28/10/2018 às 07h03min - Atualizada em 28/10/2018 às 07h03min

Pichações aumentaram no período eleitoral

Na Universidade Federal de Uberlândia, ações acontecem há muito tempo, o que mudou foram os discursos

NÚBIA MOTA
O banheiro feminino no bloco 3Q, do campus Santa Mônica da UFU, onde a  frase “Pretaiada vai voltar para a senzala” foi pichada no último dia 13, durante um Congresso de Pesquisadores Negros, ganhou novas pichações, em reação ao que foi escrito. Acima de um dos espelhos, sobre os azulejos, surgiu a frase: “Racistas otários nos deixem em paz”. Outros dizeres, já encobertos com tinta branca, também podem ser lidos. Algo como “Racistas mostrem a cara”.

A série de vandalismo nas universidades públicas do Brasil ganhou repercussão neste mês, entre o primeiro e o segundo turno das eleições, mas o que mudou foram apenas os discursos. Desta vez, foram desenhadas suásticas, ofensas aos gays, negros e candidatos a presidente, mas basta dar um volta pelos campi para perceber que os atos de vandalismo são antigos e corriqueiros.

O saguão próximo ao banheiro palco das ações tem duas frases grandes escritas com spray preto dizendo “+Educação – Opressão” e “Vandalismo é a PEC 241”, em uma referência  à  PEC do Teto de Gastos, proposta pelo Governo Federal com o objetivo de limitar o crescimento das despesas da União. Um dos locais que mais chamou a atenção da reportagem do Diário de Uberlândia foi o banheiro masculino do Bloco 5N, onde funciona o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFU, completamente sujo e pichado com frases como “Fora Temer”, “Cadê o DCE” e “Sem censura”. O banheiro feminino ao lado não está muito diferente e na fachada do bloco foi escrito “Todos os cantos”. 

O delegado chefe da Polícia Federal (PF) em Uberlândia, Carlos Henrique Cotta D'Ângelo, disse que, por meio de conversas com colegas de corporação residentes em cidades universitárias espalhadas pelo país, é possível afirmar que esta é uma realidade de outras universidades públicas, em um sinal claro de falta de educação para a cidadania por parte dos estudantes e de tolerância por parte das próprias instituições de ensino.

É assim na USP, na Unicamp, na UnB, na UFMG. O que se muda é o discurso, mas a prática de sujar, de enojar o local, é tradição e é tolerada. Aqui na UFU, há alguns anos, teve uma menina que pichou uma parede grande da biblioteca e ao ser detida e trazida para cá, ela, na maior desfaçatez, disse: ‘Eu faço o que quiser, porque lá é um espaço público’. Será que ela foi expulsa da UFU? Ela tinha que ser expulsa. A universidade tolera e vem tolerando há anos. Dizem que é manifestação estudantil, mas os alunos não fazem isso na casa deles, fazem no campus”, disse o delegado.

No caso específico do que ocorreu no banheiro do bloco 3Q, D’Ângelo acredita que, mais do que um ato de racismo, é um ato de “molecagem”, em que o autor apenas quis ganhar “palanque”. Ainda para o delegado, não é possível descartar a possibilidade de que o próprio grupo atacado tenha sido o autor das pichações. “Apagaram logo as mensagens e não ficou nem corpo de delito para a gente analisar. Dificilmente vamos chegar à autoria disso. Mas será que isso é de verdade um ato de racismo, de afronta à minoria, ou é uma molecagem de um estudante que já está habituado a deixar a universidade imunda? É muito comum manifestações tidas como culturais no campus, em que os alunos saem pelados, simulando atos sexuais. Mas isso pode ofender pessoas também.  Eles querem que respeitem o afro, o gay, a mulher, mas por que um católico e um evangélico também não podem ser respeitados?”, questionou o delegado.  

Caroline Rodrigues Cardoso Lima, estudante de Dança e membro da diretoria de comunicação do DCE, disse que os ataques racistas ficaram mais explícitos nesse período de campanha eleitoral e conta que os estudantes brancos não aceitam as cotas raciais e sociais dentro da instituição. “Não posso me posicionar em nome de todos os estudantes, mas, às vezes, o que é pichação para você, pode ser arte para mim. Às vezes, pode ser pichações de pessoas que nem estudam aqui, porque não controlamos quem entra e sai”, disse Caroline. 

A reportagem entrou em contato com a UFU na última terça-feira, mas até a sexta-feira não recebeu nenhum posicionamento.



Policiamento
UFU precisa ter forma de coibir vandalismo, diz delegado

Para o delegado chefe da PF, Carlos D’ângelo, a UFU precisa encontrar uma forma de coibir atos de vandalismo dentro dos campi, com o aumento do número de vigias e de câmeras. “Mas aí, a própria comunidade acadêmica se rebela, fala que estão tirando a liberdade do campus, que lá não pode ser vigiado, que não é um Big Brother, não é um quartel. Aí tiram as câmeras e tem roubo, furto e estupro. É um ambiente muito difícil de lidar”, disse o delegado. 

Em março deste ano, por exemplo, três estudantes do campus Santa Mônica foram presos suspeitos de tráfico e uso de drogas nas dependências da universidade. Com eles, a polícia apreendeu maconha e haxixe.  Em março do ano passado, dois bandidos invadiram uma sala de aula no Bloco 3Q, usando simulacros, e roubaram pertences de um professor e de alunos que formavam um grupo de estudos. Há 3 anos, uma estudante de 18 anos sofreu uma tentativa de estupro dentro do banheiro, por um funcionário terceirizado. 

Para Caroline Rodrigues, estudante de Dança e membro da diretoria de comunicação do DCE, por um lado, a presença da polícia pode ser bem-vinda, mas por outro, acredita que as corporações podem ser autoritárias e usar do poder para coagir os estudantes. “Tem que olhar se a polícia entrou aqui para proteger o estudante ou para ficar de olho, porque falou que é universitário da UFU, é marginal. Infelizmente é o que acontece”, disse a aluna. 

Segundo Carlos D’ângelo, criou-se uma cultura de que as polícias não devem entrar em um espaço acadêmico, por ser um local de livre pensar, mas se as corporações agem nesse ambiente é porque existem crimes. “E se o crime for cometido pelo docente ou pelo discente, azar, vai ser preso, porque a lei é para todo mundo. No passado, até houve a utilização da polícia por ditaduras, aí a polícia não protegia o cidadão, mas o governo. Só que agora estamos no século 21. A ideia de botar força pública no campus universitário para monitorar o pensamento acadêmico não existe mais”, afirmou. 

Todas as polícias, assim como qualquer cidadão, têm o direito de entrar nos campi das universidades por se tratar de um espaço público de uso comum. Já as edificações, como são entendidas como direito de residência, só podem ser acessadas com mandado judicial ou com autorização do responsável, a não ser em flagrante delito.


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