21/10/2018 às 08h00min - Atualizada em 21/10/2018 às 08h00min

Marcenarias ficam mais sustentáveis

Projeto de professora da UFU orienta setor para melhor aproveitamento de material e correta destinação de resíduos

CAROLINA PORTILHO
24% de uma placa de MDF vão para o lixo; prejuízos para o meio ambiente e para o empresário | Foto: Juliana Cardoso
O compromisso com o meio ambiente começa a ser uma preocupação entre os empresários do setor de marcenaria, em Uberlândia, que estão sendo orientados e estimulados a destinarem corretamente seus resíduos. Por meio do projeto Caco, da professora e pesquisadora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Juliana Cardoso Braga, foi feito um diagnóstico em algumas empresas da cidade em que foram avaliados os processos de produção, bem como a quantidade de material descartado e a destinação desse volume.

A conclusão dessa análise é que há um grande desperdício de MDF (Medium Density Fiberboard, placa de fibra de madeira e resina utilizada, principalmente, na fabricação de móveis), além de não ocorrer a destinação correta desse material, que é no aterro industrial da cidade. 

“Diante dos fatos, percebemos que as empresas precisam de orientações e assim fechamos um acordo setorial com foco no descarte regular das sobras de uma marcenaria. Já temos empresas participando do projeto e a intenção é estender para todos do ramo de Uberlândia e região”, disse a professora Juliana.

O projeto é desenvolvido em parceria com o Sindicato das Indústrias de Marcenaria e Mobiliário do Vale do Paranaíba (Sindmob), vinculado à Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade de Lisboa. Em média, 24% de uma placa de MDF vão para o lixo, gerando prejuízos não só para o meio ambiente, mas para o bolso do empresário.

“Também estamos orientando o dono da marcenaria a administrar melhor seu negócio com um planejamento mais estruturado. Desde a compra de material até a medição certa de projeto do cliente. Esses pontos ajudam a minimizar as perdas”, reforçou Juliana.

O acordo firmado entre as empresas e os envolvidos no projeto prevê um desconto de 50% para a destinação dos resíduos no aterro industrial por parte das marcenarias associadas ao Sindmob, que passam a pagar R$ 0,15 o quilo. Hoje, o valor da tabela é R$ 0,30.

“Cada empresa gera, em média, 7,2 toneladas de resíduos por ano. Uberlândia tem quase 1 mil empresas do ramo, imagina o volume todo disso. Se somar essa quantidade ao preço do quilo com desconto, o valor pago anualmente pelas empresas para destinar os resíduos moveleiros de modo correto é menor do que o valor da multa aplicada quando o descarte é feito de forma irregular. Queremos que o processo de descarte seja automático, sem qualquer tipo de cogitação das pessoas jogarem os resíduos em terrenos baldios, que é bem comum na cidade”, enfatizou a pesquisadora da UFU.

A pesquisadora Juliana Braga alerta sobre um componente no MDF que é altamente tóxico e cancerígeno, chamado formaldeído, mais conhecido popularmente como formol. Por isso, o apelo para as marcenarias descartarem as sobras de forma correta, pois do contrário, quem absorve o composto é a natureza, os rios e os solos, por exemplo.

EXEMPLO

Há mais de 20 anos no mercado de Uberlândia, a marcenaria Projeto & Art aderiu ao projeto Caco em 2017 e de lá para cá já sente os resultados. De acordo com o projetista Pedro Henrique Borges, todo o processo de planejamento da empresa foi reestruturado, desde o fechamento do pedido do cliente, compra de material, execução e implementação do projeto, resultando na redução do volume de resíduos.

“Até as medidas do projeto são revistas, pois antes executávamos o projeto com apenas a primeira medida feita no cliente. Além disso, colocamos uma pessoa exclusiva para o corte das chapas de MDF e passamos a catalogar as sobras, pois assim sabemos os retalhos que temos e como podemos aproveitar melhor em outras propostas. Todos esses processos não aconteciam antes e já sentimos que o desperdício começou a ser reduzido, em volume e no bolso”, disse.

Pedro afirmou que outra medida implementada na marcenaria foi criar uma planilha de orçamentos, antes feitos de forma manual. A medida adotada traz os valores detalhados de cada item trabalhado, facilitando na conta final do orçamento que traz com exatidão o cálculo. “Antes havia divergência de valores do mesmo item para orçamentos diferentes. Gerava desgaste para nós, que tínhamos que calcular cada pedido do cliente. Agora, basta inserir as medidas na planilha que ela calcula tudo. Ganhamos muito tempo nesse procedimento”, afirmou.

Em relação ao volume de descarte, o projetista disse que toda semana acumula, em média, 12 latões de resíduos, além de uma caminhonete. Hoje, o volume é o mesmo, mas gerado a cada 15 dias. “Além de desperdiçarmos menos, também estamos descartando o conteúdo no lugar certo, que é no aterro industrial. Nossos processos estão cada vez mais redondos e de acordo com a lei”, disse.


Volume de resíduo foi reduzido após medidas implementadas | Foto: Pedro Borges

AVANÇO DO PROJETO
Sindicato acredita na mudança de cultura

O presidente do Sindicato das Indústrias de Marcenaria e Mobiliário do Vale do Paranaíba (Sindmob), Ruy Gouveia Mendes, comentou que o projeto Caco, que dá destinação correta ao descarte de MDF, será estendido a todas as marcenarias da cidade e região. Ele entende que o processo é lento, mas acredita na mudança cultural das empresas cumprirem com o seu papel de descartar o resíduo de forma correta.

“Hoje temos 1.000 empresas do ramo atuando em Uberlândia e região, sendo 200 formais e 800 informais. Além disso, das formais, somente 75 são associadas ao sindicato, que atua em 10 cidades. Os resultados com as empresas que já aderiram ao projeto já são notados, por isso acreditamos na ampliação. Quem está no projeto passa a ter uma visão bem diferente de gestão, que é superimportante e faz toda a diferença na evolução dos negócios”, disse.
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