dizer beber pelo menos uma vez por semana. Seis anos depois, a pesquisa mostrou que esse número passou para 38% da população feminina do País. Isso representa um aumento de 40% de consumo regular entre mulheres. Em igual período, a população masculina que beber uma vez por semana cresceu 16%.

Já os episódios de consumo excessivo de álcool, chamados de Beber Pesado Episódico (BPE), saltaram de 36% para 49% no grupo das mulheres em seis anos. Isso quer dizer que elas responderam positivamente aos pesquisadores quando perguntadas se consumiram quatro ou cinco doses de bebidas alcóolicas em menos de duas horas em alguma ocasião.

O médico Bruno Caetano explicou que de maneira geral esse tipo de comportamento BPE é tão ou mais nocivo que o consumo crônico do álcool. “O problema é o uso exagerado leva a acidentes graves como doenças físicas e psíquicas”, afirmou.

Especialmente sobre as mulheres, Bruno Caetano lembrou que O metabolismo delas é diferente e o álcool faz mais mal, o que as torna mais vulneráveis ao alcoolismo.

30 anos sem beber
“Eu comprava álcool para limpar móveis e bebia. Mas para que eu comprava álcool se eu nem tinha móveis?”*


O início de 2019 para Helen (nome fictício) marcará 30 anos frequentando as reuniões dos Alcoólicos Anônimos. O grupo foi quem a ajudou a deixar de beber depois de mais de 10 anos de consumo de álcool. “Eu tinha 38 anos [quando entrou para o AA] e tinha muita compulsão para beber. Foi muito difícil conseguir, mas vivendo um dia de cada vez estou conseguindo”. Lá se vão quase 11 mil dias de combate ao vício.

Ele conta que até os 27 anos não bebia. Era filha de alcoólatra e tinha pavor da bebida, mas isso mudou com o tempo, “por uma brincadeira aqui e outra lá com amigos” e passou a provar algumas bebidas. Ela passou por um período em que tomava três garrafas de cerveja por dia. Quando o dinheiro não deu mais para a cerveja, passou para outras bebidas mais baratas e mais fortes. “Quando percebi, estava totalmente dependente do álcool.”

Helen conta que foi muito criticada e taxada. Era uma coisa diferente do preconceito com homens, segundo ela. “Ouvia coisas como ‘Por que você não arruma uma roupa para lavar?’, ‘Vai cuidar dos filhos e da casa’. Se é difícil hoje, imagine há 30 anos”, afirmou.

As consequências foram a dificuldade de convivência com os filhos, cujo lar onde cresceram se tornou um ambiente insustentável, como ela definiu. Ela vendeu objetos de casa, pedia dinheiro a conhecidos, não conseguiu mais trabalhar e chegou a pensar em suicídio.

Foi o momento de aceitação da doença e de como precisava buscar ajuda. Em consultas médicas, a mulher descobriu o AA, onde pôde contar sobre seus problemas e disse ter apoio para se manter longe da bebida. “A pessoa não bebe porque quer, é uma doença. Eu tinha muita vontade de parar, mas não conseguia. E hoje a minha história ajuda a ver um caminho. Ela é bonita e triste ao mesmo tempo, mas assim consigo falar da mulher no AA, dar uma palestra, participo dos encontros e ajudo a conscientizar as pessoas”.

Uma noite no AA
“Boa noite, meu nome é XXX, sou doente alcóolico em recuperação. Hoje eu não bebi e amanhã não vou beber. Porque hoje eu vim buscar meu remedinho. A reunião”*


O Diário esteve na reunião 15.147 no AA em Uberlândia. Era a noite de uma quinta-feira e por duas horas o grupo se reuniu para mais uma conversa. Ironicamente, naquele dia cinco mulheres e quatro homens passaram pelo local, ainda que dois terços dos membros do AA no Município sejam do sexo masculino.

Na sala com cartazes com os famosos 12 passos do AA e frases de solidariedade, no segundo piso de um sobrado, o grupo se dividia em várias poltronas antigas e confortáveis dispostas nas laterais, centro e fundos do ambiente. Ao lado, de frente para a escada que levava ao local, uma árvore de natal piscava com as luzes ligadas apenas para a reunião. À frente se destacava a mesa com a placa “Palavra Franca”. Esse é o espaço onde os membros se colocam para contar suas histórias, que invariavelmente começam com uma apresentação rápida seguida de frases como “mais um dia sem beber”, “24 horas sem bebida” e “amanhã não vou bebe de novo”.

O ambiente é de ajuda e apoio mútuos e até de brincadeira com os problemas pelos quais todos ali passaram em algum momento da vida. Não há, entretanto, qualquer desrespeito ou escárnio. Ao meu lado uma senhora é convidada a falar, mas ela não se sentiu à vontade naquele dia. Disse depois que aquele não era o melhor dia para falar, mas que esteve na reunião e isso por si só já era importante.

O fato de mais mulheres terem participado do encontro neste dia chamou a atenção para algo comum entre elas: muitos familiares questionaram o os motivos que as levaram a procurar o AA, seja por vergonha, negação ou por não entenderem a função da instituição.

Ao fim da reunião todos juntos citam São Francisco de Assis. “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

Teste CAGE sobre alcoolismo

Questionário CAGE 
C – CUT DOWN (Cortar)

Você já pensou em largar a bebida?
A – ANNOYED (irritado)

Você já ficou aborrecido por pessoas criticarem seu hábito de beber?
G – GUILTY (CULPADO)

Você já se sentiu mal por beber?
E – EYES-OPENER (para abrir os olhos)*
Você bebe de manhã para se livrar da ressaca?
(Sintoma de abstinência é um dos grandes marcadores do alcoolismo)

Se você responder positivamente a pelo menos duas perguntas, pode ser considerado alcoolista e fazer uma avaliação médica.
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