19/12/2018 às 08h19min - Atualizada em 19/12/2018 às 08h19min

O adeus ao Pedrinho do “Urutu”

Ex-jogador, treinador e motorista do UEC faleceu na segunda-feira em decorrência de causas naturais

EDER SOARES
Pedrinho foi motorista do Urutu por mais de 30 anos e era referência histórica do UEC | Foto: Odival Ferreira/Arquivo
Foi sepultado no início da tarde de ontem, no cemitério Campo do Bom Pastor, um personagem histórico do Uberlândia Esporte Clube (UEC). Pedro Soares, de 90 anos, ou simplesmente Pedrinho, foi o famoso motorista do ônibus Urutu, adquirido pelo Verdão em meados da década de 1970 e que até hoje é guardado como uma verdadeira relíquia pelo clube. O falecimento desse “contador de histórias” aconteceu no final da tarde de segunda-feira (17), por causas naturais, depois de algumas complicações pós-leucemia e diabetes, que acabaram deixando Pedrinho na cadeira de rodas.

Pedrinho foi motorista do Verdão por mais de 30 anos e era dono de muitas histórias, tendo ele mesmo nomeado o ônibus do clube de Urutu, uma espécie de cobra, depois de um acidente em uma das viagens do UEC na década de 1980. Pedrinho também foi jogador da equipe juvenil do UEC, treinador na mesma categoria e chegou a servir o time profissional em meados da década de 1960, atuando como lateral. Foi funcionário da Companhia Mogiana e também treinou equipes do futebol amador, conquistando títulos.

“Ele estava há algum tempo na cadeira de rodas, depois de uma leucemia e da diabetes agravada. Meu pai amava o futebol, especialmente o Uberlândia Esporte Clube, onde ele ficou por quase 50 anos como jogador, treinador e motorista, função em que levou o Verdão por toda Minas Gerais. Vamos sentir muito a falta dele, mas a história e paixão dele pelo clube e pelo futebol sempre irão ficar”, disse um dos sete filhos de Pedrinho, Sérgio Cunha.

HOMENAGENS

O presidente do Uberlândia, Flávio Gomide, lamentou o falecimento de Pedrinho e decretou três dias de luto no clube. “Pedrinho ainda foi homenageado em 2012 no Churrasco ‘Amo Verdão’, no ônibus Urutu, com as maiores estrelas da história do clube, onde fizemos 29 homenagens na ocasião, nos 28 assentos e no assento de motorista. Que o Espírito Santo de Deus conforte os familiares e a nós”, disse Gomide.

Ao longo do dia, muitos ex-jogadores, diretores e membros da imprensa que conviveram com o ex-motorista fizeram questão de falar um pouco sobre Pedrinho. “Eu o conhecia desde os meus 12 anos de idade, foi meu treinador no Praia Clube, no futebol amador, no qual fomos juntos campeões da cidade, e trabalhou comigo no Uberlândia Esporte. Era um apaixonado pelo Uberlândia, um grande homem e conhecedor do futebol. Vai deixar muita saudade”, disse o ex-presidente do UEC entre 2002 e 2005, Eduardo Anchieta.

HISTÓRIAS

Ex-treinador do UEC entre as décadas de 1980 e 1990, com seis passagens pelo clube, Borba Filho, hoje com 80 anos, mora em Itajaí (SC), onde trabalha com jogadores estrangeiros para o mercado nacional e internacional. Borba falou ao Diário de Uberlândia sobre sua amizade e admiração por Pedrinho. “Estou muito triste pela perda de um grande amigo, mas feliz por ter tido a oportunidade de tê-lo conhecido. Tivemos muitas histórias juntos, demos boas risadas. Nunca o esquecerei”, disse Borba, que contou uma história breve.

“Teve uma de minhas passagens, acho que em uma viagem para Montes Claros, que eu pedi ao Pedrinho para deixar eu matar minha vontade de dirigir o ônibus, mas ele imediatamente disse: ‘Não posso deixar, é perigoso’. Eu voltei para o meu assento e fiquei matutando. Como eu sabia que ele entendia de futebol, fiz uma proposta: ‘Se você deixar eu dirigir um pouco essa jabiraca, eu deixo você dirigir o time no jogo por 15 minutos’. Ele riu, dizendo que aquilo era apenas brincadeira minha e me deixou dirigir o ônibus.”

Em sua página do Facebook, o jornalista Neivaldo Silva, o Magoo, que foi repórter esportivo e já cobriu o dia a dia do Verdão, escreveu um texto falando sobre o seu sentimento por Pedrinho. “De vez em quando aparece um ou outro amigo me chamando de Forrest Gump, aquele personagem esquisito, que meio tontão, senta no banco da praça e conta histórias. Alguns o acham maluco, doido, babaca, bobão. Sem problemas, eu às vezes sou este babaca, bobão, velho, antigo e esquisito. Chego em casa, reviro as redes sociais e aí aparece a informação de que morreu o Pedrinho Cancha, o capitão do Urutu (velho ônibus do Uberlândia Esporte) que ele conduziu por mais de 1.000 municípios mineiros, embora Minas só tenha 853”, disse Magoo, que completou narrando uma das centenas de histórias de Pedrinho, destas que dão para escrever um livro.

“Então vamos lá. Uma dessas histórias ou estórias do folclore que cerca o Verdão da Mogiana. Essa eu não vi, mas me contaram com detalhes e por várias vezes eu vi o Pedrinho confirmando, rindo e dando bronca. Contam que o 109 (Vicente Lage), num daqueles jogos da Taça CBF de 1984, estava suspenso e não podia ficar no banco. Aí o nosso Verdão estava jogando mal, levando um baile do adversário. No meio do jogo, do lado de fora do alambrado, o 109 chama o Pedrinho e pede para ele avisar ao Chiquinho (volante) para prender mais a bola, olhar bem o jogo e distribuir disfarçadamente ou para o Geraldo Touro (ponta direita) ou para o Zé Carlos (ponta esquerda), enquanto o Vivinho (centroavante) finge que vai pra um lado e chama o marcador para o lado contrário e o Carlos Roberto (meia) surpreende pelo meio, e conclui. ‘Repete’ e explica de novo. Aí o Pedrinho corre para a lateral do campo, espera a bola sair em lateral e chama o Chiquinho e o Vivinho e resume toda a instrução assim:  ‘Vivinho, Carlos Roberto, Chiquinho, Touro, Zé Carlos....debuia, debuia pra esquerda e olha pra direita, debuia pra direita como se fosse pra esquerda, debuia tudo e assim bem depressa". O Verdão foi lá e debuiou, debuiou de 2 a 1 e debuiando chegou ao título de Campeão Brasileiro de 1984. Pedrinho Cancha, debuia na eternidade com a alegria e paixão que sempre teve pelos caminhos do futebol”, terminou o texto.
 
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