23/10/2018 às 08h26min - Atualizada em 23/10/2018 às 08h26min

Desmentir fake news é inócuo, diz estudo

Pesquisa da UFMG mostra que informações negativas dificilmente são desconstruídas durante período eleitoral

FOLHAPRESS
Autoridades convocaram coletiva, no domingo (21), sobre o combate às fake news no período eleitoral | Foto: José Cruz/Agência Brasil

Checagens e correções não abalam a crença das pessoas em notícias falsas no período eleitoral. Essa é a conclusão de um estudo sobre o potencial de influência das fake news nas eleições. A primeira parte da pesquisa, feita em maio, com notícias falsas sobre o PT, mostrou que, entre aqueles que acreditam nas informações inverídicas, a correção, mesmo vinda de veículo profissional de imprensa, teve pouco impacto. O mesmo experimento, repetido em outubro, mostrou que desmentir foi inócuo.
A pesquisa é uma parceria entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de Pernambuco, e as universidades Emory e da Carolina do Norte (EUA).

"Durante a eleição, qualquer informação dificilmente é desconstruída", diz Felipe Nunes, um dos pesquisadores da UFMG. "Por isso as campanhas estão interessadas em gastar milhões distribuindo fake news." O estudo mostrou a eleitores mineiros quatro fake news positivas e quatro negativas sobre o PT. Entre as positivas, estava uma fala do papa Francisco afirmando que o maior crime de Lula (PT) foi ter lutado contra a fome. Nas negativas, a informação de que a senadora Fátima Bezerra (PT-RN) queria autorizar wi-fi em presídios.

Em maio, um terço dos entrevistados foi submetido apenas a fake news; um terço teve acesso à correção feita pelo partido ou alvo; e outro terço, à checagem do portal UOL.  No primeiro grupo, 44,9% das pessoas acreditaram nas notícias falsas positivas e 35,2%, nas negativas. Quase não houve diferença para o segundo grupo, que teve as notícias desmentidas: 44,7% e 35,7% acreditaram, respectivamente. Quando a checagem é profissional, há impacto entre as notícias falsas positivas. A parcela que acredita cai para 37,1%. Porém, entre as negativas, o índice muda pouco: 33,1%.

"Quando está falando mal, a pessoa acredita mesmo que se desminta. Mas quando tem uma notícia boa e o UOL corrige, a pessoa confia porque já pensa que política não pode ter notícia boa." Em outubro, o experimento foi só com dois grupos: o que não teve as notícias desmentidas e o que teve a correção. A crença na informação falsa se mantém intacta. Acreditaram nas notícias falsas positivas 35,4% no primeiro grupo e 36,3% no segundo. Para as negativas, o resultado foi 32,3% e 34,2%.
Para Nunes, o resultado no período eleitoral foi surpreendente. "As pessoas têm tanta certeza e convicção que dizer a elas que é mentira não faz a menor diferença."

O resultado traz um alerta do potencial das notícias falsas e de que o esforço de combatê-las com a verdade é inútil entre convertidos. Segundo o pesquisador, a solução está nas mãos das campanhas.   "Vamos ter que caminhar para um pacto para não usarem o mecanismo. Ou as campanhas começam a combater esse mal ou dificilmente teremos eleições não determinadas por notícias falsas."

Para avaliar se a correção das fake news ao menos abalava o nível de crença nelas, ainda que não mudasse a opinião do entrevistado, a pesquisa mediu o grau de ceticismo das pessoas. Assim, a força da crença foi graduada de -3 (muita certeza de que é a notícia falsa) e +3 (muita certeza de que é verdadeira). "Na média, houve uma tendência a achar que as notícias eram falsas", afirma Nunes.

Nos grupos que tiveram a correção via partido ou via UOL, o índice de ceticismo foi mais expressivo – os entrevistados acreditaram nas fake news com menos força. A crença só não foi afetada entre as notícias positivas desmentidas pelo próprio alvo. Em outubro, no entanto, a força da crença quase não se alterou com a checagem. "Apesar de as correções não alterarem de forma expressiva a crença, elas deixam as pessoas mais céticas com relação à veracidade", conclui Nunes.
 
ROSA WEBER
TSE diz que não há milagre contra notícias falsas

 
A presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, negou que a Justiça Eleitoral tenha falhado na prevenção e no combate às chamadas fake news durante o processo eleitoral deste ano. Em entrevista coletiva de mais de três horas, no domingo (21), com a presença de autoridades do governo, do Ministério Público Federal e do Judiciário, ela afirmou que o fenômeno da desinformação é mundial e se faz presente nas mais diferentes sociedades. "Se tiverem uma solução para que se evitem ou coíbam fake news, por favor, nos apresentem. Nós ainda não descobrimos um milagre", declarou.

O TSE criou no fim de 2017 um conselho consultivo sobre internet e eleições. Entre outras atribuições, o grupo tinha a missão de criar um método e normatizá-lo, com vistas a lidar com a proliferação de notícias falsas nas redes sociais. Essa medida não foi tomada. A ministra justificou que o Conselho Nacional de Direitos Humanos desaconselhou a normatização do tema, tendo em vista se tratar um assunto sensível, que poderia gerar interferências no direito à liberdade de expressão. Durante o primeiro turno das eleições, em meio à proliferação desses conteúdos, o colegiado não se reuniu. "Nós entendemos que não houve falha alguma da Justiça Eleitoral no que tange a isso que se chama fake news ", disse a ministra.

Ela ressaltou, contudo, que a Justiça Eleitoral tem dado, por meio de seus ministros auxiliares, respostas prontas em processos sobre propagandas irregulares, nas áreas jurisdicional e administrativa. Para a ministra, a novidade no processo eleitoral não é propriamente a disseminação de mensagens falsas, mas a velocidade de circulação delas por meio das redes sociais e dos aplicativos de mensagens. "Gostaríamos de uma solução pronta e eficaz. De fato, não temos."

Weber explicou que a Justiça Eleitoral não enfrentará "boatos com boatos" e avaliou que há um tempo para uma resposta ao problema, em respeito ao devido processo legal. "A desinformação deliberada ou involuntária que visa ao descrédito há de ser combatida com informação responsável e objetiva, tudo com a transparência que exige um estado democrático de direito", disse.
 
O que mostrou o experimento
 
MAIO

44,9%
acreditaram em notícias falsas positivas sobre o PT em maio
35,2%
acreditaram em notícias falsas negativas
 
Quando expostos a uma checagem profissional que desmente as notícias:
37,1% acreditaram nas positivas e 33,1% acreditaram nas negativas
 
OUTUBRO
5,4%
acreditaram em notícias falsas positivas em outubro
 
32,3%
acreditaram em notícias falsas negativas
 
Quando  expostos a uma checagem profissional que desmente as notícias:
36,3% acreditaram nas positivas e 34,2% acreditaram nas negativas

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