18/10/2018 às 09h41min - Atualizada em 18/10/2018 às 09h41min

Imagens verídicas no WhatsApp são apenas 8%

Estudo da UFMG analisou 357 grupos que, juntos, tinham 16 mil usuários; pesquisadores sugerem medidas contra fake news

AGÊNCIA BRASIL
Pesquisadores propõem medidas para evitar divulgação de notícias falsas na rede | Foto: Visualhunt
Um levantamento realizado pelos professores Pablo Ortellado (USP), Fabrício Benvenuto (UFMG) e pela agência de checagem de fatos Lupa em 357 grupos de WhatsApp encontrou entre as imagens mais compartilhadas apenas 8% delas podendo ser classificadas como verdadeiras. O estudo buscou analisar o fenômeno da desinformação e das mensagens falsas em grupos na plataforma, que vem sendo apontada como principal espaço de disseminação desse tipo de conteúdo.

O estudo analisou conteúdos enviados entre os dias 16 de setembro de 7 de outubro, ou seja, em boa parte do 1º turno das eleições deste ano. A amostra trouxe 347 grupos monitorados pelo projeto Eleição sem Fake, da UFMG. Os resultados, portanto, não podem ser generalizados. Mas trazem indícios importantes para a compreensão deste fenômeno. Ao todo, eles reuniram mais de 18 mil usuários. No período, circularam 846 mil mensagens, entre textos, vídeos, imagens e links externos.

Das 50 imagens mais compartilhadas nos grupos checadas pela agência Lupa, considerando foto e texto, apenas quatro foram consideradas verdadeiras (8%), entre elas uma de Bolsonaro em uma maca e outra do autor da facada no candidato, Adélio Bispo de Oliveira. Do total, oito (16%) eram falsas, como a montagem de Dilma com Che Guevara.

Quatro (8%) foram consideradas insustentáveis, conceito da agência para conteúdos que não se baseiam em nenhum banco de dados público confiável, como fotos de Lula e FHC afirmando que os dois se reuniram para planejar assaltos a banco. Outras nove eram fotos reais, mas com alusões a teorias da conspiração sem comprovação.

Da amostra, sete fotos eram reais, mas tiradas de contexto, como um registro de Aécio Neves e Fidel Castro acompanhado da acusação do político tucano ter virado “aluno” do dirigente cubano. Três imagens foram consideradas sátiras, seis estavam associadas a textos de opinião, o que a agência não checa, e três não foram examinadas por não ser possível aferir se a foto havia sido tirada no Brasil ou não. No total, 56% das imagens que mais circularam foram consideradas “enganosas”.

CASO BNDES
O levantamento dos professores e da Agência Lupa detalhou o caso das mensagens sobre supostos empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obras fora do Brasil. De oito sobre o tema acompanhadas de fotos, apenas duas eram verdadeiras. Outras três traziam dados considerados “exagerados” e duas eram falsas, como a alegação de que o banco teria financiado um gasoduto em Montevidéu e o soterramento de uma ilha em Sarmiento, na Argentina.

PROPOSTAS
Os autores divulgaram propostas em artigos e em documento ao WhatsApp solicitando a redução da possibilidade de encaminhamento de mensagens para, no máximo, cinco destinatários. Hoje, este limite é de até 20 pessoas ou grupos. Segundo o professor da USP Pablo Ortellado, o WhatsApp respondeu que tal medida seria inviável.

“Nós discordamos. Na Índia, após uma série de linchamentos causados por boatos difundidos no aplicativo, o WhatsApp conseguiu implementar mudanças em poucos dias. Nossa situação é bastante grave. Estamos conclamando também o TSE e outras instituições com poder regulatório para agir”, escreveu Ortellado, em texto em sua rede oficial sobre o relatório.

ENCONTRO
A presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, se reuniu ontem com os coordenadores das campanhas dos candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). No encontro, estiveram na pauta notícias falsas veiculadas especialmente nas mídias sociais.

As notícias falsas entraram na agenda do TSE desde o início da preparação do processo eleitoral. O tribunal chamou os partidos a assinarem um acordo contra as notícias falsas, reforçou a equipe que monitora essa prática e agora tenta um pacto entre os dois candidatos para evitar a disseminação de fake news. Para os ministros do TSE, as notícias falsas podem afetar a credibilidade do pleito. Haddad chegou a propor um acordo com o adversário para evitar as fake news, mas Bolsonaro recusou, via mídias sociais. Decisões do TSE têm tirado notícias falsas da internet.
 
 RELEVOU
Procurador nega medidas para monitorar mensagens

 
Não há como monitorar mensagens enviadas pelo aplicativo WhatsApp, que preza pela privacidade, nem aplicar a ele a mesma metodologia de combate às fake news empregada em redes sociais como Facebook e Twitter.
O problema das notícias falsas é menor do que parece, e 90% das conversas no WhatsApp são interpessoais, e não por meio de grupos.

Esse é o resumo que o vice-procurador-geral eleitoral, Humberto Jacques de Medeiros, fez de uma videoconferência realizada na terça (16) entre membros do conselho consultivo de fake news do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e quatro representantes do WhatsApp, que falaram do Vale do Silício, na Califórnia.

"Nas redes sociais, a metodologia consiste em alfabetização midiática -ensinar as pessoas a serem críticas-, 'fact checking' -as notícias mentirosas serem rapidamente respondidas pelas agências de checagem- e direito de resposta. Isso é factível nas redes sociais, mas o WhatsApp está aquém disso", disse Medeiros.

"Assim como para a imprensa o sigilo da fonte é sagrado, para um mensageiro como o WhatsApp a privacidade das comunicações é sagrada. Ele considera que aquilo que duas pessoas conversam não é revelável, não é visível e nem ele sabe."

Membros do conselho consultivo do TSE identificaram, após o primeiro turno, que o WhatsApp é um dos principais meios de transmissão de notícias falsa. Contudo, o vice-procurador-geral eleitoral disse que, conforme os dados da empresa, as comunicações pelo WhatsApp são interpessoais, e não para várias pessoas ao mesmo tempo.

"Essa é uma das coisas que o WhatsApp demonstra na conversa conosco, que 90% do tráfego de WhatsApp no Brasil é interpessoal. Não é essa megalópole de grupos que as pessoas tendem a imaginar", afirmou Medeiros.
Questionado por jornalistas sobre a "enxurrada" de fake news vista nestas eleições, o procurador minimizou e pediu cautela no anseio pelo enfrentamento. Para ele, numa sociedade democrática, as pessoas não podem ter medo de se expressar.
 
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